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ISSN 2215-3535
Actualidades en Psicología, 36 (132), janeiro-junho, 2022, 58-71
DOI: 10.15517/ap.v36i132.43532
www.revistas.ucr.ac.cr/index.php/actualidades
Universidad de Costa Rica
Informais, empreendedores ou precarizados? A trajetória
de trabalhadores de comida de rua
Informal, Entrepreneurial, or Precarious Work? The Life Trajectory of Street Food
Micro-Business Owners
Eveline Nogueira Pinheiro de Oliveira
1
https://orcid.org/0000-0002-9702-0352
Cássio Adriano Braz de Aquino
2
https://orcid.org/0000-0001-8651-1634
Janequeli Simão Nascimento
3
https://orcid.org/0000-0001-8196-3009
1,2,3
Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal do Ceará, Brasil
1
nogueiraeveline@hotmail.com
2
brazdeaquino@gmail.com
3
kelly.ufc@gmail.com
Recebido: 18 de agosto del 2020. Aceitado: 21 de abril del 2022.
Resumo. Objetivo. Esta pesquisa objetivou a compreensão e a análise da relação entre informalidade, empre-
endedorismo e precarização de trabalhadores de pequeno porte envolvidos no segmento de comida de rua na
cidade de Fortaleza, Estado do Ceará, Brasil. Método. Foram entrevistados, por meio de um roteiro semiestru-
turado, 10 trabalhadores de comida de rua da cidade de Fortaleza, com idade entre 25 e 73 anos, dentre ven-
dedores de cachorro-quente, milho, tapioca, pastel e outros tipos de produtos alimentícios. Resultados. Uma
característica parece surgir como primordial para o trabalhador de comida de rua: ser empreendedor. A falta de
perspectiva laboral faz com que os trabalhadores busquem por uma salvação e assim são veiculadas as ideias
empreendedoras, focados na informalidade, mas que terminam por reforçar os processos de precarização.
Palavras-chave. Trabalho, empreendedorismo, economia informal
Abstract. Objective. This research aimed to understand and analyze the entrepreneurial activity of formal and
informal micro-business owners involved in the street food segment in the city of Fortaleza, State of Ceará
/ Brazil. Method. 10 street food micro-business owners from the city of Fortaleza, aged between 25 and 73
years old, among them sellers of hot dogs, corn, tapioca, pastries, and other types of food products, were
interviewed, using semi-structured interviews. Results. One characteristic that becomes paramount for contem-
porary street food micro-business owners is that of being an entrepreneur. The lack of a career perspective in
the formal job market makes the micro-business owners regard the street food segment as a kind of salvation
from that context, and convey entrepreneurial ideas focused on informality, which ultimately reinforce precar-
iousness processes.
Keywords. Work, entrepreneurship, informal economy
A trajetória de trabalhadores de comida de rua
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INTRODUÇÃO
MÉTODO RESULTADOS E DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
Introdução
O cenário laboral brasileiro, a exemplo de quase
todo o mundo, vive inúmeras transformações que
repercutem na vida daqueles que dependem direta-
mente do trabalho que realizam para sua subsistên-
cia. Este texto deriva de uma pesquisa empírica que
busca dar visibilidade aos impactos de uma dinâmi-
ca, muitas vezes abstrata, na vida de determinados
trabalhadores, compreendendo as diversas realida-
des laborais que se constroem a partir das transfor-
mações operadas no mundo do trabalho.
As noções de informalidade, precarização, per-
da de direitos e garantias, e adoecimento mental
perpassam atuais estudos sobre as dinâmicas de
vida dos trabalhadores. Nesse cenário, assistimos
a uma exaltação do que poderíamos nomear de
espírito empreendedor. Cada vez mais ca de-
notada a consolidação da doutrina neoliberal que
convoca todos a assumirem uma postura empreen-
dedora, a despeito da inserção formal ou, o que é
mais comum, na esfera da informalidade (
Casara,
2021
). Nesse sentido, muitos trabalhadores têm se
deslocado para trabalhos por conta própria, princi-
palmente de micro e pequeno porte, normalmente
mais voláteis e imprevisíveis.
Aliado a esse processo, é notável também a ex-
pansão e reconguração de um modelo de negó-
cios próprio desse movimento: a comida de rua.
Embora não seja uma atividade de história recen-
te no Brasil, esse modelo de comércio começou a
se complexicar com a inserção de novos tipos de
trabalhadores a partir da primeira década do sé-
culo XXI. Com a globalização e a exibilização, e
fomentado pela própria dinâmica urbana, muitos
consumidores hoje buscam a alimentação vendida
por ambulantes, barracas, trailers e food trucks. Por-
tanto, dentre os tantos trabalhadores que se inse-
rem em processos de informalidade e precarização,
nossa investigação se situa em torno daqueles que
têm a comida de rua como atividade laboral.
A informalidade e a atividade empreendedora,
sem excluir a vinculação de ambas, surgem como
alternativas possíveis ao concorrido e reduzido
mercado de trabalho formal, tal como apontado
por
Coelho-Lima (2016). A questão que se coloca é
se a ampliação da informalidade é uma escolha de-
liberada do trabalhador ou uma imposição forçosa
visando à construção de um modelo naturalizado
de inserção laboral.
Numa tentativa de compreensão dessa tendên-
cia que se rma no horizonte laboral, parece im-
portante acessarmos a história de vida laboral, por
meio de derivações advindas de situações de des-
emprego, aposentadoria, mudanças e sofrimentos
no trabalho que têm levado a um grande contin-
gente de trabalhadores a optar por esse modelo
de informalidade e que promovem fraturas que são
compreendidas como rupturas das trajetórias de
vida no trabalho (
Carreteiro, 2017).
O texto aqui apresentado é recorte de uma pes-
quisa que analisou a atividade empreendedora de
trabalhadores de pequeno porte do segmento de
comida de rua na cidade de Fortaleza, Ceará, Brasil.
O foco central abordado são as características do
empreendedorismo que acabam se aproximando
do trabalho caracteristicamente precário, em tra-
jetórias de vida marcadas pela informalidade, ad-
vindas de rupturas ou da tendência a congura-las
como uma norma de inserção no universo laboral.
A trajetória laboral, que endossamos como modo
privilegiado de investigação aqui tratada, está rela-
cionada ao conjunto da vida prossional –escolhas,
oportunidades, impedimentos (
Bendassolli, 2009)
que viabilizam a construção do ser trabalhador no
território especíco da comida de rua. Ademais, não
sendo aqui nosso foco de discussão, muito embora
seja importante situar, produzimos nossas discussões
a partir de um viés social e crítico do trabalho, tendo
como embasamento teórico a Psicologia Social do
Trabalho (PST), no tocante às reexões que envolvem
as condições de trabalho, as experiências dos trabal-
hadores e a precarização do trabalho.
É necessário considerar as grandes mudanças
que cercaram o mundo do trabalho nas últimas
A trajetória de trabalhadores de comida de rua
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INTRODUÇÃO
MÉTODO RESULTADOS E DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
suas origens nos estudos realizados pela Organi-
zação Internacional do Trabalho (OIT) no âmbito do
Programa Mundial de Emprego de 1972. Ela apare-
ce, de forma particular, nos relatórios a respeito das
condições de trabalho em Gana e Quênia, na África
(
Organização Internacional do Trabalho, 1972).
O que entendemos por informalidade engloba
os trabalhos “não reconhecidos ou protegidos por
leis ou regulamentações e tanto os empregados
quanto os empregadores são caracterizados por
um alto grau de vulnerabilidade” (
Feijó et al., 2009,
p. 333
). Essa compreensão sobre a informalidade
atende a um interesse pontual, visto ser importante
denotarmos que é um tema complexo que mere-
ceria um artigo explicativo, mas que, em função do
limite de um artigo, nos deixa impossibilitados de
aprofundar essa análise.
Embora não haja consenso sobre a denição
precisa dos termos informalidade, setor informal e
economia informal, as modalidades de trabalho in-
formal se diversicam e se expandem. Desse modo,
“as atividades não formalizadas, não regulamenta-
das e não protegidas com os mesmos benefícios
legais conquistados pelos trabalhadores formais
se multiplicaram, notadamente, nos países onde o
emprego formal é ou se tornou escasso” (
Santos
et al., 2014, p. 326
). Nesse cenário, a economia in-
formal brasileira é responsável por absorver grande
contingente de trabalhadores excluídos do merca-
do formal, distante dos padrões de proteção social.
Os impactos desse processo na construção sub-
jetiva dos trabalhadores são diversos, como: a falta
de autonomia, embutida, de forma controversa, sob
um falso controle sobre seu trabalho e sobre as con-
dições que o cercam; um processo de autoculpabili-
zação, reforçado pelo forte individualismo; e o isola-
mento social e perda de vínculos, corroborando para
novos quadros de doenças relacionadas ao trabalho.
Dentre essas formas alternativas de trabalho,
acreditamos que seja possível destacar o empreen-
dedorismo e, como consequência, o surgimento de
uma enormidade de pequenos negócios próprios,
décadas. No Brasil, a reestruturação produtiva teve
como consequência intenso processo de terceiri-
zação e subcontratação, aumentando o contingen-
te de trabalho informal sob discursos de melhores
perspectivas de carreira e de incentivo à multifun-
cionalidade e à polivalência (
Antunes, 2018).
Nas últimas décadas do século XX, a evolução
tecnológica e a mundialização impulsionaram com-
petitividade entre mercados e concorrência entre
empresas. O objetivo de mercado é o lucro por meio
de mão de obra barata, incentivos scais, fechamen-
to de unidades fabris e enxugamento de postos de
trabalho. Proliferaram, a partir de então, novas for-
mas desregulamentadas de trabalho, como a tercei-
rização e a subcontratação, frente à redução drásti-
ca dos níveis de emprego (
Antunes, 2018).
De acordo com
Aquino (2005), “a denominada
crise estrutural que se instalou nos países centrais
a partir da década de 1970, atribuiu à precariedade
um lugar de destaque no delineamento das dis-
cussões sobre o trabalho” (p. 2). Por precariedade,
compreende-se o fenômeno; e por precarização,
o processo em que direitos e vínculos laborais são
fragilizados, constituindo um quadro que envolve
alta rotatividade, baixos salários, jornadas excessi-
vas e falta de estabilidade.
Nesse cenário, muitos trabalhadores vivem a in-
adequação às exigências organizacionais, condicio-
nados a participar de um mercado à margem da
formalidade: trabalhos temporários, subcontratação,
intensicação de longas jornadas, trabalhos part-ti-
me, etc. (
Antunes, 2018). Para Aquino e Moita (2018),
o processo de precarização, sob o nome de exibili-
zação, se instala através de vínculos laborais que vul-
neram garantias e direitos básicos dos trabalhadores.
Na esteira dos fenômenos, compreende-se aqui
a informalidade como um processo que caracteriza
a desregulamentação, o assalariamento sem car-
teira, o trabalho autônomo, o trabalho temporário,
enm, as modalidades de trabalho que não se en-
quadram na formalidade, que fogem às regulamen-
tações. O uso da expressão trabalho informal tem
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INTRODUÇÃO
MÉTODO RESULTADOS E DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
Título corto Título corto Título corto Título
to embora o espectro abrangido por essa denomi-
nação vá de um coletor de materiais recicláveis a
um prossional autônomo de alta tecnologia. É um
discurso ideológico pautado na perspectiva da in-
dividuação, do empoderamento e da ideia de que
o indivíduo é dotado de poder capaz de levá-lo a
realizar tudo o que pretende, bastando vontade e
persistência, sendo ele responsável por tudo, inclu-
sive pelo seu possível fracasso.
O empreendedor, o trabalhador exível e
mesmo o cooperado tornam-se guras re-
presentativas do “novo” espírito do capita-
lismo. Cabe ao trabalhador internalizar os
novos requisitos impostos pelo mercado. A
realização pessoal e prossional e mesmo
sua sobrevivência pessoal, cada vez mais de-
pende disso. O futuro é incerto e manter-se
no mercado exige grandes investimentos
pessoais. (
Lima, 2010, p. 189)
Castel (2005) aponta que esse discurso da res-
ponsabilização se associa à crescente individuali-
zação das relações de trabalho, com o discurso de
total controle sobre si e sobre seu negócio.
Retomando a ideia de precarização, o processo
de levar a pensar-se como empreendedor oculta o
sentido precarizado da atividade. O próprio fato de
se tornar um empreendedor já o inclui na perspec-
tiva do trabalho precário, já que ele não usufrui de
nenhum dos diretos assegurados para o trabalha-
dor assalariado. Aqui reside a vulnerabilização da
vinculação trabalhista, para além da atividade em
si, que pode ser a do ambulante de comida de rua
até o dono de um food truck.
Isso se constitui processo de precarização do
trabalho e do sujeito também, na medida em que
atinge, em maior ou menor grau, rápida ou lenta-
mente, outras esferas de sua vida, ou seja, na medi-
da em que esse trabalho toma lugar tão fundamen-
tal que invade todo o seu tempo, é onde ele investe
toda sua subjetividade. Assim, “a ‘invasão’ perma-
nente do trabalho na vida dos indivíduos, para além
do espaço laboral tradicional, termina por delinear
geridos por indivíduos que deixaram um emprego
formal ou que, por causa do desemprego, abriram
um negócio. Assim, esses pequenos empresários,
juntamente com trabalhadores assalariados e não
assalariados, irão compor a nova face da classe
trabalhadora, mais complexicada, fragmentada
e heterogênea em relação àquela encontrada em
passado recente (
Antunes, 2018).
Como apontam
Damião et al. (2013), no con-
texto brasileiro, “a Lei Complementar 128/2008 do
‘Empreendedor Individual’ foi criada com o propó-
sito de simplicar o processo de legalização de em-
preendimentos e estimular a formalização daqueles
que atuam na informalidade” (p. 198). No entanto, a
criação desses negócios se relaciona com a ausência
de trabalho formalizado em que “o ‘empreendedor,
na verdade um trabalhador comum, se vê obrigado
a empregar o seu labor numa atividade que lhe ga-
ranta o próprio sustento” (
Damião et al., 2013, p. 198).
É fundamental ter a compreensão das cons-
truções e desconstruções dos discursos empreen-
dedores ao longo da história, já que certos argu-
mentos acabam por naturalizar a concepção de
empreendedor que temos atualmente e, nesse
sentido, corremos o risco de adotar um modelo an-
ti-histórico, acrítico e determinista. Hoje, há um res-
gaste da gura do empreendedor como garantia
de ordem econômica e social. Esse resgate aconte-
ce, inclusive, quando se opta, de forma intencional,
por nomear o trabalhador como empreendedor,
com todo o peso que esse rótulo possa trazer.
Na perspectiva do capital, isso signica dimi-
nuição dos custos trabalhistas por meio da con-
tratação de serviço temporário e exível a partir
da prestação de serviços de empreendedores. Na
perspectiva do sujeito que desenvolve a atividade,
isso signica menos direitos e garantias, mais riscos,
menos tempo livre, mais trabalho, o que constitui
um quadro sujeito à precarização laboral.
O empreendedorismo é divulgado como a ati-
vidade realizada por sujeitos criativos e corajosos,
cujo sucesso depende apenas de seu esforço, mui-
A trajetória de trabalhadores de comida de rua
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INTRODUÇÃO
MÉTODO RESULTADOS E DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
agora rotulados empreendedores, que estão atre-
lados ao discurso neoliberal da individualidade e
do esforço isolado, que trazem em sua realidade
maiores dados de vulnerabilidade e, portanto, de
aproximação com a precarização.
A comida de rua “ocupa papel expressivo na
proliferação de estratégias de sobrevivência in-
seridas no mercado informal” (
Dutra, 2012, p. 4).
A globalização, a internacionalização da econo-
mia e a difusão de novos valores tempo/espaço
influenciam as práticas alimentares (
Diez Garcia,
2009
), provocando mudanças no tradicional co-
mércio de comida na rua: o que, anteriormente,
eram apenas ambulantes e pequenas barracas
de comida, foi tomado por várias categorias de
pequenos negócios.
A alimentação acompanha o ritmo das transfor-
mações da esfera econômica e do mundo laboral.
Sob uma perspectiva histórica, “no Brasil, a venda
de comida nas ruas teria iniciado no Nordeste, a
partir do século XVI, com a chegada das mulheres
escravizadas, oriundas da África” (
Gastal & Perti-
le, 2013, p. 4
). A comida de rua se iniciou por uma
parcela da população marginalizada, predominan-
temente pobre e com um recorte de gênero bem
denido. A despeito de uma complexicação, com
a inserção dos trailers e food trucks, esse perl de
comerciante ainda se mantém.
Em um momento anterior da história, a jornada
laboral seguia os ritmos alimentares. Hoje, de ma-
neira contrária, a alimentação está cada vez mais
dependente dos horários impostos pelas ativida-
des de trabalho e lazer, se tornando desestrutura-
da (
Contreras, 2009). Assim, “na atualidade e sob a
lógica dos novos nomadismos e dos novos olhares
à cultura, as comidas de rua tornaram-se, embo-
ra ainda às margens e num entre lugar, um gran-
de negócio” (Gastal & Pertile, 2013, p. 5). A própria
dinâmica urbana parece demandar a presença do
comércio de comida nas ruas devido ao intenso
trânsito de indivíduos à procura por alimentação
rápida e barata.
um território que faz da precarização um fenômeno
decisivo na produção subjetiva do trabalhador con-
temporâneo” (
Aquino, 2008, p. 170).
O sujeito empreendedor quase sempre é um
trabalhador descoberto de garantias e direitos
trabalhistas, que vive no risco, na incerteza e na
pressão que isso causa, já que “as novas condições
de mercado obrigam grandes números de pessoas
a assumir riscos, mesmo sabendo os jogadores que
as possibilidades de retorno são tênues” (
Sennett,
2011, p. 104
). É interessante sair do foco no indiví-
duo e ver como o contexto social, político e econô-
mico produz essa pressão para tornar os trabalha-
dores empreendedores, mesmo que em condições
de trabalho, muitas vezes, indignas.
Tal como apontado por
Coelho-Lima (2016),
“a saída do pauperismo pelo empreendedorismo
constitui-se em uma falácia: por um lado, permane-
ce a submissão do trabalhador a condições aviltan-
tes de trabalho e, por outro, reduz a pressão pela
ampliação de vagas com melhores condições de
trabalho” (p. 261). Essas novas formas de trabalho
se conguram como maneiras ocultas de trabalho
precarizado, “de trabalho autônomo de última ge-
ração, que mascara a dura realidade da eliminação
do ciclo produtivo. Na verdade, trata-se de uma
nova marginalização social, e não de um novo em-
presariado” (
Vasapollo, 2005, p. 384).
Tal como armam
Damião et al. (2013), “o es-
tímulo ao ‘empreendedor individual’ é ideológico
economicamente, pois o indivíduo não tem for-
mação técnica para desenvolver uma organização
racional, não possui crédito em condições compe-
titivas e o empreendimento não está associado às
novas combinações schumpeterianas” (p. 198). Es-
sas questões serão mais bem trabalhadas à frente,
ao analisarmos a trajetória de alguns trabalhadores
em um percurso de informalidade laboral.
A opção por investigar pequenos empreen-
dedores decorre da preocupação com o elo mais
vulnerável de uma cadeia complexa de proces-
sos. São aqueles trabalhadores de pequeno porte,
A trajetória de trabalhadores de comida de rua
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INTRODUÇÃO
MÉTODO RESULTADOS E DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
A comida de rua ganha complexidade, amplian-
do o espectro de trabalhadores que vão dos pe-
quenos ambulantes aos formalizados e grandes
food trucks. O espaço da rua passa a ser dividido
e concorrido por trabalhadores que guardam con-
sideráveis diferenças entre si, formando um leque
diversicado de características.
Método
A presente investigação é um recorte de uma
pesquisa qualitativa envolvendo 10 trabalhadores
de comida de rua da cidade de Fortaleza, Ceará,
Brasil. Esses trabalhadores foram entrevistados a
partir de roteiros semiestruturados, e suas falas
analisadas a partir das narrativas de história de vida
no trabalho (
Carreteiro, 2017). Trata-se de uma pes-
quisa empírica envolvendo empreendedorismo, co-
mida de rua e precarização.
Participantes
Entendendo a amplitude dos tipos de trabal-
hadores nesse comércio, delimitamos um recorte:
ambulantes e barracas de comida. Essa escolha,
para os efeitos da presente investigação, decorre
de algumas evidências apresentadas na literatura
que apontam que o status desses empreendedo-
res difere signicativamente de empreendedores de
outras dimensões, já que para os de menor porte
“as chances de sucesso são mínimas ou atomiza-
das, sobretudo para os empreendedores de baixa
renda, que somam mais e mais indivíduos, sobretu-
do em contexto de transformações na dinâmica do
trabalho” (
Maciel, 2014, p. 10).
Optamos por não restringir a algum modo de
regulamentação, abrangendo a pesquisa desde os
ambulantes e as barracas informais ou formaliza-
dos, xos ou itinerantes, contanto que dentro da
categoria de comida de rua (ver
Tabela 1).
Nosso foco de análise aqui é o fato de a infor-
malidade estar presente para além da atividade des-
envolvida pelo trabalhador, permeando toda a vida.
Mais do que uma ruptura, a informalidade é a con-
No que se refere à sua conceitualização, a comi-
da de rua, tradicionalmente, pode ser denida como
alimentos e bebidas prontos para consumo ou pre-
parados na hora e vendidos nas ruas e lugares públi-
cos. “Nesse rol poderiam estar incluídos, no Brasil, os
pipoqueiros, os vendedores de cachorros-quentes,
algodão doce ou mesmo de sorvetes, que frequen-
tam as ruas das cidades” (
Pertile, 2013, p. 302).
A esse respeito, a resolução nº 216, de 15 de se-
tembro de 2004, da Agência Nacional da Vigilância
Sanitária (
Ministério da Salúde do Brasil, 2004, Re-
solução RDC nº 216 de 15 de setembro de 2004
),
traz a descrição sobre o Regulamento Técnico de
Boas Práticas para Serviços de Alimentação, incluin-
do os vendedores ambulantes de alimentos. Nas
legislações mais recentes na cidade de Fortaleza,
notamos a proliferação de novas categorias que
costumam se confundir com a denição mais tradi-
cional de comércio ambulante.
A presença do comércio ambulante, como
forma de comércio e atividade econômica,
indica alguns aspectos da conjunção de pro-
blemas urbanos contemporâneos, sobretudo,
a pouca absorção do quantitativo da força de
trabalho que, mediante a reestruturação pro-
dutiva, segrega trabalhadores por meio de
funções prossionais marcadas cada vez mais
pela qualicação e incorporação tecnológica.
(
Gonçalves, 2014, p. 130)
A venda de alimentação nas ruas abriga estraté-
gias de sobrevivência frente à realidade laboral que
vivemos. A perspectiva da informalidade e do tra-
balhador ambulante como principal vítima da crise
econômica “tem cedido lugar a novas visões e ex-
pectativas em relação ao setor informal, como por
exemplo, uma visão mais anada ao liberalismo que
visualiza neste trabalhador autônomo o empreende-
dor em potencial” (
Dutra, 2012, p. 6). O trabalhador
da comida de rua passa a ser menos estigmatizado
como ambulante e classicado como empreendedor,
e, portanto, o negócio passa a ser menos associado
à alimentação suja, insalubre e ilegal.
A trajetória de trabalhadores de comida de rua
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INTRODUÇÃO
MÉTODO RESULTADOS E DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
uma análise da história laboral dos entrevistados
(
Carreteiro, 2017), por meio da narrativa desenvol-
vida por eles mesmos.
Procedimentos
Todos os procedimentos seguiram padrões
exigidos pelo Comitê de Ética responsável pela
aprovação da pesquisa. Em um momento inicial,
foi realizada leitura breve do Termo de Consen-
timento Livre e Esclarecido, fornecendo todas as
informações necessárias. Foram explicitados bre-
vemente os objetivos da pesquisa, as questões
de sigilo dos discursos e identidades e o modo
como os relatos seriam manejados e analisados
posteriormente. Todas as entrevistas foram gra-
vadas, sob consentimento dos entrevistados, e
posteriormente transcritas.
Para construção dos dados, optou-se pela en-
trevista semiestruturada, na qual o informan-
formação da história laboral desses sujeitos. Nesse
sentido, foram entrevistados 10 trabalhadores com
idades entre 25 e 73 anos, entre vendedores de ca-
chorro-quente, milho, tapioca, pastel, etc. Para ns
de publicação, foram utilizados nomes ctícios inspi-
rados na obra O quinze de Rachel de Queiroz.
Instrumentos
Foram utilizados como instrumentos de pesqui-
sa roteiros semi-estruturados de entrevista. Nestes
roteiros, haviam perguntas centrais, fornecendo
elementos para que o trabalhador discorresse com
liberdade. Foram elaboradas perguntas engloban-
do questões como: experiências de trabalho, atual
conformação das atividades laborais, rotina e coti-
diano de trabalho, percepções sobre trabalho in-
formal e formal, perspectiva sobre futuro e aposen-
tadoria, questões nanceiras, entre outros pontos.
Foram tópicos que pudessem dar conta de permitir
Nome Escolaridade Idade Tipo de
atividade
Tempo de
atividade
Formalização
Josias Ensino fundamental
incompleto
25 anos Ambulante 07 anos Informal
Cordulina Ensino médio cursando 39 anos Barraca 07 anos MEI
Zenha Ensino fundamental 40 anos Barraca 03 anos MEI
Dona Maroca Ensino médio incompleto 45 anos Barraca 10 anos MEI
Conceição Ensino fundamental
incompleto
48 anos Ambulante 02 meses Informal
Lourdinha Ensino fundamental
incompleto
49 anos Ambulante 05 anos Informal
Luís Bezerra Ensino fundamental
incompleto
50 anos Ambulante 02 anos Informal
Dona Idalina Analfabeta 55 anos Ambulante 02 anos Informal
Dona Inácia Ensino fundamental
incompleto
62 anos Barraca 05 anos Informal
Chico Bento Ensino fundamental
incompleto
73 anos Barraca 03 anos Informal
Nota. MEI é a sigla para Microempreendedor Individual.
Tabela 1. Dados sociolaborais dos trabalhadores entrevistados
A trajetória de trabalhadores de comida de rua
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INTRODUÇÃO
MÉTODO RESULTADOS E DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
Resultados e Discussão
A captura dos trabalhadores pela teia que do ce-
nário da informalidade é tecido fundamentalmente
pelos os do empreendedorismo e da precarização
que, apesar de tratados como conceitos não inter-
cambiáveis, se aproximam como constituintes da
trajetória laboral da classe trabalhadora, principal-
mente aquela mais fragilizada.
Em pesquisa realizada em São Paulo, em 2015,
com mais de 100 mulheres empreendedoras de di-
versos setores, os resultados apontam que há con-
vergência em torno de 60% entre o Índice Geral
de Precarização e o surgimento de micro e peque-
nas empreendedoras, seja de necessidade ou de
oportunidade (
Vasconcellos & Delboni, 2015). As
motivações para empreender permitem enquadrar
o empreendedor em duas categorias excludentes:
empreendedores por necessidade e empreende-
dores por oportunidade. Os empreendedores por
necessidade seriam aqueles que empreendem por
não possuírem melhores alternativas de emprego,
propondo-se criar um negócio que gere rendi-
mentos, visando basicamente a sua subsistência
e de seus familiares. Já os empreendedores por
oportunidade seriam aqueles que empreendem
mesmo possuindo alternativas concorrentes de
emprego e renda
GEM (2017).
Sobre a classicação oportunidade/necessida-
de, questionamos essa rotulação tão delimitada. A
questão é: em meio ao cenário atual em que o tra-
balho no Brasil se encontra, é possível fazer essa di-
visão? A inclinação preponderante dentre os trabal-
hadores que decidem por trabalhar para si próprios
seria a busca pela subsistência, traduzindo-se, de
fato, em uma estratégia de sobrevivência, já que
cada um se torna responsável pela sua própria in-
serção no mercado de trabalho, através de um auto
emprego, se não for exagero falar, compulsório.
Esse dado também é destacado em artigo publi-
cado anteriormente, onde o foco era essa aproxi-
mação entre a precarização e o empreendedorismo
(
Oliveira et al., 2016).
te tem a possibilidade de discorrer sobre suas
experiências a partir do foco principal proposto
pelo pesquisador. As entrevistas, em sua maioria,
ocorreram no próprio ambiente de trabalho dos
entrevistados, no espaço da rua; enquanto ou-
tros preferiram marcá-las posteriormente, fora do
horário de sua atividade.
Nesse processo, naturalmente, o quadro de
amostragem se tornou saturado, ou seja, as in-
formações trazidas pelos entrevistados foram se
tornando repetitivas, até o ponto de não surgirem
informações novas ao quadro de análise. Para os
efeitos da presente pesquisa, isso é o que chama-
mos de ponto de saturação.
Análise de dados
Os dados construídos nessas entrevistas fo-
ram tratados pela análise das histórias de vida
no trabalho (
Carreteiro, 2017). Após a transcrição
das entrevistas, utilizamos como o condutor da
análise o próprio discurso dos trabalhadores, de
modo a construir uma narrativa de sua história
de vida laboral. A partir da narrativa construída,
pudemos analisar determinados pontos focais,
como os processos de precarização do trabal-
ho presentes em sua história laboral, os tipos e
modalidades de atividades em que ele esteve
envolvido, a atual conformação do trabalho em
sua vida, perspectivas sobre trabalho formal e in-
formal, dentre outros aspectos que possibilitam
mergulhar nas nuances e descaminhos do trabal-
ho na vida de um indivíduo.
Não sendo nosso objetivo explicitar aqui todas
as narrativas de vida laboral em sua integralidade,
nos propomos a tecer uma análise que busca utilizar
como foco as questões de informalidade e precari-
zação. Sendo, portanto, um recorte de uma pesquisa
mais ampla, aqui discutiremos os aspectos relaciona-
dos ao trabalho informal e precário dentro das na-
rrativas. Este pareceu ser um o comum aos discur-
sos de todos os trabalhadores e, portanto, optamos
por dar ênfase nesta análise a este aspecto.
A trajetória de trabalhadores de comida de rua
Actualidades en Psicología, 36(132), 2022.
66
INTRODUÇÃO
MÉTODO RESULTADOS E DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
Isso se agrava com os esforços de institucionali-
zação dos trabalhos informais e precários no Bra-
sil (
Coelho-Lima, 2016), como “uma espécie de
des-demonização da informalidade, de sinônimo
de subdesenvolvimento para sinônimo de des-
regulamentação, exibilidade e mesmo de em-
preendedorismo” (
Lima, 2010, p. 174).
Essa mudança nos faz retomar o anteriormente
dito acerca da transformação de perspectiva sobre
o próprio trabalhador informal ambulante, agora
considerado empreendedor/dono do próprio ne-
gócio. Isso remete a uma naturalização do precário
na atividade, já que o fato de ser informal e não
dispor de direitos e garantias sociotrabalhistas não
é encarado como precariedade, mas como uma
particularidade do fazer empreendedor, tal como
relatado em diversos momentos pelos entrevista-
dos, quando nos dizem que se sentem orgulhosos
sobre a autonomia de seus trabalhos.
Outro ponto de análise são as relações que en-
volvem o nível de escolaridade dos trabalhadores
investigados. Nenhum deles tinha sequer o Ensino
Médio concluído, o que nos leva a uma necessida-
de de pontuar sobre esse dado signicativo quando
falamos de informalidade e precarização, e, sobre-
tudo, quando falamos sobre empreendedorismo. O
relatório Global Entrepreneurship Monitor de 2016
(
GEM, 2017) destaca que a pouca ou nenhuma qua-
licação prossional e educacional daqueles que
desempenham uma atividade por conta própria
caracteriza grande parte dos negócios informais e
é uma das diculdades de se empreender no Brasil.
É necessário considerar também que a preca-
rização laboral historicamente atingiu de forma
mais intensa a massa de trabalhadores margina-
lizados que compreende aqueles com baixa esco-
laridade e pouca renda, já que esse cenário viabi-
liza a submissão a trabalhos com condições ainda
mais precárias.
O trabalho informal esteve presente durante a
maior parte da vida laboral desses trabalhadores.
Isso é ilustrado pela fala de Lourdinha, que nos
A informalidade é o grande cenário do percurso
laboral dos entrevistados. A relação entre a infor-
malidade, o empreendedorismo e a precarização
laboral é histórica e seus impactos se agravam com
o alastrar dos últimos acontecimentos sociopolíti-
cos no Brasil, tais como a aplicação da Reforma da
Legislação Trabalhista e da Reforma da Previdência
Social. É sob esse cenário que vai se construindo
um percurso onde a vulnerabilização constitui a
base da trajetória laboral derivada de rupturas com
condições anteriormente favoráveis de vínculo de
trabalho ou como caminho natural daqueles para
quem a condição salarial nunca foi experimentada.
A história de vida laboral que emerge das na-
rrativas aqui construídas, inicialmente individuais,
se amplia quando lançamos novas lentes de aná-
lise a ponto de compor traços coletivos de um
grupo social (trabalhadores de comida de rua).
No caso especíco da investigação realizada, a
metodologia foi constituída a partir da escuta e
do esforço em interligar informalidade, empreen-
dedorismo e precarização.
Sobre a formalização do negócio próprio, sete
de nossos entrevistados se declararam informais,
sendo o restante categorizados como Microem-
preendedor Individual (MEI). Segundo o
Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empre-
sas (2014)
, MEI é a pessoa que trabalha por conta
própria e que se legaliza como pequeno empre-
sário. Para ser MEI, é necessário faturar no máxi-
mo R$ 81.000,00 por ano (valor de 2020); possuir
um único estabelecimento; não participar de outra
empresa como titular, sócio ou administrador; e
não contratar mais de um empregado.
A expansão da informalidade está vinculada às
mudanças trazidas pelas reformulações econômi-
cas e políticas desde a década de 1970. Hoje, o
que podemos notar é uma mudança de perspecti-
va sobre a informalidade. Antes vista como forma
de degradação do trabalhador, agora é encarada
como forma de desonerar o Estado da proteção
social, assumida como possibilidade concebível.
A trajetória de trabalhadores de comida de rua
Actualidades en Psicología, 36(132), 2022.
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INTRODUÇÃO
MÉTODO RESULTADOS E DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
de trabalho formal, como ilustrado por Dona Inácia:
Ah, eu já trabalhei... A única coisa que eu ain-
da não z foi roubar, me prostituir e vender
droga. Mas já vendi produto, [...] vendi chinela,
vendi confecção, vendi aqueles kits de cozin-
ha, de colcha de cama. A menina me fornecia
produto pra eu vender nas casas. Já vendi tudo
quanto foi de produto. Já montei comércio
num sei quantas vezes. Sempre tive um bote-
co. Tudo pra eu me manter, porque eu nunca
dependi do meu marido. Eu dependia dele pra
comer e pra sombra da casa, mas pra me ves-
tir e calçar era eu, era suado. (Dona Inácia, 62
anos, comunicação pessoal)
Quando questionada sobre um possível desejo
de trabalhar formalmente, Dona Inácia relata que
ela não possui nem meios para fazer essa reexão,
já que nunca sequer acessou a experiência do
trabalho formal para fazer algum comparativo. A
naturalização do precário talvez se dê de forma
mais profunda nesse caso em que o trabalhador
nunca foi amparado pela legislação trabalhista e
teve acesso apenas a uma forma de experienciar a
inserção laboral.
Tudo bem que carteira assinada é bom porque
você tem uma coisa garantida. Você trabalha
1 ano ou 2, e, quando você sair, você tem seu
pezinho de meia [sic]. Mas, da mesma forma
que eu penso em carteira assinada, eu penso
no meu jeito. Mas, assim, se eu nunca recebi
nem um salário, como é que eu vou sentir falta
de receber um 13° salário? Eu nunca soube o
que é isso. Pra mim tanto faz eu trabalhar de
carteira assinada como eu trabalhar por con-
ta própria, porque se eu tivesse condições de
ganhar bem fazendo o que eu faço, eu pode-
ria juntar dinheiro todo dia e no nal do ano
eu tinha meu salário garantido. (Dona Inácia,
62 anos, comunicação pessoal)
A fala de Luís Bezerra também nos serve de ilus-
tração para compreender como a informalidade
permeou a vida laboral desses sujeitos.
conta, em resumo, seu percurso de vida laboral an-
terior à atividade que desenvolve hoje.
Eu comecei com 17 anos de doméstica. Aí, vim
pra casa de uma tia. Eu morava na casa de
uma tia. Era um pessoal rico né, aí era pior que
uma empregada. Aí, de doméstica eu comecei
a trabalhar em casa de família até os meus 27
anos. De 27 eu comecei a trabalhar de costu-
ra, de acabamenteira [sic], costurando só o
acabamento, né. Depois de costura eu passei
a trabalhar na fábrica [...], aí trabalhei de ser-
viços gerais, que era numa rma, mas foi pouco
tempo. Depois disso aí, voltei pra aprender a
costurar, aí comecei a costurar. Aí, tu sabe que a
gente trabalhando de costureira, tipo assim, de
produção, tem época que para, principalmen-
te em fevereiro pra março. É a época que para
todas as costuras. Se for rma, bota as pessoas
pra tirar férias nessa época, justamente porque
não tem correria nas costuras. E, se for de pro-
dução, quem for de produção passa um perío-
do apertado, como eu já passei, né. Foi aí onde
eu comecei a trabalhar vendendo churrasquin-
ho aqui na frente da porta, depois comecei a
vender tapioca no meio da rua. Vendi de tudo,
dindim.... Tudo eu vendia, sabe? (Lourdinha, 49
anos, comunicação pessoal)
A fala de Lourdinha explicita que, no caso dos
trabalhadores aqui entrevistados, a motivação para
empreender estaria relacionada à necessidade de
obtenção de renda mais do que a uma oportuni-
dade ou desejo de realizar um negócio próprio.
Isso nos permite formar concepções sobre o acesso
à informalidade e à venda de comida como meio
mais plausível e imediato de obtenção de uma ren-
da que garanta subsistência, e é nesse sentido tam-
bém que os trabalhadores, especialmente de uma
classe menos abastada, se veem impelidos a desen-
volver tais “habilidades empreendedoras”.
Além do ilustrado anteriormente, outros desses
trabalhadores sequer tiveram em suas Carteiras de
Trabalho e Previdência Social (CTPS) algum registro
A trajetória de trabalhadores de comida de rua
Actualidades en Psicología, 36(132), 2022.
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INTRODUÇÃO
MÉTODO RESULTADOS E DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
só cortar, fatiar, entendeu? (Luís Bezerra, 50
anos, comunicação pessoal)
Esse exemplo ilustra o fato de que o empreen-
dedor acaba por reproduzir em larga escala os
ideais precários de trabalho aos quais se submete,
já que, para redução dos custos e otimização da
produção, reúne outras pessoas em torno dessa
rede, dispersando mais precariedade das con-
dições trabalhistas. Desse modo, os trabalhadores
informais participam da economia urbana e con-
tribuem com o processo de reprodução do ca-
pital, assumindo os custos relativos dessa repro-
dução como força de trabalho envolvida em um
processo de auto exploração, entendido como
um negócio próprio e sem grandes custos para o
capital (
Gonçalves, 2002).
Numa análise breve do que foi trazido pelos
entrevistados, ca evidente que o setor de comida
de rua ilustra a tendência de aproximação entre o
empreendedorismo e a precarização. A partir dos
discursos podemos observar questões como a in-
tensicação laboral, o adoecimento físico e mental,
condições nanceiras inviáveis, trabalhos em longas
jornadas e impossibilidade de um planejamento de
vida. Informalidade, autonomia falaciosa, intensi-
cação e culpabilização pelo risco de fracasso são
características que, embora não exclusivas do setor,
são ressaltadas pelos trabalhadores que ali atuam,
na medida em que todos eles relatam, a partir das
narrativas da história laboral, que as experiências
informais permeiam grande parte de suas existên-
cias enquanto trabalhadores, desvelando um ce-
nário que faz da informalidade e da precarização
norma na vida do trabalhador.
A partir da investigação realizada, percebe-se
a articulação no contexto contemporâneo das
categorias informalidade, empreendedorismo
e precarização. Há aspectos que emergem das
narrativas dos trabalhadores que se entrelaçam
na atribuição de vinculo das categorias citadas,
a saber: a família como rede de apoio ao desen-
volvimento das atividades, a informalidade como
Eu cheguei aqui em Fortaleza em 82, né, ain-
da de menor, adolescente. Aí, trabalhei de
anelinha, entendeu? Em frente a um merca-
dinho. Aí, em seguida o gerente perguntou
se eu queria trabalhar né, de tanto eu insistir,
empacotando. Aí, eu: “Quero, é claro. Aí, eu
fui trabalhar de empacotador no mercantil,
entendeu? E eu quei até os 18 anos. (Luís
Bezerra, 50 anos, comunicação pessoal)
Outro ponto que gostaríamos de evidenciar é
um dado que foi unânime entre todos os entrevis-
tados que diz respeito à rede familiar que constrói a
rede socioprodutiva em torno da atividade realiza-
da, fundamental para a economia informal. Todos
contam, de alguma forma e em algum momento
da produção ou venda dos alimentos, com algum
familiar que lhes fornece um suporte. O conceito de
Rede SocioProdutiva (RSP) estaria em torno de “re-
lações de conança que uma pessoa-foco cria com
outros sujeitos tendo em vista empreender uma ati-
vidade que sozinha seria incapaz de realizar em cir-
cunstâncias especíca” (
Santos et al., 2014, p. 345).
A minha esposa, ela é outra guerreira, en-
tendeu? Sempre trabalhou, conheci ela no
trabalho e continua trabalhando. E além
disso ela faz os bolos, salgados, sucos,
quando chega.
Pesquisadora: Ela tem outra atividade, além
de ajudar o senhor?
Luís Bezerra (50 anos, comunicação pes-
soal): Ela trabalha de diarista, entendeu? Só
tem uma vantagem: o pessoal convida ela
pra car xa, mas não porque nós temos
uma criança de 5 anos. Aí, ela vai no dia
que dá certo [...]. Aí, como eu falei, a minha
esposa, ela é uma guerreira. Ela chega do
trabalho, aí vai preparar o suco à noite. De
manhã cedo, acorda 5 horas, faz as tapiocas,
entendeu? À noite, além do suco, ela faz o
bolo, deixa todo prontinho ali. De manhã é
A trajetória de trabalhadores de comida de rua
Actualidades en Psicología, 36(132), 2022.
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culos prossionais.
O trabalho empreendedor se constitui como
uma dentre distintas formas alternativas de trabal-
ho. A partir de uma série de transformações sociais,
foram criadas as condições para uma ampliação da
referência ao empreendedorismo como política de
enfrentamento a um Estado cada vez mais frágil na
condução da relação capital-trabalho, “internaliza-
rem” assim o espírito empreendedor.
Compreendendo que o conceito de empreen-
dedorismo se recicla de tempos em tempos (
Cos-
ta et al., 2011
), há, atualmente, um resgate da -
gura do empreendedor e de sua função social,
e, nesse sentido, a prática empreendedora acaba
por reforçar o m da noção de centralidade do
emprego e, consequentemente, dos direitos e
garantias atrelados a ele. O cenário da informa-
lidade, espaço privilegiado do ideal empreende-
dor, parece revelar uma tendência de adoção da
precarização. A nomeação do empreendorismo
tende a mascarar a vulnerabilização crescente
das condições laborais.
A percepção das demandas neoliberais parece
ofuscada pela ideia de que o esforço individual é
a única alternativa para o êxito prossional, apro-
ximando as categorias informalidade, empreen-
dedorismo e precarização. E, assim, o sistema
reforça, amplia e intensica o processo de preca-
rização laboral, mediante as formas mais diversas,
sorrateiras e veladas.
O recorte de que trata esse texto, ao situar-se no
âmbito especíco da atividade da comida de rua e
com um quantitativo de entrevistas pequeno, em-
bora limitado, propicia uma pista, a partir da narra-
tiva dos próprios trabalhadores (
Carreteiro, 2017),
de como essa realidade pode ser desnaturalizada.
Compreender as narrativas propicia subsidiar pos-
sibilidade de enfrentamento ao mascaramento da
precarização no discurso individual do empreende-
dorismo no contexto da informalidade.
A trajetória de trabalhadores de comida de rua
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