
A trajetória de trabalhadores de comida de rua
Actualidades en Psicología, 36(132), 2022.
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INTRODUÇÃO
MÉTODO RESULTADOS E DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
de trabalho formal, como ilustrado por Dona Inácia:
Ah, eu já trabalhei... A única coisa que eu ain-
da não z foi roubar, me prostituir e vender
droga. Mas já vendi produto, [...] vendi chinela,
vendi confecção, vendi aqueles kits de cozin-
ha, de colcha de cama. A menina me fornecia
produto pra eu vender nas casas. Já vendi tudo
quanto foi de produto. Já montei comércio
num sei quantas vezes. Sempre tive um bote-
co. Tudo pra eu me manter, porque eu nunca
dependi do meu marido. Eu dependia dele pra
comer e pra sombra da casa, mas pra me ves-
tir e calçar era eu, era suado. (Dona Inácia, 62
anos, comunicação pessoal)
Quando questionada sobre um possível desejo
de trabalhar formalmente, Dona Inácia relata que
ela não possui nem meios para fazer essa reexão,
já que nunca sequer acessou a experiência do
trabalho formal para fazer algum comparativo. A
naturalização do precário talvez se dê de forma
mais profunda nesse caso em que o trabalhador
nunca foi amparado pela legislação trabalhista e
teve acesso apenas a uma forma de experienciar a
inserção laboral.
Tudo bem que carteira assinada é bom porque
você tem uma coisa garantida. Você trabalha
1 ano ou 2, e, quando você sair, você tem seu
pezinho de meia [sic]. Mas, da mesma forma
que eu penso em carteira assinada, eu penso
no meu jeito. Mas, assim, se eu nunca recebi
nem um salário, como é que eu vou sentir falta
de receber um 13° salário? Eu nunca soube o
que é isso. Pra mim tanto faz eu trabalhar de
carteira assinada como eu trabalhar por con-
ta própria, porque se eu tivesse condições de
ganhar bem fazendo o que eu faço, eu pode-
ria juntar dinheiro todo dia e no nal do ano
eu tinha meu salário garantido. (Dona Inácia,
62 anos, comunicação pessoal)
A fala de Luís Bezerra também nos serve de ilus-
tração para compreender como a informalidade
permeou a vida laboral desses sujeitos.
conta, em resumo, seu percurso de vida laboral an-
terior à atividade que desenvolve hoje.
Eu comecei com 17 anos de doméstica. Aí, vim
pra casa de uma tia. Eu morava na casa de
uma tia. Era um pessoal rico né, aí era pior que
uma empregada. Aí, de doméstica eu comecei
a trabalhar em casa de família até os meus 27
anos. De 27 eu comecei a trabalhar de costu-
ra, de acabamenteira [sic], costurando só o
acabamento, né. Depois de costura eu passei
a trabalhar na fábrica [...], aí trabalhei de ser-
viços gerais, que era numa rma, mas foi pouco
tempo. Depois disso aí, voltei pra aprender a
costurar, aí comecei a costurar. Aí, tu sabe que a
gente trabalhando de costureira, tipo assim, de
produção, tem época que para, principalmen-
te em fevereiro pra março. É a época que para
todas as costuras. Se for rma, bota as pessoas
pra tirar férias nessa época, justamente porque
não tem correria nas costuras. E, se for de pro-
dução, quem for de produção passa um perío-
do apertado, como eu já passei, né. Foi aí onde
eu comecei a trabalhar vendendo churrasquin-
ho aqui na frente da porta, depois comecei a
vender tapioca no meio da rua. Vendi de tudo,
dindim.... Tudo eu vendia, sabe? (Lourdinha, 49
anos, comunicação pessoal)
A fala de Lourdinha explicita que, no caso dos
trabalhadores aqui entrevistados, a motivação para
empreender estaria relacionada à necessidade de
obtenção de renda mais do que a uma oportuni-
dade ou desejo de realizar um negócio próprio.
Isso nos permite formar concepções sobre o acesso
à informalidade e à venda de comida como meio
mais plausível e imediato de obtenção de uma ren-
da que garanta subsistência, e é nesse sentido tam-
bém que os trabalhadores, especialmente de uma
classe menos abastada, se veem impelidos a desen-
volver tais “habilidades empreendedoras”.
Além do ilustrado anteriormente, outros desses
trabalhadores sequer tiveram em suas Carteiras de
Trabalho e Previdência Social (CTPS) algum registro