Actualidades en Psicología, 36 (133), julho-dezembro, 2022, 87-99  
DOI: 10.15517/ap.v36i133.45973  
ISSN 2215-3535  
Universidad de Costa Rica  
Relacionamentos durante a quarentena: as justificativas  
para aceitar o abuso psicológico em mulheres  
Relationships during Quarantine: The Justifications for  
Supporting Psychological Abuse in Women  
Tamyres Tomaz Paiva 1  
Paulo Gregório Nascimento da Silva 3  
Suiane Magalhães Tavares 2  
1 Curso de Psicologia, Faculdades Nova Esperança (FACENE/FAMENE), Brasil.  
2,3 Departamento de Pós-graduação em Psicologia Social, Universidade Federal da Paraíba, Brasil.  
1
2
3
Recebido: 25 de fevereiro de 2021. Aceitado: 19 de setembro de 2022.  
Resumo. Objetivo. Analisar o papel das atitudes frente a convivência conjugal durante o período da quaren-  
tena, como justificativa da relação entre as ideologias baseadas no tradicionalismo e a aceitação do abuso  
psicológico em mulheres. Método. Esta pesquisa é do tipo transversal e foi realizada de forma online com 260  
mulheres oriundas de diferentes regiões do Brasil. Resultado. Os resultados demonstraram efeitos positivos e  
significativos (efeito indireto = .14; SE = .04; IC 95% .05; .22), sugerindo que as mulheres, que endossam mais  
ideologias tradicionalistas, utilizam mais justificativas, por meio da quarentena, e aceitam mais o abuso psico-  
lógico. Essa mesma relação ocorreu nas estratégias diretas e indiretas do abuso psicológico. Logo, este estudo  
apresentou evidências preliminares acerca de um possível reforçador do abuso psicológico.  
Palavras-chave. Abuso psicológico, COVID-19, tradicionalismo, quarentena, mulheres  
Abstract. Objective. This online cross-sectional research aimed to analyze the role of attitudes towards conju-  
gal coexistence, during the period of quarantine, as a justification of the relationship between ideologies based  
on traditionalism and the acceptance of psychological abuse on women. Method. For this purpose, 260 women  
from different regions of Brazil were studied. Results. The results showed positive and significant effects (medi-  
ated effect = .14; SE = .04; 95% CI .05; .22), suggesting that women who endorse more traditionalist ideologies  
use more justifications, through quarantine, and are more accepting of psychological abuse. This same rela-  
tionship occurred in the direct and indirect strategies of psychological abuse. Therefore, this study presented  
preliminary evidence about a possible reinforcer of psychological abuse.  
Keywords. Psychological abuse, COVID-19, traditionalism, quarantine, women  
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rem em casa sob o mesmo teto que os seus agres-  
sores, agravando a vulnerabilidade das mulheres à  
Introdução  
“Imagine um mundo onde a norma é a igualda-  
de de gênero”. Essa frase marca a abertura da cam-  
panha “Geração de igualdades” da Organização das  
Nações Unidas Mulheres (ONU Mulheres, 2020) que  
busca acelerar ações de igualdade de gênero e mar-  
car o 25° aniversário da Declaração de Beijing a qual,  
desde 1979, estabelece programas e políticas públicas  
que levam em consideração a situação da mulher, es-  
pecificamente o combate à discriminação e o fim de  
todas as formas de violência contra mulheres e meni-  
nas. Essa campanha, que no momento foi postergada  
pela United Nations Women (UN Women, 2020), é um  
desafio para todos os Países perante o contexto da  
pandemia que teve início em 12 de março de 2020  
violência doméstica (United Nations Human Rights  
[UNHR], 2020) que ficaram completamente isola-  
das e impossibilitas de buscar ajuda (Viero et al.,  
2020), ficando mais propensas a serem assassina-  
das por familiares e parceiros íntimos (United Na-  
Cabe destacar que, mesmo antes da pandemia,  
60% das mulheres já sofriam violência doméstica,  
provocada, principalmente, por comportamentos  
de controle por parte dos agressores (Peterman  
et al., 2020). Especificamente, no contexto pandê-  
mico, as mulheres foram obrigadas passar mais  
tempo em casa, ficando completamente isoladas  
e impossibilitadas de buscar ajuda, acentuado os  
riscos de agressão (Viero et al., 2020).  
Quase todos os países decretaram o isolamento  
social horizontal, obrigando as pessoas, do grupo  
de risco ou não, a ficarem em período de quarente-  
na integral ou parcial (exceções sendo as áreas de  
saúde e de assistência básica) devido ao aumento  
exponencial de mortalidade em âmbito mundial  
(ver WHO, 2020b). A quarentena é uma medida res-  
tritiva oficial que busca limitar o trânsito de pessoas,  
visando diminuir a transmissão viral. Entretanto,  
embora eficazes (WHO, 2020a), essas medidas de  
isolamento podem intensificar consideravelmente o  
risco de violência familiar em todo o mundo. Isso  
foi evidenciado em muitos países que, durante a  
pandemia, demonstraram um aumento alarmante  
nos relatos de casos de violência doméstica (Cam-  
pbell, 2020). Por exemplo, na América do Sul, após  
o Peru impor um bloqueio nacional rígido, houve  
uma incidência (48%) maior de pedidos de ajuda  
por telefone a grupos de apoio para a violência  
contra as mulheres, entre abril e julho de 2020. Já o  
estudo realizado por Sousa et al. (2021), identificou  
que no Brasil houve um aumento entre 15% e 50%  
nos casos de violência contra a mulher durante a  
pandemia COVID-19 nos diferentes estados.  
Quanto a vulnerabilidade das mulheres, esta  
se refere aos abusos sofridos dentro dos lares,  
característica que pode ser definida como toda e  
qualquer forma de dano corpóreo, negligência,  
ameaça, coerção, humilhações; além de acarreta-  
rem consequências mais graves, como, adoecimen-  
to mental e a morte (UNHR, 2020). No Brasil, a Lei  
2006) configura a violência contra mulher como  
qualquer ação ou omissão baseada no gênero que  
lhe causa lesão, morte, sofrimento sexual, físico,  
moral, patrimonial ou psicológico. Especificamente,  
dada a sua prevalência, este estudo foca no abuso  
psicológico que é definido como um ato depreciati-  
vo e destruidor do estado emocional (Loring, 1994)  
da parceira. Este ato está hierarquizado conforme  
sua gravidade. A primeira agressão mais grave re-  
fere-se às formas diretas que afetam a cognição,  
emoção e os comportamentos; e a segunda mais  
grave compreende as formas indiretas por meio  
da pressão, manipulação e coerção (Porrúa-García  
suma, o abuso psicológico é caracterizado por in-  
sultos, menosprezo, humilhações constantes, inti-  
midação (por exemplo: destruir coisas) e ameaças  
de dano (WHO, 2012).  
Isso pode ser explicado pelo fato de que o perío-  
do de quarentena obriga as mulheres a se mante-  
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tradicionalista, mais se comete abuso cotra a par-  
O gênero baseado no tradicionalismo  
ceira. Rollero et al. (2019) também observaram que  
o gênero conseguia explicar atitudes favoráveis ao  
abuso emocional contra as mulheres. Isso significa  
que homens com maiores níveis de orientação para  
dominância social favorecem a limitação da liber-  
dade, apresentando atitudes de hostilidade em re-  
lação às mulheres. Na mesma linha, Garaigordobil  
e Aliri (2013) demonstraram que as atitudes autori-  
tárias voltadas para a direita (mais conservadoras)  
se relacionaram com as atitudes sexistas, sexismo  
ambivalente e com justificativas que legitimam a  
violência doméstica.  
O tradicionalismo é um dos aspectos da defi-  
afastada da visão definida pela teoria da persona-  
lidade autoritária de Adorno et al. (1950). O tradi-  
cionalismo é tido não como uma personalidade do  
indivíduo, mas como uma atitude ideológica que  
favorece a conformidade, baseada em hierarquias  
sociais, que expressa um valor ou meta motivacio-  
nal para manter os estilos tradicionais incumbidos  
de normas e moralidade e pode resistir ao estilo de  
vida liberal, deixando as pessoas menos abertas a  
Assim, considerando as evidências apresentadas  
em estudos prévios, que demonstraram a falta de  
liberdade de expressão da minoria em uma socieda-  
de normativa. O presente estudo parte da hipótese  
de que as atitudes baseadas nos tradicionalismos, ou  
seja, mais conservadoras, favoreceram uma maior  
aceitação do abuso psicológico nas mulheres.  
É de se esperar que as normas e a moralidade  
guiem os comportamentos das pessoas a favor de  
um regime fechado, marcado por relações de domi-  
nação baseadas no gênero. Esse elemento específico  
contribuiu para a manutenção de uma visão etno-  
cêntrica de que um determinado grupo se sobrepõe  
sobre outro em termos de qualidade do grupo (Al-  
temeyer, 1981). É nesse contexto que os papéis tra-  
dicionais de gênero se manifestam, fundamentados  
em uma ideologia tradicionalista. Os papéis sociais  
podem contribuir para a perpetuação de estereóti-  
pos e comportamentos que distinguem os gêneros  
(Eaton & Rose, 2011) nos relacionamentos afetivos  
que, por sua vez, são reforçados por meio da obser-  
vação e modelagem (Altemeyer, 1996) com a finali-  
& Pratto, 1999) e a desigualdade.  
A violência de gênero é um exemplo clássico da  
consequência da desigualdade dos papéis sociais  
que coloca a mulher como agente passivo e o ho-  
mem como agente ativo (Ali & Naylor, 2013). Para  
teoria da dominância social esse mecanismo é usa-  
do para reforçar a ideologia de superioridade dos  
que mantém como oposição a liberdade individual e  
coletiva das pessoas, seguindo à risca todos os man-  
damentos normativos da sociedade hierarquizada  
O papel das justificações na aceitação do abuso  
Desde sempre, os grupos que detém o poder  
mantêm a dominação dos grupos menos favoreci-  
dos. Mas, recentemente, uma justificativa para isso  
foi o período do isolamento social. Pessoas de gru-  
pos majoritários, como empresários, homens e pes-  
soas de cor branca, isto é, que possuem maior poder  
econômico, justificam seus comportamentos de in-  
satisfação por meio de críticas, falta de respeito e até  
com violências. Nomeadamente, o foco do presente  
estudo são as justificações do abuso psicológico em  
mulheres dentro de relacionamentos amorosos.  
Uma motivação psicológica básica que será  
testada no presente estudo é se as atitudes fren-  
te ao período da quarentena dos parceiros é uma  
justificativa para aceitação do abuso psicológico.  
De acordo com a teoria da discriminação justifica-  
da (TDJ), nas sociedades que se reprimem o pre-  
conceito contra grupos minoritários, as pessoas  
buscam argumentos que, aparentemente, não se-  
jam preconceituosos para legitimar o próprio pre-  
No estudo de Salari e Baldwin (2002), foi en-  
contrado que quanto mais se endossa a ideologia  
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Ou seja, as pessoas irão ocultar o preconceito ou  
justificador para o apoio a violência contra a mul-  
her, isso porque a restrição desiguala a aplicação  
de direitos entre homens e mulheres.  
atitudes preconceituosas com justificativas que le-  
gitimam a discriminação (Pereira & Vala, 2010) ou,  
até mesmo, a violência (Paiva & Pereira, 2021). Esse  
mecanismo não permite apenas que as pessoas  
discriminem, mas que se mostrem coerentes com  
a norma antipreconceito (Pereira & Vala, 2010). Em  
suma, verifica-se que a Social Dominance Orien-  
tation, ou orientação para a dominância social,  
prevê de forma eficiente o preconceito em relação  
a grupos estrategicamente desvalorizados e, con-  
sistentemente com as reivindicações da Social Do-  
minance Theory, ou Teoria da Dominância Social,  
tal preconceito tem plausivelmente a função de  
manter e justificar a hierarquia social, o domínio  
intergrupal e a opressão de grupos dominantes  
sobre grupos subordinados.  
Além desses elementos, a vitimização secundária  
também pode ser um justificador para legitimar o  
que as pessoas pensam (Correia, 2003; Tavares et  
al., 2022), isso acontece quando elas culpabilizam  
a vítima e minimizam a violência, ocorrendo tanto  
em países orientais (e. g., Japão) como ocidentais  
Esses estudos mostram como os participantes jus-  
tificam, por meio de atitudes xenófobas, racistas e  
conservadorasa, comportamentos de intolerância  
e insatisfação com os grupos minoritários (Garai-  
gordobil & Aliri, 2013). Cada elemento justificador  
torna mais saliente o preconceito e discriminação  
contra minorias.  
A TDJ sustenta a hipótese de que as justifi-  
cações são um mediador entre o preconceito e a  
2010). Essas justificações legitimam a discrimi-  
nação de forma a manter intacto o autoconceito  
de não-preconceituoso (Pereira et al., 2019). Nossa  
hipótese central se baseia na perspectiva de que  
as atitudes frente à convivência conjugal durante o  
período da quarentena são mediadoras na relação  
do tradicionalismo e o apoio ao abuso psicológico  
em mulheres. Isso é, o período em que as pessoas  
estão mais isoladas socialmente pode ser um ele-  
mento justificador para isentar o parceiro de seu  
abuso psicológico e assim permanecer no relacio-  
namento abusivo.  
Diferentes estudos apresentam mediadores nas  
relações entre o preconceito com a discriminação  
e, mais afundo, com a aviolência. Isto é, os media-  
dores são variáveis que possuem um efeito sobre  
as variáveis independentes e dependentes. Estu-  
do de Lima-Nunes et al. (2013) demonstrou que a  
restrição da aplicação dos princípios de igualdade  
mediava a relação do preconceito e da discrimi-  
nação contra brasileiros que residiam em Portugal.  
Paiva e Pereira (2021) evidenciaram que a res-  
trição do âmbito de justiça pode ser um elemento  
Além disso, as próprias vítimas podem se auto  
culpar ou culpar seu grupo pela sua desvantagem,  
com a necessidade de manter a justificação do sis-  
tema justo, legítimo e correto (Jost & Banaji, 1994;  
Jost & Kay, 2010). Elas internalizam os estereótipos  
e avaliações negativas de si mesmos, diminuindo a  
sua probabilidade de se rebelar contra o statu quo  
imposto pela sociedade (Jost & Kay, 2010). Mes-  
mo as vítimas de violência podem legitimar esse  
processo de aceitação do abuso psicológico por  
simplesmente aceitarem a condição imposta pela  
pandemia, que é a quarentena.  
Considerando o exposto, é neste cenário da  
pandemia de COVID-19, o presente estudo visa  
analisar o papel das atitudes frente à convivência  
conjugal, no período da quarentena, como justi-  
ficativa da relação entre as atitudes tradicionais e  
a aceitação do abuso psicológico em mulheres.  
Se deseja verificar se existe diferença na aceitação  
quanto ao tipo de abuso psicológico (direto e in-  
direto). Especificamente, pretende-se demonstrar  
um dos legitimadores do abuso psicológico para  
as vítimas de violência nos relacionamentos amo-  
rosos. Assim, argumenta-se que as mulheres com  
atitudes ideológicas voltadas para o tradicionalis-  
mo irão apoiar esse tipo de abuso nas relações  
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conjugais e esse processo é explicado por meio do  
período da quarentena.  
presente estudo. Os participantes indicaram a sua  
concordância com cada afirmação em uma escala  
tipo Likert (1 = discordo totalmente; 5 = concordo  
totalmente). Esta escala permitiu verificar a adesão  
e apoio a valores morais tradicionais presentes nos  
participantes antes do período da quarentena.  
Método  
Participantes  
Participaram do estudo 260 mulheres com idades  
entre 18 e 51 anos (M = 28.4; DP = 14.6). A maioria au-  
todeclaradas heterossexuais (92.9%) e que estão na-  
morando atualmente (61.5%). Também se autodeclara-  
ram de classe média baixa (44.2%), um pouco religiosas  
(29.6%) e de orientação política de esquerda (69.9%).  
Incluímos apenas mulheres que estavam em relaciona-  
mentos afetivos e excluímos aquelas que tinham idade  
abaixo de 18 anos e as que se autodeclararam solteiras  
sem nenhum relacionamento afetivo ou que não esta-  
vam em cumprimento com o período de isolamento  
social (n = 7). As participantes foram todas por con-  
veniência e não-probabilística, oriundas de diferentes  
Estados do Brasil, como: região Centro-Oeste, Sul, Su-  
deste e Nordeste. Foi calculado a partir da calculadora  
Monte Carlo o teste do efeito indireto (N = 260) para  
modelos de mediação simples. Essa calculadora permi-  
te uma simulação de análise do poder da amostra e o  
teste de efeito indireto com um intervalo de confiança  
(Schoemann et al., 2017). Para este estudo, o tamanho  
da amostra fornece 80% de poder para detectar um  
tamanho médio de efeito de .99 para modelos de me-  
Medida de convivência conjugal durante  
a quarentena  
Desenvolvida e validada pelo presente estudo,  
está composta por 7 itens: (a) nos primeiros dias  
de quarentena, passar muitas horas com o meu  
parceiro(a) foi agradável; (b) gosto da quarentena,  
porque me permitiu conhecer mais o meu parcei-  
ro(a); (c) durante a quarentena, eu quis participar  
mais da vida do meu parceiro(a); (d) durante a qua-  
rentena, eu gostei de dividir as tarefas domésticas  
com meu parceiro(a); (e) durante a quarentena, eu  
e meu parceiro(a) nos unimos mais; (f) desejo que  
a quarentena acabe, para que eu consiga ter mais  
privacidade longe do meu parceiro(a); e (g) desejo  
que a quarentena acabe, para encontrar meu par-  
ceiro apenas nas horas vagas. Os itens a, b, c, d, e  
e foram invertidos para o sentido de mau convívio  
no período da quarentena. Esses itens foram anali-  
sados pelos software Factor.  
Os resultados da análise fatorial demonstraram  
a existência de um fator com valor próprio 3.18, ex-  
plicando 57.78% do traço latente. Usando o estima-  
dor WLSMV observamos uma estrutura unidimen-  
sional com bons índices de ajuste: X2(21) = 191.93;  
CFI = .92; GFI = .96; AGFI = .94; RMSEA = 0.10; NNFI  
= 191.93; as cargas fatoriais variaram entre .49 (item  
6), e .81 (item 5); o coeficiente interno foi α = .84 e  
W = .84, isto é, estatisticamente satisfatório. Os par-  
ticipantes indicaram a sua concordância com cada  
afirmação em uma escala tipo Likert (1 = discordo  
totalmente; a 5 = concordo totalmente). Isso nos  
permitiu calcular um índice de quanto os partici-  
pantes possuem atitudes desfavoráveis à convivên-  
cia com o seu parceiro em tempo integral durante  
o período da quarentena.  
Instrumentos  
Escala Right-Wing Authoritarianism  
Desenvolvida por Altemeyer (1981), e reformula-  
da por Duckitt et al. (2010) e validada para o Brasil  
(Vilanova et al., 2018). Essa medida possui diversos  
fatores como Autoritarismo, Contestação à auto-  
ridade, Tradicionalismo e Submissão à autoridade.  
O presente estudo focou no fator Tradicionalismo,  
pois essa subescala consegue se relacionar mais  
com a temática dos valores endossados para a con-  
vivência familiar, composto por 9 itens (e. g. não  
há nada de errado com sexo antes do casamento).  
Seu coeficiente interno demonstrou α = .93 para o  
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Escala de Abuso Psicológico na  
Parceira (EAP-P)  
cativa para aceitar o abuso psicológico em mulhe-  
res que possuem atitudes mais tradicionais a todos  
eram esclarecidos os objetivos e caráter anônimo e  
voluntário da participação, ademais era assegurado  
o respeito aos preceitos éticos de pesquisas com  
seres humanos, sob a supervisão do Comitê de éti-  
ca de uma instituição pública (Número do parecer:  
4.098.062; CAAE: 09344918.5.0000.5188). Seguimos  
as recomendações da Resolução 510/16 e 466/12  
do Conselho Nacional de Saúde.  
lidada para o Brasil (Paiva et al., 2020). É composta  
por 19 itens distribuídos em dois fatores as Estratégias  
indiretas do abuso psicológico (EI; e. g. meu/minha  
parceiro/a tentou me manter afastado/a dos mem-  
bros da minha família) e as Estratégias diretas do abu-  
so psicológico (ED; e. g. meu/minha parceiro/a escon-  
deu informações importantes de mim). No entanto,  
esta escala também pode ser avaliada como um fator  
geral ao qual agrega todos os itens. Seu coeficiente  
interno foi de α = .93 para as ED, α = .91 para a EI,  
e α = .94 para o fator geral, no presente estudo. Os  
participantes indicaram a sua concordância com cada  
afirmação em uma escala tipo Likert (0 = nunca; 4 =  
sempre). Além disso, foi possível verificar a frequência  
com que as participantes são acometidas por esses  
abusos durante o período da quarentena.  
Análise dos dados  
Utilizamos o software JAMOVI, versão 1.1 (The  
jamovi project, 2019), para uma descrição do per-  
fil amostral, a correlação de Pearson bicaudal entre  
as variáveis apresentadas e, a realização da mo-  
delagem de processos condicionais para testar a  
mediação de acordo com Hayes (2013). Especifica-  
mente, testamos se as mulheres que pontuam mais  
alto nas atitudes frente ao tradicionalismo possuem  
efeito direto na aceitação do abuso psicológico e se  
essa relação é mediada pelas atitudes desfavoráveis  
ao convívio conjugal por tempo integral.  
Questionário sociodemográfico  
Foram feitas perguntas sobre o sexo, estado ci-  
vil, idade, religiosidade, orientação política, se estão  
namorando no momento da pesquisa, classe social,  
orientação sexual e se estavam morando em alguma  
região brasileira.  
Resultados  
Inicialmente, foram exploradas as correlações  
entre as variáveis do tradicionalismo, da convivên-  
cia conjugal durante a quarentena e o fator geral de  
violência psicológica, esta última representada pelas  
respectivas subescalas: estratégias diretas e indiretas  
de abuso psicológico. Como pode ser observado na  
Tabela 1, todas as variáveis foram correlacionadas de  
forma significativa e positiva (p < .001).  
Procedimiento  
Os dados foram recolhidos no mês de março  
do ano de 2020, período em que o Brasil decretou  
quarentena em todos os estados brasileiros, isto é,  
período em que estava havendo restrições para sair  
de casa, ir ao trabalho ou qualquer outra forma de  
estar em convívio social. A coleta foi realizada em  
ambiente virtual, disponibilizando-se um link em  
redes sociais e aplicativos de mensagens (e. g. Face-  
book, Instagram, WhatsApp e Telegram). Utilizamos  
a técnica de bola de neve, em que um respondente  
repassa aos seus contatos o link. Os que aceitavam  
participar precisavam indicar seu consentimento  
previamente, mediante o termo livre e esclarecido,  
o qual explicitava os objetivos que era identificar  
se o período da quarentena atua como uma justifi-  
Tabela 1. Correlações entre o tradicionalismo,  
quarentena e as formas de abuso psicológico  
Tradicionalismo Quarentena  
Abuso psicológico  
.21***  
.56***  
E. Indireta  
E. Direta  
.20***  
.19***  
.46***  
.55***  
Nota. ***p < .001.  
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Figura 1. Mediação simples do abuso psicológico  
Para testar a hipótese de que as atitudes frente  
a convivência conjugal durante o período da qua-  
rentena mediaria a relação do Tradicionalismo e o  
Apoio ao abuso psicológico em mulheres realiza-  
mos uma mediação simples. Na Figura 1, é possível  
perceber que o Tradicionalismo continuou tendo  
um efeito direto, sendo marginalmente significativo  
no Apoio ao abuso psicológico. Observou-se uma  
mediação (Efeito indireto = .14; SE = .04; IC 95%  
.05; .22) do convívio conjugal por tempo integral na  
relação do tradicionalismo e abuso psicológico. Isto  
é, quanto mais as mulheres são favoráveis ao tradi-  
cionalismo nos relacionamentos e mais justificam o  
abuso psicológico durante a quarentena.  
Quarentena  
.50***  
Abusos  
psicológicos  
Tradicionalismo  
(.25***)  
.11+  
Figura 2. Mediação simples das  
estratégias diretas do abuso psicológico  
ꢀuaꢁentena  
.55ꢀꢀ  
.27ꢀꢀ  
Como a EAP-P possui duas subescalas, testou-se  
como variável dependente as Estratégias indiretas e  
as Estratégias diretas do abuso psicológico, com o  
objetivo de identificar se a mediação ocorre para as  
duas formas de maneira equivalentes ou se ocorre  
em apenas um tipo. A hipótese testada foi de que  
as atitudes frente a quarentena seriam mediadoras  
para as duas formas de abuso psicológico. Na Figu-  
ra 2, é possível observar que o Tradicionalismo não  
possui efeito direto nas Estratégias diretas do abu-  
so psicológico. Mas, há um processo de mediação  
(efeito mediador = .15; SE = .04; IC 95% .06; .24).  
Isto é, a quarentena por tempo integral nas relações  
conjugais foi utilizada como justificativa para aceitar  
as Estratégias diretas dos abusos psicológicos do  
parceiro durante a quarentena.  
Na Figura 3, o Tradicionalismo apresentou efeito  
direto nas Estratégias indiretas do abuso psicoló-  
gico. Além disso, ocorreu o processo de mediação  
(efeito mediador = .11; SE = .03; IC 95% .04; .17). Isto  
é, as mulheres que endossaram mais o Tradicio-  
nalismo usaram uma justificativa, que no presente  
estudo é a quarentena por tempo integral, como  
também aceitaram as Estratégias indiretas do abu-  
so psicológico durante o período de quarentena.  
ꢃstꢁatꢄgias  
Tꢁadicionalisꢂo  
(.26ꢀꢀꢀ)  
.10  
ꢅiꢁetas  
Figura 3. Mediação simples das  
estratégias indiretas do abuso psicológico  
Quarentena  
.39**  
*
.27**  
*
Estratégias  
indirectas  
Tradicionalismo  
(.24***)  
.13  
Discussão  
O presente estudo visou analisar o papel das ati-  
tudes frente à convivência conjugal durante o perío-  
do da quarentena como elemento justificador da re-  
lação das atitudes tradicionalistas sobre a aceitação  
de relacionamentos psicologicamente abusivos em  
mulheres. Desde o início, o período de quarentena  
afetou a rotina das pessoas. Nesse interim, o con-  
texto pandêmico mudou a sociedade e escancarou  
diferentes problemas de saúde, além de problemas  
sociais, a exemplo da violência contra a mulher, que  
se demonstrou prevalente durante a pandemia (Ge-  
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Esses resultados estão em consonância com a li-  
teratura sobre a Teoria da Discriminação Justificada  
podemos observar que as justificativas da convi-  
vência conjugal durante a quarentena servem para  
esconder o que talvez venha ocorrendo há anos  
nos relacionamentos, mas que, apenas durante o  
período da pandemia, isso pode ser acentuado, de  
forma a ser notado. A TDJ afirma que as pessoas  
camuflam o preconceito ou a discriminação, a fim  
de não entrar em dissonância cognitiva com suas  
crenças de relacionamento ideal (Paiva & Pereira,  
2021). Além disso, pessoas que endossam o pen-  
samento convencional tendem a aceitar a violência  
advinda de pessoas de grupos majoritários ou vis-  
tas como figuras de autoridade (Canto et al., 2020).  
Nessa linha, sabe-se que àquelas que apresentam  
uma disposição para a dominância social tendem  
a recorrer a crenças ideológicas para legitimar o  
próprio comportamento discriminatório contra mi-  
norias sociais (Pereira & Vala, 2010). Ademais, com-  
preende-se que a legitimação da discriminação está  
presente nas diferentes relações sociais, ocorrendo  
quando um determinado grupo-alvo é protegido  
pela norma antipreconceito (Pereira & Souza, 2016).  
O atual estudo focou apenas no abuso psicoló-  
gico, no entanto sabemos que as mulheres estão  
susceptíveis a sofrer várias formas de violência e que  
existem diferentes fatores que podem legitimar a  
violência contra a mulher (e. g. dependência emo-  
cional e financeira, pobreza, filhos, dentre outros;  
isto, uma das batalhas da WHO (2020a) é evidenciar  
e expor todas as formas de abusos sofridos dentro  
dos lares, principalmente porque, no contexto da  
pandemia atual, tivemos um aumento dos índices de  
casos de violência contra as mulheres, além de ter-  
mos, também, aumentado os índices de feminicídio  
em todos os estados brasileiros (Fórum Brasileiro de  
Além disso, as disputas políticas no contexto da  
COVID-19 revelaram atitudes menos igualitárias  
pautadas, principalmente, nas ideologias tradicio-  
nalistas que se dividem nas posições extremistas  
de esquerda e direita. Este estudo reflete esta visão  
que se pauta na ideologia tradicionalista e que ex-  
põe as mulheres a contextos de desigualdades de  
direitos nos relacionamentos amorosos. O fenô-  
meno abordado buscou responder se a relação  
do tradicionalismo possui efeitos diretos no abuso  
psicológico e se essa relação é mediada pela atitu-  
de frente ao período de quarentena nas relações  
conjugais à luz da TDJ (Pereira et al., 2019; Perei-  
ra & Vala, 2010). Os resultados do presente estudo  
demonstraram que as atitudes frente à convivência  
conjugal no período da quarentena é um processo  
subjacente que explica as atitudes tradicionalistas  
no apoio ao abuso psicológico em mulheres. Em  
outras palavras, o tradicionalismo possui um efei-  
to direto sobre o apoio ao abuso psicológico e as  
atitudes frente a quarentena funcionaram como o  
papel mediador desta relação.  
No que tange especificamente as atitudes tra-  
dicionalistas no apoio ao abuso psicológico em  
mulheres, sabe-se que dão ênfase ao autoritaris-  
mo, tendem a manter a hierarquia do grupo so-  
cial e isto inclui as relações de gênero e que é uma  
característica de sociedades patriarcais mais con-  
vencionais (Canto et al., 2020). Ademais, reforça-se  
que no presente estudo foi considerado o autori-  
tarismo, em sua vertente mais tradicionalista, que  
é caracterizado pelo etnocentrismo. Pessoas que  
endossam tal atributo apresentam um pensamento  
convencional, além de uma tendência a agressão  
autoritária, ou seja, agressão a um grupo específico  
que é percebido minoritário (Yamawaki et al., 2022).  
Desse modo, infere-se que mulheres com níveis  
mais elevados de tradicionalismo têm uma maior  
probabilidade de justificarem o abuso durante esse  
período pandêmico. Isso reforça a premissa de que  
argumentos normativos tendem a ser utilizados  
para legitimar ações discriminatórias que legitimam  
Os achados dessa pesquisa revelam que o tradi-  
cionalismo tem efeito direto nas estratégias indiretas  
do abuso psicológico (como tentar afastar a mulher  
Actualidades en Psicología, 36(133), 2022.  
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dos membros da minha família ou dar várias adver-  
A segunda limitação refere-se ao fato do estudo  
ser de cunho correlacional, e não de cunho expe-  
rimental (Schoemann et al., 2017), o que pode dar  
margem para uma nova testagem estatística de um  
modelo alternativo mudando as ordens das variá-  
veis para verificação de efeitos mediadores. Neste  
sentido, pesquisas poderão replicar nosso modelo  
e compará-los a outros alternativos. A terceira limi-  
tação é que focamos apenas no abuso psicológico,  
outros estudos poderão ser realizados para prever  
o tradicionalismo no apoio a outras formas de abu-  
so sofrido dentro dos lares, como o físico, o sexual,  
o patrimonial e o moral. Além disso, nossa amostra  
foi composta em sua maioria por mulheres hete-  
rossexuais, carecendo de outros estudos com uma  
amostra mais diversificada, uma vez que as mino-  
rias sexuais também são alvos de violência (Gillum  
& DiFulvio, 2012). Nossa quarta limitação foi não ter  
questões sobre número de filhos, nível de escola-  
ridade e região específica da qual a participante é  
proveniente. Desse modo, torna-se necessário um  
novo estudo especificando essas variáveis importan-  
tes para traçar o perfil da amostra brasileira.  
Este estudo examinou a predição do tradiciona-  
lismo nos relacionamentos conjugais mediado pela  
quarentena. Esta pesquisa contribui para aprofun-  
dar os estudos do fenômeno da violência contra  
a mulher, propondo que o período de quarente-  
na seja utilizado como justificativa para o apoio ao  
abuso psicológico. O período da quarentena é um  
dos justificadores que mascaram o sofrimento que  
essas vítimas vêm tendo durante toda a vida.  
Ressaltamos que o período da quarentena é ne-  
cessário para evitar a difusão da COVID-19. Porém,  
nem todas as mulheres possuem um bom supor-  
te familiar para permanecerem dentro de casa por  
muito tempo e quanto maior o poder patriarcal,  
maior será a perpetuação e aceitação da violência  
estudos futuros possam abordar outros tipos de  
violência que estão presentes nesse período, bem  
como analisar os recursos financeiros, afetivos e fa-  
miliares que essas mulheres têm.  
tências para se comportar da forma como o parceiro  
não com as estratégias diretas do abuso psicológico,  
como tratar a mulher como se fosse um objeto ou  
diminuir as iniciativas e consequentemente diminuir  
2016). Uma explicação para isso deriva do contexto  
da pandemia, que favorece o distanciamento social  
e, com isso, os agressores não precisam justificar seus  
atos. Jones et al. (2005) denominou esse tipo de ação  
como supervisão do comportamento e isolamento.  
Assim, também as mulheres que endossam es-  
ses valores normativos, principalmente o “mito do  
casamento perfeito” ou o casamento como ápice  
de uma realização afetiva, aceitam mais as estra-  
tégias indiretas do abuso psicológico. Quanto às  
estratégias diretas, as mulheres precisaram justificar  
por meio do período da quarentena que os abu-  
sos psicológicos são consequências de uma con-  
vivência integral. Dito de outra forma, elas preci-  
saram de um elemento justificador (Pereira et al.,  
2019; Pereira & Vala, 2010) que diminua o peso do  
valor convencional da autoridade que, neste caso,  
é o marido, o namorado ou o companheiro, para  
legitimar que sofrem com os abusos que afetam a  
cognição, as emoções e o comportamento delas  
Apesar do presente estudo ter cumprido com  
os objetivos e hipóteses propostas, este não está  
isento de limitações. Primeiramente, embora nos-  
sa amostra tenha sido constituída majoritariamente  
por mulheres de esquerda no fator tradicionalis-  
mo, não examinamos se existem diferenças, como  
sugere Vilanova et al. (2018), de que as posições  
políticas de pessoas de esquerda e direita são ne-  
cessárias para se avaliar o quanto as pessoas po-  
dem não aceitar o autoritarismo, conservadorismo  
e tradicionalismo (Vilanova et al., 2018). Logo, para  
se examinar seria necessária uma equiparação da  
amostra em mulheres de esquerda e direita. De  
toda forma, são necessárias mais pesquisas para  
avaliar como isso ocorre.  
Actualidades en Psicología, 36(133), 2022.  
95  
Além disso, é necessário também avaliar os re-  
Correia, I. F. (2003). Concertos e Desconcertos na  
Procura de um Mundo Concerto: Crença  
no Mundo Justo, Inocência da Vitória e  
Vitimização Secundária. FCG / FCT  
cursos tecnológicos que as mulheres têm para po-  
der efetuar as denúncias. Esperamos que este arti-  
go possa ser usado por pesquisadores, profissionais  
e formuladores de políticas públicas, de modo a  
elucidar as questões que contribuem para explicar  
o fenômeno da violência contra mulheres, alertan-  
do sobre um tradicionalismo enraizado pela nos-  
sa cultura que pode levar a uma tendência para a  
aceitação da violência contra a mulher. Além disso,  
temos a finalidade de ajudar a informar e promover  
ações que colaborem para diminuir o abuso psico-  
lógico durante e após o cenário pandêmico.  
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