Mecanomorfia Educacional: Uma Crítica a Partir da Teoria
Comportamentalista de Alberto Guerreiro Ramos
Mecanomorfia Educational: A Review from the Behaviorist Theory of
Alberto Guerreiro Ramos
Mecanomorfia Educacional: Una Crítica a Partir de la Teoría
Comportamentalista de Alberto Guerreiro Ramos
Everton Marco Batistela1, Mariza Rotta2
1 Docente da Universidade Tecnológica do Paraná–UTFPR, Brasil.
Filósofo, Mestre em Sociologia e Doutor em Sociologia. Correio
eletr�nico: em.batistela@hotmail.com
2 Docente da Universidade Comunitária da Regi�o de Chapecó-UNOCHAPECó,
Brasil. Pedagoga, Mestre em Ci�ncias Sociais e Doutoranda em Educa��o.
Correio eletr�nico: mzrotta@gmail.com
Dirección para correspondencia
Resumo
A crítica da modernidade se tornou debate comum nas últimas décadas do
século XX, empreendida por autores preocupados com a constru��o de
alternativas societárias. Uma das linhas teóricas centrais do debate
refere-se ao conceito de racionalidade, tendo sido preocupa��o central
em Weber, Mannheim, Horkheimer, Adorno e outros. Alberto Guerreiro
Ramos, expoente sociólogo brasileiro da segunda metade do século XX,
prop�e uma crítica da modernidade pela perspectiva de sua racionalidade
organizacional, condensada em sua Teoria da Síndrome
Comportamentalista. Essa teoria tenta compreender os fundamentos e as
dimens�es básicas da raz�o moderna: Individualismo, Perspectivismo,
Formalismo e Operacionalismo. Em suma, a teoria mostra que vivemos
imersos numa raz�o centrada no mercado, que fomenta comportamentos em
detrimento da a��o (criativa) e que reduz a capacidade racional humana
aos seus aspectos instrumentais e mercadológicos. A partir disso,
tentaremos compreender em que medida a racionalidade moderna acaba
forjando um paradigma educacional funcionalista, reprodutivista e
mecanomórfico.
Palavras-chave: Racionalidade moderna, Alberto Guerreiro Ramos,
educa��o, Brasil.
Abstract
The critic of the modernity became common debate in the last decades of
the century XX, undertaken by authors worried with the construction of
alternative partners. One of the central theoretical lines of the
debate refers to the concept of rationality of the modernity, having
been central concern in Weber, Mannheim, Horkheimer, Adorno and others.
Alberto Guerreiro Ramos, exponent Brazilian sociologist of the second
half of the century XX, proposes a critic of the modernity for the
perspective of its rationality organizacional, condensed in its
Syndrome Theory Behavioral. That theory tries to understand the
foundations and the basic dimensions of the modern reason:
individualism, perspectivism, formalism and operationalism. In highest,
the theory shows that lived immerged in a reason centered in the
market, that foments behaviors in detriment of the action (creative)
and that reduces the human rational capacity to its instrumental
aspects and marketing. Starting from that, we will try to understand in
that measured the modern rationality ends up forging a paradigm
educational.
Key-word: Modern rationality, Alberto Guerreiro Ramos, education,
Brazil.
Resumen
La crítica de la modernidad se convirtió en debate común en las últimas
décadas del siglo XX, emprendida por autores preocupados por la
construcción de alternativas solidarias. Una de las líneas teóricas
centrales del debate se refiere al concepto de racionalidad, y fue
preocupación central en Weber, Mannheim, Horkheimer, Adorno y otros.
Alberto Guerreiro Ramos, exponente sociólogo brasileño de la segunda
mitad del siglo XX, propone una crítica a la modernidad desde la
perspectiva de su racionalidad organizacional, condensada en su Teoría
de la Síndrome Comportamentalista. Esa teoría intenta comprender los
fundamentos y las dimensiones básicas de la razón moderna:
Individualismo, Perspectivismo, Formalismo y Operacionalismo. En
síntesis, la teoría muestra que vivimos inmersos en una razón centrada
en el mercado, que fomenta comportamientos en detrimento de la acción
(creativa) y que reduce la capacidad racional humana a sus aspectos
instrumentales y mercadológicos. A partir de eso, en este documento
intentaremos comprender en qué medida la racionalidad moderna acaba por
forjar un paradigma educacional funcionalista, reproductivista y
mecanomórfico.
Palabras clave: Racionalidad moderna, teoría comportamentalista,
educación, Brasil.
1. Introdu��o
Este estudo pretende apresentar um arcabou�o conceitual de algumas
tend�ncias fundantes do pensamento moderno que s�o inerentes à vida
social do homem contempor�neo, que, grosso modo, estruturam uma forma
de conduta que é assimilada no convívio social. Após esta análise,
desenvolveremos uma argumenta��o em torno da necessidade de resgatar
alguns elementos na educa��o que possibilitem superar a sua estrutura
reprodutivista, formalista e totalitária, que defendemos ser
determinante na ci�ncia, e por consequ�ncia, na educa��o.
Postulamos isso ancorados no percurso histórico da sociedade e do
pensamento moderno (ci�ncia moderna), desde a passagem do modo de
produ��o feudal e do pensamento teológico, ao modo de produ��o
capitalista, nas suas várias fases e nos seus vários imperativos
ideológicos. é preciso, contudo, entender como isto se dá na grande
estrutura social, para ver presente também no campo educacional.
A compreens�o disso fica mais clara ao estabelecermos um breve
entendimento sobre comportamento. Principiamos por esta análise, porque
compreendemos que a sociedade, como também a educa��o, est�o enredadas
em comportamentos. As organiza��es constitutivas da sociedade s�o, sem
dúvida, sistemas cognitivos. E por isso, os membros de uma organiza��o
em geral assimilam, interiormente, tais sistemas e assim, sem saberem,
tornam-se pensadores inconscientes. Ficam institucionalizados.
A a��o inconsciente é ent�o, o comportamento. Ele é uma forma de
conduta que se baseia, como diz Alberto Guerreiro Ramos (1989, p. 51),
na “racionalidade funcional ou na estimativa utilitária das
consequ�ncias”. Sua categoria mais importante é a conveni�ncia. Em
consequ�ncia, o comportamento é desprovido de conteúdo ético de
validade geral. é um tipo de conduta mecanomórfica, ditada por
imperativos exteriores.
A conduta comportamentalista, conforme a definimos brevemente, surgiu
como consequ�ncia de um esfor�o histórico sem precedentes para modelar
uma ordem social de acordo com critérios de economicidade que foi
transformando o indivíduo em uma criatura que se comporta. é uma
disposi��o socialmente condicionada, que afeta a vida das pessoas
quando estas confundem as regras e normas de opera��o particular com
regras e normas de sua conduta como um todo.
A ofusca��o do senso pessoal de critérios adequados de modo geral à
conduta humana tornou-se uma característica básica das sociedades
industriais contempor�neas. Essas sociedades constituem a culmina��o de
uma experi�ncia histórica, que tenta criar um tipo de vida humana
associada, ordenada e sancionada pelos processos auto reguladores do
mercado. N�o apenas o mercado e seu caráter utilitário tornaram-se
for�as históricas e sociais inteiramente abrangentes, em suas formas
institucionalizadas e em larga escala, mas também demonstraram ser
altamente conveniente para a escalada e a explora��o dos processos da
natureza e para a maximiza��o da inventiva e das capacidades humanas de
produ��o. No entanto, o indivíduo, com isso, ilusoriamente ganhou
melhora material em sua vida e pagou por ela com a perda do senso
pessoal de auto orienta��o. é muito ilustrativo, neste sentido, a
associa��o dos ideais científicos com os ideais capitalistas.
Está contido neste modelo de sociedade, cujo cora��o é mercadológico, a
astúcia de induzir o ser humano a internalizar a coa��o como condi��o
normal de sua exist�ncia. Espera-se das pessoas que elas acatem as
determina��es impostas, de cima para baixo, e que definem o papel que
necessitam desempenhar. Como resultado, há uma completa aceita��o
acrítica das determina��es referentes aos papeis profissional e social.
Passam ent�o a conformarem-se a modelos estereotipados, no convívio
social, no trabalho, na escola, etc.
Nesse sentido, para se compreender corretamente as teses iniciais aqui
colocadas, procederemos pela apresenta��o e análise das partes
principais constitutivas da Teoria da Síndrome Comportamentalista de
Alberto Guerreiro Ramos. Em seguida, partindo do conhecimento dessa
teoria, apresentamos a tese do funcionalismo na educa��o, bem como uma
análise crítica do modelo educacional vigente que se configura a partir
dessa orienta��o teórica fundante da modernidade.
2. A teoria da síndrome comportamentalista
Para clarearmos o que dissemos, analisaremos quatro tra�os principais
que atribuímos ser característica da conduta comportamentalista3: a) os
fundamentos da individualidade; b) o perspectivismo c) o formalismo; d)
o operacionalismo. Ao indicarmos as conex�es entre estes quatro tra�os,
no desenrolar da conceitua��o de ambos, no apontamento das suas
características e na estrutura��o de suas a��es sobre a exist�ncia
humana, vai se constituindo a compreens�o dos direcionamentos externos
que s�o impostos sobre o homem.
2.1 O individualismo
Na sociedade medieval, principalmente, os indivíduos encontravam base
firme para o desenvolvimento de suas identidades individuais, através
de uma firme base meta-histórica (Deus). Nas sociedades modernas, a
express�o da identidade é um processo sociomórfico. Ela n�o se
reconhece mais como miniatura de um cosmos maior, mas como um contrato
amplo entre seres humanos. Assim, a conduta humana se conforma a
critérios utilitários, que, a seu turno, estimulam a fluidez da
individualidade. Na verdade, o homem moderno é uma fluida criatura
calculista, que se comporta, essencialmente, de acordo com regras
objetivas de conveni�ncia.
A ci�ncia moderna, a partir do século XVII, passa a ver a vida humana
com um sentimento permanente de transitoriedade. Valores e propósitos
n�o s�o mais vistos como inerentes às próprias coisas. As coisas est�o
fadadas a se encadearem num mundo em infinita progress�o. Neste mundo
n�o há um tornar-se algo. O que prevalece é um sentimento generalizado
de transitoriedade, como diz Witehead (1967).
Por sua vez, a revolu��o copernicana fez alguns estragos na
hierarquiza��o medieval. à semelhan�a da astronomia, também na
sociedade, há uma altera��o no eixo gravitacional. Nesse universo
infinito, do qual Deus é o verdadeiro centro, cada ponto é, da sua
perspectiva, uma espécie de centro relativo. é, portanto, nessa
individualiza��o que se revela na busca do "indivíduo espiritual", em
oposi��o ao simples homem como ra�a, povo, partido, corpora��o, família
ou qualquer outra forma de coletivo, buscando as profundezas da
subjetividade, que o homem acabará criando as bases para uma filosofia
– ética, teoria jurídica, política – que é o liberalismo.
Uma etapa do liberalismo é o seu caráter político. Toma consci�ncia com
as obras de Locke e Montesquieu e tem o seu primeiro grande momento na
Revolu��o Gloriosa inglesa do século XVII. Esse liberalismo
político-jurídico, que tem suas raízes na Inglaterra medieval,
confunde-se com o desenvolvimento das garantias constitucionais da
liberdade.
é, no entanto, com John Locke (1998) que os temas da liberdade e do
indivíduo se corporificam numa doutrina política. Suas obras, sobretudo
o Segundo Tratado Sobre o Governo Civil mostram a "vontade" e a
"liberdade" como pot�ncias do sujeito, quando "ser livre é poder fazer
ou n�o fazer o que se quer". Essa liberdade humana aparece como a
responsabilidade de cada um, n�o pela sua vontade, mas pelos seus atos.
Ao tratar do "estado natural" (também utilizado por Hobbes para
justificar o absolutismo), Locke o faz para justificar a liberdade.
Para ele a raz�o, que é a lei natural, ensina toda a humanidade, de que
sendo todos iguais e independentes, ninguém poderá prejudicar o outro
em sua vida, saúde, liberdade ou posses. A propriedade aparece aí como
um direito decorrente do produto de seu corpo e a obra de suas m�os.
Na justificativa da liberdade e contra a monarquia absoluta, afirma que
a sociedade civil, produto do "consentimento livre" de todos os seus
membros, n�o pode tolerar que alguém dela fa�a parte, colocando-se à
margem ou acima da lei comum. Surge, assim, uma nova ordem política
liberal com a supremacia do poder legislativo, porquanto é o delegado
direto dos membros da comunidade. Mas também este n�o pode afastar-se
do bem público. O legislativo n�o pode ser ininterrupto, nem os
legisladores devem ser executores das leis votadas, sendo que eles
mesmos est�o sujeitos a elas. O executivo deve ser um poder diverso,
subordinado ainda assim ao legislativo. Mas o verdadeiro soberano passa
a ser o povo, pois é ele, e n�o o legislativo, o detentor do verdadeiro
poder soberano. O poder é um depósito confiado aos governantes, em
proveito do povo, e n�o uma submiss�o irrestrita. Se os governantes
agem de maneira contrária ao fim para o qual haviam recebido a
autoridade, o povo pode retirar aquele depósito, isto é, pode retirar
aquela delega��o, retomando a soberania inicial, podendo confiá-la a
quem apresente melhores condi��es para exercer o poder. Para Locke n�o
há um contrato de submiss�o, mas apenas uma delega��o.
Assim, a ideologia do individualismo funda suas bases sobre a igualdade
e a liberdade. Ao desprezarem a hierarquia social, todos os homens
tornam-se iguais e livres perante o Estado. As fun��es determinadas
pela posi��o social que o indivíduo ocupa s�o abolidas e,
conseqüentemente, o Estado n�o consegue administrar a vida social e
individual do homem. N�o há refer�ncias para se espelhar, e a no��o de
direitos e deveres se desvanece. O homem moderno abdica de todo sistema
de cren�as e valores, negligenciando a trajetória de sua história
social para consagrar a satisfa��o pessoal. Ocorre uma desintegra��o do
indivíduo em rela��o à sociedade. Ele vive em fun��o das suas
necessidades individuais, de maneira que a exist�ncia do outro varia de
acordo com sua necessidade.
O sentimento de transitoriedade das coisas, também merece destaque
neste contexto de supremacia da individualidade. é uma consequ�ncia da
interioriza��o acrítica, pelo indivíduo, da auto representa��o da
sociedade moderna, que se define como um precário contrato entre
indivíduos que maximizam a utilidade, na busca da felicidade pessoal,
entendida como uma busca de satisfa��o de uma interminável sucess�o de
desejos.
Em consequ�ncia de seu caráter competitivo, o mundo social como um todo
se torna estranho ao homem, este tenta superar a sua aliena��o, seja
anulando-se através da passiva conformidade a papéis que prevalecem
aqui e ali, ou reconhecendo-se, dentro de si mesmo, afirmando assim uma
identidade demasiadamente consciente de si mesma. Mas já que o centro
ordenador de sua vida n�o está em parte alguma, sua identidade é de sua
própria cria��o. O indivíduo se isola da realidade e é encorajado a
lan�ar-se a procura da própria individualidade, num mundo ordenado de
acordo com regras contratuais de agrega��o social de interesses
competitivos. Quando a condi��o humana é presumida como apenas social,
a individualidade é inevitável.
Ent�o, o forte sentimento individualista, for�a o homem moderno a agir
somente em obedi�ncia a prescri��es externas, sendo incapaz de a��o,
apenas de comportamento, já que n�o delibera livremente. O
individualismo constitui-se, ent�o, na primeira pe�a do quadro que
queremos construir para fundamentarmos teoricamente a no��o do
arcabou�o de comportamentos entendidos como suficientes para as
condutas humanas.
2.2 O Perspectivismo
Com a interpreta��o da sociedade como um sistema de regras contratadas,
o indivíduo é levado a compreender que tanto a sua conduta quanto a
conduta dos outros é afetada por uma perspectiva. é certo que a
perspectiva é sempre um ingrediente da vida humana, em qualquer
sociedade. Mas somente na sociedade moderna é que o indivíduo adquire a
consci�ncia desse fato. Essa sociedade gera um tipo peculiar de
conduta, que merece ser referida como comportamento, e para
comportar-se bem, ent�o, o homem só tem que levar em conta as
conveni�ncias exteriores, os pontos de vista alheios e os propósitos em
jogo.
O destaque do Perspectivismo como um aspecto fundamental do alicerce
psicológico da a��o humana, exige alguns antecedentes históricos para a
sua fundamenta��o. A perspectiva transformou-se em um termo técnico,
primeiro no domínio da pintura. Giotto já admite que aquilo que o
artista oferece numa tela n�o é uma cópia da natureza, mas a natureza
de acordo com os olhos do pintor. Mais tarde Petrarca repetiria Giotto
em sua máxima: “Cada um deveria escrever seu próprio estilo”.
Já no século XVI, na Itália, o Maneirismo assume a característica
básica da arte. é aqui que o conceito de propriedade intelectual,
desconhecido na Idade Média, é reconhecido. No entanto, nessa época, o
perspectivismo n�o está confinado aos meios artísticos. Constitui uma
fei��o da vida diária de um número crescente de pessoas. Na realidade,
o mercado é a for�a subjacente, geradora da vis�o perspectivista da
vida humana associada.
Pode-se perceber, em Maquiavel, por exemplo, que o perspectivismo é
presente na analogia usada por ele na dedicatória d’O Príncipe a
Louren�o de Médici. A dedicatória em si, sob esta ótica, é um recurso
de conveni�ncia. Mas o que deve ser salientado é a caracteriza��o, que
Maquiavel faz, da forma correta de estudar a arte de governar. Ele
compara os estudiosos da política com aqueles
que desenham os contornos dos países se colocam na planície para
considerar a natureza dos montes, e para considerar como as planícies
ascendem aos montes, assim também para conhecer bem a natureza dos
povos é necessário ser príncipe, e para conhecer a dos príncipes é
necessário ser do povo. (Maquiavel, 1979, p. 3)
Maquiavel recorre a esta metáfora perspectivista a fim de declarar que
o estudo da política requer uma integra��o dos pontos de vista tanto do
príncipe quanto do povo.
O príncipe precisa ser instruído sobre a perspectiva do governante para
preservar e aumentar seus bens. Precisa compreender a perspectiva do
cidad�o comum para governar com estabilidade e perman�ncia.
Pode-se ver o Perspectivismo em Maquiavel, também, quando defende que o
príncipe n�o deveria considerar seu dever a prática de qualidades
“consideradas boas”, porque elas podem resultar na sua “destrui��o”. Há
qualidades “que parecem vícios, mas que, se ele as pratica, lhe poder�o
trazer seguran�a e bem-estar” (Maquiavel, 1979, p.64). é certo que,
“todo mundo”, diz ele “admitirá que seria muito louvável que um
príncipe exibisse [as] qualidades... consideradas boas... Mas nenhum
governante pode possuí-las ou praticá-las inteiramente, por causa de
condi��es humanas que tal n�o permitem” (Maquiavel, 1979, p. 64). Ele
é, na verdade, um dos primeiros pensadores modernos que compreenderam
os padr�es motivadores imanentes a uma sociedade centrada no mercado.
Tais padr�es em geral, e o Perspectivismo em particular, tornaram-se os
padr�es normativos da conduta humana.
Essa perspectiva tem consequ�ncias complexas, uma delas dizendo
respeito ao lugar de destaque que a ci�ncia moderna conquistou na
sociedade contempor�nea. Com base no pressuposto de discurso neutro,
objetivo e descritivo, a ci�ncia fez da verdade e do conhecimento seu
latifúndio exclusivo. Mas a perspectiva nietzschiana levanta a suspeita
de que n�o há uma verdade absoluta e coloca a ci�ncia no mesmo patamar
das artes e das religi�es, como apenas uma entre as muitas possíveis
interpreta��es da realidade.
Nietzsche considera que a consci�ncia, por estar condicionada ao lugar
que ocupa no espa�o e a certo momento no tempo, assimila um mundo
aparente determinado pelas necessidades do sujeito, incapaz de
apreender a objetividade. Sustenta que, para os indivíduos e as
espécies, a verdade corresponde a sua maneira de ser, pois suas
representa��es do real constituem a resposta adequada as suas
necessidades. Embora limitada ao ponto de vista do sujeito, cada
verdade é válida nos limites de sua apreens�o.
O sujeito seleciona o que deseja conhecer, sem, no entanto, deformar a
verdade. A realidade apresenta inúmeras perspectivas, todas elas
verdadeiras e inerentes à condi��o humana, pois a supera��o da
perspectiva sugeriria a possibilidade de considerar as coisas de um
ponto de vista absoluto inexistente.
Assim, ao definirmos que o homem moderno está voltado à observ�ncia de
determinadas conveni�ncias exteriores e propósitos em jogo,
descortinamos um segundo elemento fundamental na estrutura��o da
conduta humana externamente orientada.
2.3 O Formalismo
O formalismo é um terceiro aspecto dos fundamentos psicológicos que
inspiram a no��o de conduta comportamentalista, que estrutura valores
fundamentados em aceita��es sociomórficas.
O formalismo ainda é usado hoje em dia como uma categoria explicativa
da conduta humana. Na realidade, tornou-se um tra�o normal da vida
cotidiana, nas sociedades centradas no mercado, onde a observ�ncia das
regras substitui a preocupa��o pelos padr�es éticos substantivos.
Exposto a um mundo infiltrado de relativismo moral, o indivíduo
egoc�ntrico sente-se alienado da realidade e, para superar esta
aliena��o, entrega-se a tipos formalistas de comportamento, isto é, se
sujeita aos imperativos externos segundo os quais é produzida a vida
associada. Torna-se um maneirista. De fato, o maneirismo é a disposi��o
psicológica exigido por um tipo de política divorciada do interesse
pelo bem comum, por um tipo de economia unicamente interessada em
valores de troca, e por uma ci�ncia, em geral, essencialmente definida
por métodos e por praxes operacionais.
O comportamento é uma manifesta��o do maneirismo e é inteiramente
capturado pelos critérios incidentais da arena pública. Seu significado
exaure-se em sua apar�ncia perante os outros. Sua recompensa está no
próprio reconhecimento como adequado, correto, justo. Seu sujeito n�o é
uma individualidade consistente, mas uma criatura fluida, pronta a
desempenhar papéis convenientes.
Uma criteriosa vis�o da natureza humana fundamentada sobre valores
comportamentalistas pode ser extraída da cuidadosa leitura de dois
documentos maneiristas, O Cortes�o, de autoria de Baldesar Castiglione
e da Teoria dos Sentimentos Morais, de Adam Smith. Uma vez que tais
documentos s�o especialmente reveladores em rela��o ao formalismo.
A corte, tal como apareceu na Itália, na Espanha, na Fran�a e em outros
países europeus, nas fases iniciais do capitalismo, foi um fen�meno
histórico especial. Nada, nos domínios da religi�o, da política, da
economia, do militar, do artístico, ou em outros domínios da vida
pública, conquistava caráter normativo, geral, sem primeiro ser
filtrado pela corte. Uma vez que a corte influía decisivamente sobre os
negócios humanos do dia-a-dia, as maneiras predominantes entre os que
eram admitidos em seu círculo transformavam-se em normas de boa conduta
em geral. Pela própria identifica��o com tais maneiras, sem atitude
crítica, Castiglione transforma historicamente critérios precários em
critérios de boa conduta humana.
Castiglione está basicamente interessado na aprova��o social. Assim
sendo, descreve o comportamento palaciano como um padr�o geral de
conduta humana. Ele sugere, inclusive, que a única recompensa da boa
conduta é o louvor público. Para ele n�o há a boa conduta por si só e,
em conseqü�ncia, um dos tipos que criou aconselha o cortes�o a “prestar
aten��o ao lugar e à pessoa em cuja presen�a estiver” e a “regalar os
olhos daqueles que o estiverem olhando” (Castiglione, 1976, p. 116).
Num período posterior da sociedade ocidental, a arena pública
transcenderá a corte e transformar-se-á na própria sociedade. As regras
predominantes de comportamento social transformar-se-�o em regras de
boa conduta em geral.
Em sua Teoria dos Sentimentos Morais, Adam Smith parece tentar
harmonizar o significado de raz�o dado por Aristóteles, com critérios
de economicidade, e substitui aquele significado do patriarca da
filosofia pelo sentimento de gregarismo. Escreve ele:
[...] embora a raz�o seja, indubitavelmente, a fonte das regras gerais
de moralidade, e de todos os julgamentos morais que formam através
dela, é de todo absurdo e incompreensível supor que as percep��es
iniciais do certo e do errado possam ser derivadas da raz�o... Essas
primeiras percep��es, da mesma forma que todos os outros experimentos
em que se fundamentam quaisquer regras gerais, n�o podem ser objeto da
raz�o, mas de imediato senso e sentimento... A raz�o, apenas, n�o pode
tornar qualquer objeto particular, por si mesmo, agradável ou
desagradável à mente. (Smith, 1976, p. 506)
Em Adam Smith, assim como em todos aqueles que afirmam que a moralidade
é compatível com a própria socialidade, o indivíduo é deixado sem um
piso firme, metassocial, para a responsável determina��o do caráter
ético da sua conduta. O Homem n�o age, propriamente, mas comporta-se,
isto é, é inclinado a conformar-se com as regras eventuais da aprova��o
social. Em consequ�ncia, a educa��o n�o visa desenvolver o potencial do
indivíduo para tornar-se um bom homem, no sentido aristotélico. “O
grande segredo da educa��o”, declara Smith, “é dirigir a vaidade a
objetos adequados” (Smith, 1976, p. 417). A corre��o da conduta humana
está na sua mera forma, n�o em seu conteúdo intrínseco. Smith sucumbe
ao fascínio do episódico, cujo modelo é transformado em um padr�o de
conduta humana em geral.
O que se v� ent�o, no seio do formalismo, é uma substitui��o dos
padr�es éticos por regras de comportamento social, baseadas na
apar�ncia. Esta atitude vai absorvendo o homem e conduzindo-o a uma
realidade sem atitude crítica, expondo um mundo infiltrado de
relativismo moral, formando a terceira característica da sociedade
comportamentalista.
2.4 O Operacionalismo
O operacionalismo, como é entendido atualmente, tenta responder à
seguinte pergunta: Como avaliar o caráter cognitivo de uma afirma��o?
Há duas respostas básicas para esta pergunta, e uma delas admite a
exist�ncia de diversos tipos de conhecimento (tal como o metafísico, o
ético, o físico), cada um dos quais requerendo normas específicas de
verifica��o. Todavia, há aqueles que alegam que apenas as normas
inerentes ao método de uma ci�ncia natural de características
matemáticas s�o adequadas para a valida��o e a verifica��o do
conhecimento. Esta última resposta constitui a ess�ncia daquilo que
aqui é denominado de operacionalismo.
O operacionalismo é permeado de uma orienta��o controladora do mundo e,
desse modo, induz o pesquisador a enfocar seus aspectos suscetíveis de
controle. Filosoficamente isto ocorre porque o operacionalismo reflete
a vis�o do universo inerente à física clássica. Por exemplo, Galileu
ensinou que aquilo que é real no mundo só pode ser considerado como
extens�o, espa�o, massa, movimento e solidez. Consequentemente, o
aparelho conceitual para abordar a realidade tem que ser derivado, por
for�a, da matemática. Há pois, uma substitui��o do abstrato pelo
concreto, que Whitehead chama de “falácia da concretidade mal
colocada”, (Whitehead, 1967, p. 51).
Hobbes aceitou a doutrina de Galileu e, de acordo com ela, desenvolveu
sua no��o de “filosofia civil”, express�o que abrange aquilo que é hoje
conhecido como ci�ncia política e social. Assim é que afirma ele que
sentimentos como amor, benevol�ncia, esperan�a, avers�o, da mesma forma
que a conduta humana em geral, “devem ser considerados do ponto de
vista da física” (Hobbes, 1959, p. 72).
Uma vez que as no��es de bem e de mal, e todas as virtudes e
sentimentos pertencentes ao domínio da ética, assumem o caráter de
qualidades secundárias, o planejamento de uma boa sociedade equivale ao
planejamento de um sistema mec�nico, em que os indivíduos s�o
engrenados, por instiga��es exteriores, para suportar as regras de
conduta necessárias para a manuten��o da estabilidade desse sistema.
Na raiz do operacionalismo está o interesse em lidar com problemas
práticos do mundo e esse interesse pode ser encontrado explícito em
Francis Bacon, em seu Novum Organum, onde afirma que “conhecimento é
poder”. Coerente com essa orienta��o é a assertiva de Bacon, de que
“aquilo que é mais útil na opera��o, é o mais verdadeiro no
conhecimento” (Bacon, 1968, p. 122). é nesse sentido que o que deturpa
o operacionalismo é sua identifica��o do útil com o verdadeiro.
Utilidade é uma no��o cheia de ambiguidade ética. Em si mesmo, aquilo
que é útil pode servir para ser tanto eticamente sadio quanto
eticamente errado no domínio social.
Outra característica do operacionalismo é a recusa em reconhecer às
causas finais qualquer papel na explica��o do mundo físico e social.
Sua infer�ncia é a de que as coisas s�o, simplesmente, resultados de
causas eficientes, sendo o mundo inteiro um encadeamento mec�nico de
antecedentes e conseqüentes. Hobbes exprime a idéia de causalidade
inferida pelo operacionalismo como se segue: “Uma causa final n�o tem
lugar sen�o naquelas coisas que tem senso e vontade e isso também
provarei... ser causa eficiente” (Hobbes, 1959, p. 132).
A coer�ncia Hobbesiana a tal afirma��o é expressa na defini��o da
raz�o, como sendo cálculo de consequ�ncias, no sentido mec�nico. Ele
compreendeu, corretamente, que n�o se podia aceitar o operacionalismo
sem reduzir o homem a uma espécie mecanomórfica de entidade. Assim,
conscientemente, ele equipara a liberdade à necessidade. Pensa ele,
desta forma, que o homem nunca age, propriamente, mas cede sempre às
instiga��es exteriores, porque sua “vontade... e cada uma das
inclina��es do homem, enquanto este delibera, s�o igualmente
necessárias, e dependem de uma causa suficiente, tanto quanto qualquer
outra coisa, seja ela qual for” (Hobbes, 1940, p. 247).
Consequentemente o homem n�o age, mas se comporta; porque n�o existe
criatividade no universo mecanomórfico.
Por impressionantes que se afigurem os tra�os básicos da a��o humana
conduzida por comportamentos, deve-se compreender que os mesmos n�o
est�o afetando remotamente a vida das pessoas. Na realidade, constituem
o credo n�o enunciado de institui��es e organiza��es que funcionam na
sociedade centrada no mercado. Para ter condi��es de enfrentar os
desafios de uma tal sociedade, a maioria de seus membros interioriza
comportamentos e seus padr�es cognitivos. Essa interioriza��o ocorre,
geralmente, sem ser notada pelo indivíduo, e assim o comportamento
transforma-se numa segunda natureza.
O operacionalismo dissemina a idéia de que é preciso uma orienta��o
controladora do mundo, ao mesmo tempo se deve recusar reconhecer que as
causas finais possuam qualquer papel na explica��o do mundo físico e
social. A ética, virtudes e sentimentos, assumem o caráter de
qualidades secundárias, por fugirem ao domínio mec�nico. Está
estruturado o arcabou�o teórico da sociedade comportamentalista, que
identifica um ser passivo, que se comporta, sem condi��es de recuperar
a sua ess�ncia humana: a capacidade de agir.
3. Funcionalismo educacional
Estes mesmos aspectos vistos na totalidade da sociedade, se fazem
presente também no campo educacional, como queremos mostrar a seguir. A
crescente complexidade e o agravamento dos problemas sociais, gerados
pelo triunfo da racionalidade econ�mica e da raz�o tecnológica que a
sustenta, levam à necessidade de reorientar os processos de produ��o e
aplica��o de conhecimentos, assim como a forma��o de habilidades
profissionais, para conduzir um processo de transi��o para um outro
modelo de produ��o econ�mica, política e científica.
O discurso desenvolvimentista definiu a cren�a de que a transfer�ncia
de tecnologia moderna seria o meio mais eficaz para reduzir as
disparidades entre os países industrializados e os países em
desenvolvimento. Acreditou-se que uma articula��o funcional do sistema
científico-tecnológico ao sistema econ�mico e produtivo estabelecido,
assim como o aproveitamento das vantagens comparativas oferecidas pela
dota��o de recursos humanos, naturais e tecnológicos de cada país,
aplainaria o fosso de desigualdade entre países pobres e ricos,
dissolvendo as desigualdades regionais e sociais internas num processo
de homogeniza��o tecnológica e cultural.
é neste caminho que a educa��o brasileira, a servi�o dos ideais
desenvolvimentistas, está seguindo. Apoiada no paradigma
estrutural-funcionalista, a educa��o, por muito tempo sustentou uma
mentalidade em que se acreditava ser a escola a institui��o que
possibilitaria a cada “indivíduo”, condi��es de sucesso, sendo a
educa��o como responsável por promover ascens�o social.
Para Parsons, a escola funciona como um agente de socializa��o que
treina as personalidades individuais de modo a se prepararem para
desempenhar, futuramente, o papel de adultos, úteis e funcionais em sua
sociedade. Para ele, ao ingressar na escola, as crian�as estariam ainda
niveladas, com a mesma carga de conhecimentos, apresentando diferen�as
apenas quanto ao sexo. Minimizam-se assim, ou desconsideram-se, no
contexto escolar, as experi�ncias trazidas pelos alunos de seus lares,
do meio em que vivem.
Esta teoria diz-se universalista e polarizadora. O caráter
universalista explica-se pela aplica��o de tarefas, conteúdos e
avalia��es comuns a todos os alunos, enquanto a polariza��o consiste na
reuni�o desses alunos em um único patamar, inferior ao de seus
professores, dando à escola a possibilidade de um julgamento comum do
aproveitamento dos alunos. Acredita-se que, dentro destes padr�es, a
oportunidade oferecida a cada um dos alunos é a mesma, dependendo
apenas deles o aproveitamento dessa condi��o de ascenderem socialmente,
sendo as desigualdades de resultados explicadas pelos dons naturais
possuídos por determinadas crian�as.
Na verdade, esta igualdade de possibilidades é bastante questionável.
Além de ignorar os processos de socializa��o já vividos pela crian�a
fora da escola, desconsidera as diferentes habilidades de aprendizado e
a própria press�o social que acaba por determinar aos desfavorecidos a
impossibilidade de atingir qualquer mudan�a em suas condi��es. é o que
critica Bourdieu no seguinte fragmento:
é provavelmente por um efeito de inércia cultural que continuamos
tomando o sistema escolar como um fator de mobilidade social, segundo a
ideologia da "escola libertadora", quando ao contrário tudo tende a
mostrar que ele é um dos fatores mais eficazes de conserva��o social,
pois fornece a apar�ncia de legitimidade às desigualdades sociais, e
sanciona a heran�a cultura e o dom social tratando como dom natural.
(Bourdieu, 2003 p. 37)
Assim, o que na teoria de Parsons é apresentado como libertador nada
mais é que uma omiss�o do sistema diante da ineficácia da proposta
educacional vigente. Consente que todas as medidas possíveis para sanar
as desigualdades e para promover a possibilidade de ascens�o social já
tivessem sido aplicadas, restando a responsabilidade pela vitória ou
fracasso ao próprio aluno.
A educa��o é, portanto, responsabilidade única da própria crian�a, ou
seja, tendo tido ela as mesmas oportunidades - conteúdos, avalia��es e
tarefas iguais - que os outros alunos, seu insucesso corresponderia
somente à sua indiferen�a, desinteresse e falta de dons que lhe
privilegiem na aquisi��o de novos conhecimentos. Desconsidera-se
qualquer bagagem social que possa intervir neste processo, ou mesmo a
inadequa��o do aluno a este sistema de ensino (ou do sistema de ensino
para o aluno).
Daí dizer que a sele��o promovida pela escola dá-se pela valoriza��o
dos dons e talentos possuídos pela crian�a. N�o se percebe que s�o, na
verdade, habilidades adquiridas no meio cultural em que vivem. Isso
quer dizer que, na acep��o de Parsons, se possuísse “dons”, a crian�a
poderia se mover socialmente, além de conhecer o sucesso escolar.
Esta fundamenta��o Parsoniana estrutural-funcionalista é que embasa
nossa central preocupa��o: a de que a ci�ncia moderna, e por
pressuposto a educa��o corrente, est�o atadas às mesmas causas
(positivistas, totalizantes, uniformalistas, estruturalistas e
funcionalistas) nascidas do jogo da reparti��o dos custos e benefícios
deixados por uma ordem homogenizante, unipolar, que dita as normas do
comércio, da justi�a, da verdade e da equidade. Diante da racionalidade
econ�mica, funcional e instrumental que domina o espa�o da ci�ncia e da
educa��o, propomos uma compreens�o educacional (e portanto uma nova
racionalidade) baseada em novos princípios éticos, valores culturais e
potenciais produtivos, nascidos da consubstancia��o entre educa��o e
meio.
Propor-se a uma compreens�o do significado de meio em educa��o implica
atribuir sentido ao cotidiano e ao seu entorno. Professores, alunos e
comunidade escolar leem, na educa��o, aspectos significativos de acordo
com sua perspectiva cultural. Contudo, refletir sobre a educa��o atual
n�o é tarefa das mais fáceis em uma época caracterizada pela
diversidade de pensamentos, paradigmas e a��es. Vive-se a
heterogeneidade das abordagens sociais, das leituras de mundo, o
esfacelamento das grandes teorias que explicaram as forma��es sociais
até agora. A sensa��o é de caos, de generalidades, de falta de
ancoradouro e de explica��es totalizantes até ent�o consideradas
capazes de serem obtidas. Cabe, ent�o, refletir sobre como se chega a
uma forma de defini��o de meio, compreendendo-a n�o como única, mas por
ser diversa, em acordo com a multiplicidade de saberes possibilitados
pela multiplicidade de abordagens que nossos tempos disp�em.
Daí que entendemos que a educa��o tem mais significado quando está
profundamente imbricada, (integrada), com a comunidade. Assim, o mundo
n�o é somente um amontoado de objetos a serem contemplados com toda
serenidade. Ele n�o se reduz a este amontoado de coisas inertes, ele
apresenta-se de uma maneira sincrética e sobretudo din�mica. N�o existe
de uma parte o indivíduo e de outra o meio, mas um complexo
indivíduo-meio. Assim, n�o é exagero dizer que a rela��o indivíduo-meio
constitui dois aspectos da mesma realidade. Decorre disto que, se no
caso dos animais, há uma acomoda��o à realidade do ambiente, no caso do
homem, há uma modifica��o, adequando-o à sua conviv�ncia. A mudan�a
neste caso n�o é unilateral, é dialética, há reciprocidade entre
indivíduo e meio. Muda um, modifica-se o outro. Assim n�o se pode
pretender que o complexo indivíduo-meio se destrua e se reduza ao nível
do homem, como um ser psiquicamente aut�nomo e distante do mundo. Que
ele apresenta uma diferen�a qualitativa com rela��o às situa��es de
vida que o rodeiam, é um fato inquestionável, mas ele n�o se fixa na
sua condi��o superior e, portanto, n�o pode abdicar da realidade
(corpórea por exemplo) de que é um prolongamento do meio e continuidade
superior do mesmo.
O crescimento progressivo do homem, o equilíbrio interior do complexo
indivíduo-meio, constituem-se a partir de uma realidade já existente,
de uma evolu��o anterior; de tal rendimento, que é anterior à
consci�ncia do sujeito, é que se vai compor a constitui��o de si mesmo
da pessoa. Porém, no mesmo instante em que se constata uma
interdepend�ncia entre indivíduo e meio, há, notadamente uma clara
superioridade do primeiro. O comportamento do homem se apresenta
prodigiosamente enriquecido e, por ele mesmo, radicalmente diferente.
Cabe perguntar aqui: se em raz�o do progresso humano de seu sistema de
significa��o, pode-se tomar o homem como sendo essencialmente
constituído a partir de seu processo abstrativo? No mundo humano, o
ulterior modifica a constitui��o do anterior. Em raz�o disto pode-se
dizer que a objetividade n�o é dom, mas adquire-se historicamente, por
um processo de aprendizagem e no interc�mbio indivíduo-meio.
Contudo, n�o é suficiente que a educa��o tire sua refer�ncia do meio e
em seguida o abandone por n�o ser essencial à abstra��o, supondo um
salto imediato e imprevisível a outro nível de consci�ncia como faz a
educa��o formal, estabelecendo uma separa��o entre indivíduo e meio.
Esta cis�o radical operada antes de tudo entre o sujeito e o objeto é
que queremos por em causa, averiguando aí as implica��es na a��o
educativa. Toda a quest�o está em saber, com efeito, se é através da
observa��o dos fatos anteriormente estabelecidos que se define uma
certa progress�o aplicável à estrutura da aprendizagem, ou o contrário,
a estrutura representativa (conhecimento teórico) constitui-se
independente do meio.
Nossa perspectiva se firma no postulado de que é a partir do vivencial
que se busca a organiza��o das demais estruturas, como a intelig�ncia
espacial e a intelig�ncia racional ou lógica. Ent�o, é gra�as à a��o
correlata dos processos de assimila��o do meio e acomoda��o ao meio que
o homem eleva-se progressivamente à intelig�ncia conceitual. Por um
lado, a assimila��o recíproca dos esquemas e das múltiplas combina��es
do meio favorecem a acomoda��o; de outro lado, a acomoda��o aos
movimentos do meio prolonga-se em assimila��o, garantindo aquisi��es
novas e a manuten��o das antigas.
Deve-se, contudo observar certo cuidado ao se postular tais afirma��es,
consistindo principalmente em evitar certa redu��o do psicológico ao
biológico ou de sobreposi��o de um ao outro. Portanto, é necessário
estabelecer que há uma reciprocidade de necessidades; tanto o meio é
necessário ao indivíduo, quanto este ao meio, na medida exata. Daí se
tem que, parte do indivíduo integra-se ao meio e outra parte lhe é
constitui��o própria, formando o que chamamos de complexo
indivíduo-meio.
4. Considera��es finais
Fazendo intervir agora aquela ideia inicial, do meio como sendo o mundo
da vida, com as especifica��es que acabamos de expor, parece n�o restar
dúvidas que o ensino tradicional falha n�o tanto por ser disciplinar,
mas por n�o orientar e impulsionar as capacidades cognitivas,
inquisitivas e criativas dos estudantes, e por estar desvinculado dos
problemas de seu contexto sociocultural e ambiental. Neste nível é que
vem corroborar a compreens�o do meio, como fomentadora de um pensamento
da complexidade que seja crítico, participativo e propositivo.
O discurso dominante do desenvolvimento sustentado está levando à uma
readapta��o das consci�ncias, atitudes e capacidades, por ter,
principalmente, institucionalizado o ideal da educa��o. Contudo, a
forma��o vai além de um processo de capacita��o que busca reciclar e
ajustar as habilidades profissionais às novas fun��es e normas dos
processos produtivos e para a cria��o de controle das novas
tecnologias. De acordo com Leff (2002, p. 254) a forma��o “ultrapassa a
assimila��o passiva e a reprodu��o crítica e um modelo global
homog�neo, que é questionado pelos interesses e perspectivas que
definem o campo diverso e conflitivo do desenvolvimento sustentável”.
A forma��o é um processo de cria��o de novos valores e conhecimentos,
vinculados a transforma��o da realidade. Inserida aí, a compreens�o do
meio articula as forma��es ideológicas e conceituais com os processos
de produ��o e aquisi��o do conhecimento e saberes, num processo
histórico de transforma��o social.
O conceito anterior de meio, entendido como sendo a totalidade dos
organismos e as condi��es necessárias a sua vida que constituem um
todo, indica, claramente, a marcante influ�ncia do pensamento
biologista, além de entender a totalidade, circundante do indivíduo,
como constituídas de interdepend�ncias, estrategicamente articuladas
que colaboram para que aquele meio seja constituído.
A compreens�o do meio, por sua vez, é fundada na diversidade das
condi��es naturais e culturais que o definem. Portanto, n�o na
unicidade totalizante, mas na complexidade globalizante. Assim, a
quest�o do meio oferece uma vis�o renovada do saber que traz implícito
um novo sistema de valores, que, por consequ�ncia, promoverá nova
forma��o, nova moralidade e novas habilidades.
Na forma como, tanto o edifício do conhecimento, quanto o sistema
educacional contempor�neo foram constituídos, inscrevem-se no seio do
aparelho ideológico do estado, reprodutor do modelo social desigual,
que, como diz Leff (2002, p. 256) “reproduz o modelo social desigual,
insustentável e autoritário, através de forma��es ideológicas que
moldam os sujeitos sociais para ajustá-los às estruturas sociais
dominantes”. Por isso mesmo, que n�o basta uma retroalimenta��o entre o
meio e a educa��o, é preciso, mais que isto, reconstruir o arcabou�o
epistemológico da educa��o, sem esquecer que isto deve derivar das
práticas concretas que se desenvolvem no meio.
Implica tomar também, o ambiente em seu contexto físico, biológico,
cultural e social, como uma fonte de aprendizagem, como uma forma de
concretizar as teorias na prática a partir das especificidades do meio.
Porém, diz Leff (2002, p. 208) o saber
é um projeto de revis�o e reconstru��o do mundo através de estratégias
conceituais e políticas que partem de princípios e fundamentos de uma
nova racionalidade que foram desterrados e marginalizados pelos
paradigmas dominantes da ci�ncia, como impurezas do conhecimento e
externalidades do processo de desenvolvimento.
Desta forma ent�o, a pedagogia do meio é consubstanciada com uma nova
racionalidade e com um novo saber, que entendem a realidade como
sistemas complexos integrados por processos diferenciados de ordem
natural e cultural.
Diferentemente da pedagogia em voga, que é economicista, mercadológica,
positivista, a pedagogia do meio trabalha no sentido de ensinar a
perceber e internalizar a complexidade, diversidade e potencialidades
do ambiente, exatamente em oposi��o a fragmenta��o da realidade. Neste
sentido, a pedagogia deverá gerar condi��es de compreens�o dos
processos inter-relacionados e interdependentes (n�o estáticos,
homog�neos, regidos por leis universais) e de compreens�o da
causalidade múltipla dos fatos (complexidade da realidade).
Portanto, a constru��o de uma nova racionalidade exige a transforma��o
dos paradigmas científicos tradicionais e a produ��o de novos
conhecimentos, o diálogo, hibrida��o e integra��o de saberes, assim
como a colabora��o de diferentes especialidades. Isto gera novas
perspectivas epistemológicas e métodos para a produ��o de
conhecimentos, assim como para a integra��o prática de diversos saberes
no tratamento de um problema comum (Apostel, Berger, Briggs y Michaud,
1975). Tra�a-se assim “novas estratégias teóricas para a produ��o
científica e a inova��o tecnológica” (Leff, 2002), envolvidas
missivamente com um novo ideal de retotaliza��o do saber, que n�o seja
somente a soma nem a integra��o dos conhecimentos disciplinares
herdados, ou a busca de um paradigma globalizante, ou organiza��o
sist�mica do saber, e por fim, que n�o seja a uniformiza��o conceitual
por meio de uma metalinguagem interdisciplinar.
Notas y Citas
3 Os conceitos usados aqui (individualismo, perspectivismo, formalismo
e operacionalismo) foram retirados da obra de Alberto Guerreiro Ramos,
referenciada no final deste artigo.
Refer�ncias
Apostel, Leo, Berger, Guy, Briggs, Asa y Michaud, Guy. (1975).
Interdisciplinariedad. Problemas de la Enseñanza y de la Investigación
en las Universidades. México: Asociación Nacional de Universidades e
Institutos de Enseñanza Superior (Trad. de Francisco J. González).
México: Anuies.
Bacon, Francis. (1968). Novum Organum (2a. ed.). S�o Paulo: Abril
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Bourdieu, Pierre. (2003). A escola conservadora: as desigualdades
frente à escola e à cultura. In Maria Alice Nogueira, e Alfredo Catani
(eds.), Escritos de educa��o (5a. ed., pp. 37-52). Petrópolis: Vozes.
Castiglione, Baldesar. (1976). Il Libro del Cortegiano (V edizione).
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Guerreiro Ramos, Alberto. (1989). A nova ci�ncia das organiza��es – uma
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Hobbes, Thomas. (1959). Os Pensadores (2a. ed.). S�o Paulo: Abril
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Hobbes, Thomas. (1940). The English Works (vols. 1, 4 e 5). London:
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Leff, Henrique. (2002). Saber Ambiental: sustentabilidade,
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Maquiavel, Nicolau. (1979). O Príncipe (2a. ed.). S�o Paulo: Abril
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Britto (org.), Sociologia da Juventude: a vida coletiva e juvenil (pp.
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Smith, Adam. (1976). A Teoria dos Sentimentos Morais. Indianápolis,
Indiana: Liberty Classic.
Whitehead, Alfred North. (1967). Science and the modern world. New
York: The Free Press.
Correspondencia a:
Everton Marco Batistela. Docente da Universidade Tecnológica do Paraná–UTFPR, Brasil.
Filósofo, Mestre em Sociologia e Doutor em Sociologia. Correio
eletr�nico: em.batistela@hotmail.com
Mariza Rotta. Docente da Universidade Comunitária da Regi�o de Chapecó-UNOCHAPECó,
Brasil. Pedagoga, Mestre em Ci�ncias Sociais e Doutoranda em Educa��o.
Correio eletr�nico: mzrotta@gmail.com
Ensayo recibido:13 de febrero, 2014 Enviado para corrección:16 de
julio, 2014 Aprobado: 22 de setiembre, 2014