Análise psicossocial do envelhecimento entre
idosos: as suas representações sociais
Resumo. Objetivo. Esta pesquisa objetivou identificar e comparar as representações sociais do envelhecimento
construídas por idosos participantes de grupos de convivência para idosos (G1) e idosos não-participantes (G2).
Método. Contou-se com a participação de 60 idosos, distribuídos equitativamente por sexo. Para a coleta de dados,
utilizou-se um questionário sociodemográfico, a Técnica de Associação Livre de Palavras (TALP) e uma entrevista
semiestruturada. Os dados coletados pela TALP foram analisados através da técnica das redes semânticas, ao passo
que as entrevistas foram processadas pelo software IRaMuTeQ. Resultados. Verificou-se que os idosos de grupos
de convivência representaram o envelhecimento, sobretudo, com aspectos positivos, associando-o à saúde e à
atividades físicas, enquanto os que não participam associaram-no a conteúdos negativos, relacionados à doença,
perdas e declínio.
Palavras-chave. Envelhecimento, velhice, representação social.
Abstract. Objective. This study aimed to identify and compare the social representations of aging built by senior
participants of cohabiting groups for the elderly (G1) and non-participant elderly (G2). Method. The participation
of 60 elders was equally distributed by gender. A socio-demographic questionnaire, the Free Word Association
Technique (FAWT), and a semi-structured interview were all applied. The data collected by the FAWT were analyzed
by the technique of semantic networks, while the interviews were investigated by IRaMuTeQ software. Results.
Overall, it was found that the elderly in cohabitation groups characterized aging with positive aspects, associating it
with health and physical activities while those who did not participate associated it with negative aspects related to
disease, loss and decline.
Keywords. Aging, old age, social representation.
1
Jefferson Luiz de Cerqueira Castro. Universidade Federal do Piauí, Campus de Parnaíba, Departamento de Pós-graduação em Psicologia. Direção
postal: Av. São Sebastião, 2819, Nossa Senhora de Fátima, 64202-020 - Parnaíba, PI - Brasil. E-mail: jefferson.psico.ufpi@outlook.com
2
Ádilo Lages Vieira Passos. Universidade Federal do Piauí, Campus de Parnaíba, Departamento de Pós-graduação em Psicologia,, Brasil. E-mail:
adilolp@hotmail.com
3
Ludgleydson Fernandes de Araújo. Universidade Federal do Piauí, Campus de Parnaíba, Departamento de Pós-graduação em Psicologia,, Brasil.
E-mail: ludgleydson@yahoo.com.br
4
José Victor de Oliveira Santos. Universidade Federal do Piauí, Campus de Parnaíba, Departamento de Pós-graduação em Psicologia,, Brasil. E-mail:
victorolintos@hotmail.com
Jefferson Luiz de Cerqueira Castro
1
Ádilo Lages Vieira Passos
2
Ludgleydson Fernandes de Araújo
3
José Victor de Oliveira Santos
4
1,2,3,4
Departamento de Pós-graduação em Psicologia, Universidade Federal do Paiuí, Brasil
Psychosocial Analysis of Aging in the Elderly: Its Social Representations
ISSN 2215-3535
Recibido: 20 de noviembre del 2018
Aceptado: 08 de octubre del 2019
Actualidades en Psicología, 34(128), enero-junio 2020, 1-15
http://revistas.ucr.ac.cr/index.php/actualidades
DOI: 10.15517/ap.v34i128.35246
Esta obra está bajo una licencia de Creative Commons Reconocimiento-No Comercial-Sin Obra Derivada 4.0 Internacional.
Actualidades en Psicología, 34(128), 2020, 1-15.
2
Introdução
O aumento da expectativa de vida vem gerando profundas transformações
sociodemográficas no cenário mundial (Ferreira, 2015). Isso, porque o envelhecimento
populacional identificado já há algum tempo nos países desenvolvidos, mostra-se
atualmente como uma realidade vivenciada também por países em desenvolvimento
(Fundo de População das Nações Unidas [UNFPA] & HelpAge International, 2012).
No cenário brasileiro, o envelhecimento da população está ocorrendo de forma
acelerada (Pereira, Carvalho, Souza, & Camarano, 2015). Até os anos 1980, século
passado, o Brasil era considerado um país jovem (Massi, Santos, Berberian, & Ziesemer,
2016). Destaca-se que os anos 1980 apresentaram importantes alterações demográficas,
como: o aumento da esperança de vida ao nascer, redução das taxas de fecundidade
e de mortalidade, bem como mudanças nos movimentos migratórios populacionais,
contribuindo para o envelhecimento populacional (Fundação Oswaldo Cruz, 2013).
De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra por Domicílios (PNAD), em
2017, a população brasileira era de 207.1 milhões de pessoas, sendo que a participação
dos idosos foi de 14.6% da população, o que compreende mais de 30 milhões de
habitantes (Instituto Nacional de Geografia e Estatística [IBGE], 2018). Dado que um
país é reconhecido como estruturalmente envelhecido quando pelo menos 7% de sua
população é composta por pessoas de 60 anos ou mais, constata-se que o Brasil já pode
ser considerado um “país de idosos” (Dawalibi, Goulart, & Prearo, 2014).
No que diz respeito ao envelhecimento, destaca-se que na literatura ainda persistem muitos
debates acerca do curso seguido por esse processo (Torres, Camargo, Boulsifield, & Silva,
2015). No entanto, nesta investigação será adotada a perspectiva do desenvolvimento
life-span, a qual concebe o envelhecimento como uma experiência heterogênea que pode
ocorrer de modo diferente para indivíduos e coortes que vivem em contextos históricos
distintos, evidenciando a existência de múltiplos padrões de envelhecimento (Baltes, 1987).
Salienta-se que o envelhecimento se diferencia da velhice por se caracterizar como
um processo enquanto aquela se refere a uma fase específica do desenvolvimento
humano (Neri, 2008). Portanto, o envelhecimento pode ser definido como um processo
multidimensional que envolve vários fatores, dentre esses, biológicos, psicológicos, sociais
e culturais (Fechine & Trompieri, 2012).
Enquanto objeto social, o envelhecimento se apresenta multifacetado justamente pela
multiplicidade de significados que evoca (Falcão & Carvalho, 2009). Em vista disso, no
estudo das Representações Sociais (RS) do envelhecimento devem-se respeitar as vivências
dos longevos, considerando os seus contextos psicossociais e familiares (Torres et al., 2015).
As RS são uma forma de conhecer o mundo a partir de explicações gestadas no conhecimento
do senso comum no que se refere a um determinado objeto social (Jovchelovitch, 2014). As
RS são saberes com objetivos práticos e, por isso, permitem a apreensão de sua dinâmica e
variedade (Maldonado, Vizeu, Giacomozzi, & Berri, 2017).
A representação possui um caráter simbólico, que atribui significados e um complexo de
imagens à formação de sentidos e de objetos sociais, munida de sua relação significado
Castro, Passos, de Araújo, & Santos
Representações sociais do envelhecimento
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e significante (Santos, Tura, & Arruda, 2013). Além disso, são formas compartilhadas
e identitárias de reconhecer o mundo, em uma tensão entre os atores sociais e suas
subjetividades com as normas sociais de uma cultura específica, auxiliando na compreensão
das informações, das opiniões e atitudes dos indivíduos (Torres et al., 2015).
O processo de formação das RS ocorre por meio de dois processos sociocognitivos maiores:
ancoragem e objetivação (Moscovici, 2012). Esses processos ocorrem concomitantemente,
visto que a objetivação concretiza a imagem ou a ideia, direcionando-a para o mundo
extrapsíquico (Chaves & Silva, 2011). Já a ancoragem mantém as ideias entrelaçadas no
campo intrapsíquico a partir da transformação do não-familiar no familiar, transferindo
tal construção para as estruturas já existentes (Moscovici, 2012).
Por conta da capacidade das RS de compreender os significados de um determinado objeto
em um dado contexto (Santos, Morais, & Neto, 2012) e tendo em vista a pluralidade das
vivências dos idosos, optou-se por embasar esta investigação no campo da Teoria das
Representações Sociais. Deste modo, estabeleceu-se como objetivo identificar e comparar
as RS sobre o envelhecimento entre idosos participantes de grupos de convivência para
idosos e não-participantes desses grupos.
Método
Trata-se de uma pesquisa qualitativa exploratória e descritiva, com corte transversal, e com
amostra não-probabilística e por conveniência.
Participantes
Contou-se com a participação de 60 idosos, distribuídos de forma uniforme por sexo,
com idades entre 61 e 88 anos e média de idade de 73.15 anos (DP = 6.84). Estes foram
divididos de forma pareada em dois grupos, distribuídos equitativamente por sexo. O G1
foi composto por idosos entre 61 e 88 anos de idade e média de idade de 71.83 anos (DP
= 6.25), com cerca de 8.03 anos de participação no grupo de convivência, em sua maioria
católicos (96.67%), com renda de até 1 salário mínimo (56.77%) e baixa escolaridade
(90% – ensino fundamental incompleto [50%]; nenhuma escolaridade [40%]). Já o G2 foi
formado por gerontes de 63 a 83 anos de idade, com a média de idade de 73.46 anos (DP
= 7.25), em sua maioria católicos (90%), com renda de 2 a 3 salários mínimos (76.67%) e
média de escolaridade (ensino médio completo – 20%). Salienta-se que não foi verificada
nenhuma recusa por parte dos atores sociais em participar de forma voluntária e anônima
da investigação científica.
A realização da pesquisa no que se refere aos idosos participantes de grupos de
convivência para idosos (G1) foi realizada nos Centros de Referência de Assistência
Social (CRAS), através do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV),
por meio do Projeto Conviver Idoso.
Podem participar do SCFV todos os que dele necessitarem, com destaque para os
usuários descritos na Tipificação Nacional dos Serviços Sócio assistenciais (Resolução
CNAS nº 109/2009) e mencionados na Resolução CNAS nº 1, de 21 de fevereiro de 2013,
a qual elenca crianças, adolescentes e idosos que vivenciam algumas situações de risco social
como prioritários (Brasil, 2016).
Castro, Passos, de Araújo, & Santos
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Já no que diz respeito aos idosos não-participantes de grupos de convivência para
idosos (G2), os participantes foram contatados pessoalmente em locais públicos ou por
indicação de outros participantes. Desse modo, foram estabelecidos o local e o horário
para coleta de dados de mútuo acordo com os idosos do G2.
Ademais,
este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade
Federal do Piauí, obtendo autorização para sua execução por meio do Parecer
Consubstanciado 1.848.116, no qual foram obedecidos todos os critérios para pesquisas
realizadas com seres humanos, de acordo com o disposto nas Resoluções nº 466/2012
e nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Após a aprovação, foi apresentado,
durante a abordagem aos idosos, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
(TCLE), momento em que se explicitaram os objetivos do estudo e que os dados teriam
fins acadêmicos, com o sigilo garantido.
Instrumentos
A fim de possibilitar a coleta dos dados foram utilizados três instrumentos especialmente
elaborados para esse estudo, sendo estes: um questionário sociodemográfico, a técnica
de associação livre de palavras (TALP) e uma entrevista semiestruturada. O questionário
sociodemográfico contemplou questões sobre a descrição do participante tais como:
idade, sexo, religião, escolaridade e renda. A TALP, por sua vez, apresentou a palavra
indutora “envelhecimento”, a qual permitiu a evocação de até cinco associações pelos
participantes. No que diz respeito à entrevista semiestruturada, a mesma apresentou o
seguinte questionamento: “O que o(a) senhor(a) entende por envelhecimento?”.
Procedimentos de Coleta de Datos
Para a realização da pesquisa, no que se refere ao G1, estabeleceu-se um primeiro
contato com a Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania (SEDESC) do
município por meio de ofício, o qual foi apresentado à coordenadora de Gestão
e Planejamento do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) do município
de Parnaíba, a fim de obter a autorização para a aplicação dos instrumentos. Por
conseguinte, contataram-se os idosos de ambos os grupos (G1 e G2) para verificar
a disponibilidade destes para participar de forma voluntária da pesquisa. Foram-lhes
garantidos o anonimato e a confidencialidade das suas respostas, indicando-lhes que
estas seriam analisadas no seu conjunto.
Na ocasião, os participantes receberam dos pesquisadores as devidas instruções para
responder as questões e assinaram o TCLE. Em seguida, apresentou-se a palavra-
estímulo da TALP. É importante ressaltar que os participantes tinham um minuto
para evocarem cinco palavras. Finalizado o tempo, eles foram orientados a escolher
e assinalar a palavra que melhor traduzisse o significado do estímulo. Posteriormente,
responderam o questionário sociodemográfico e a entrevista semiestruturada. O tempo
médio de aplicação foi de quarenta minutos para cada participante.
Análise dos dados
As informações obtidas nesta pesquisa foram analisadas em seu conjunto por alguns
instrumentos descritos a seguir. Os dados obtidos com a aplicação do questionário
Representações sociais do envelhecimento
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sociodemográfico foram submetidos a estatísticas descritivas como: média, percentis e
desvio padrão, no software SPSS for Windows na versão 25.0.
A posteriori, os dados colhidos relacionados à TALP foram analisados pela Técnica das
Redes Semânticas. Esta ferramenta de análise de dados, segundo Vera-Noriega, Pimentel e
Albuquerque (2005), é utilizada para que se possa conhecer, com elevado nível de precisão,
o significado de um grupo e o núcleo estruturante de cada representação.
Por fim, a pergunta da entrevista semiestruturada, “O que o(a) senhor(a) entende por
envelhecimento?”, teve seus textos transcritos em um corpus de texto, construído pelas
respostas dos 60 participantes, sendo analisado através de um software gratuito, o
IRaMuTeQ. Este software permite fazer análises estatísticas de dados textuais e sobre
tabelas indivíduos/palavras; no caso deste estudo, o procedimento de análise utilizado
foi a Classificação Hierárquica Descendente (CHD), que divide os dados da entrevista em
classes de proximidade lexical (Camargo & Justo, 2016).
Resultados
Diante dos dados coletados sobre o estímulo-indutor “envelhecimento” (Tabela 1), a
“doença” foi elencada como a melhor definição para o envelhecimento por parte dos
idosos do G2. Em contrapartida, “saúde” aparece como definidora de envelhecimento
para os idosos do G1, pois tem um peso semântico maior que as demais palavras evocadas.
Assim, observou-se que os longevos do G1 atribuíram representações positivas ao
envelhecimento, associando este à saúde, experiência, atividade física e longevidade.
Contudo, os idosos que não participam dos grupos representaram o envelhecimento sob
um viés negativo, associando-o à doença, incapacidade e esquecimento.
No que diz respeito à entrevista semiestruturada, obteve-se a CHD do Corpus 1, referindo-
se à representação dos idosos sobre o envelhecimento. O corpus foi formado por 60
Unidades de Contexto Iniciais (UCIs), com aproveitamento de 44 Unidades de Contexto
Elementares (UCEs) (73.33%). Cabe salientar que a CHD para ser mais robusta, necessita
de uma retenção mínima de 75% das UCIs, no entanto, muitos autores defendem a
possibilidade de se considerar análises com até 70% de aproveitamento (Camargo & Justo,
Tabela 1
Representações sociais do envelhecimento construídas pelos idosos do G1 e do G2
G1 G2
NR PS DSQ NR PS DSQ
Saúde 30 100% Doença 40 100%
Experiência 16 53.3% Incapacidade 20 50%
Ginástica 9 30% Esquecimento 9 22.5%
Oficinas 12 40% Adoecimento 8 20%
Longevidade 5 16.6% Problema 3 7.5%
Nota. NR= Núcleo da rede; PS= Peso semântico; DSQ= Distância semântica quantitativa.
Castro, Passos, de Araújo, & Santos
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2016). Ainda sobre a descrição do corpus, observou-se que emergiram 266 palavras, que
ocorreram 889 vezes, sendo analisadas somente as palavras que apresentaram χ
2
igual
ou superior a 14.81, o que denota maior associação com a classe.
No dendrograma resultante da CHD estão apontadas as seis classes em que o corpus se
dividiu com o título e a descrição de cada uma delas, o número de UCEs que as compõem,
as variáveis correlacionadas e as palavras com maior associação com a classe relatada,
considerando a frequência (Figura 1).
A primeira divisão do Corpus 1 deu origem a dois subcorpus. O primeiro composto pelas
classes 4 e 5, e o segundo subcorpus composto pelas classes 1, 2, 3 e 6. Ressalta-se que
as classes 1, 2 e 6 foram as mais significativas, possuindo, cada uma, 18.18% das UCEs
analisadas (Tabela 2).
No primeiro subcorpus, a classe 4, nomeada Envelhecimento e experiência, apresentou
15.91% do total de UCEs. Evidenciou em seu conteúdo a relação do envelhecimento
com a experiência, maturidade e conhecimento de vida. Ainda é importante mencionar a
correlação dos resultados desta classe com a faixa etária de 60 a 64 anos de idade, a qual
apresentou 20.45% das UCEs pertencentes à referida classificação, o que sugere uma
concepção do envelhecimento como aquisição de experiência pelos idosos mais jovens.
De forma relacionada, a classe 5, Envelhecimento como processo, com 13.64% das UCEs
classificadas, presumiu o envelhecimento como um processo, como uma etapa natural do
ciclo da vida. Dessa maneira, as classes supracitadas podem ser ilustradas pelos discursos
subsequentes dos participantes da pesquisa:
“É a pessoa ter mais experiência, aproveitar a vida, conhecer novas coisas”
(Participante 56, sexo masculino, 64 anos, G1).
“É o tempo passando, cada dia que passa a gente vai criando mais experiências”
(Participante 53, sexo masculino, 61 anos, G1).
“É natural, todo mundo nasce e sabe que vai envelhecer e, um dia morrer. É um
processo natural da vida” (Participante 29, 63 anos, sexo masculino, G2).
Classe 3
15.91%
Classe 1
18.18%
Classe 2
18.18%
Classe 6
18.18%
Classe 5
13.64%
Classe 4
15.91%
Figura 1. Dendrograma – Representações do envelhecimento.
Representações sociais do envelhecimento
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Tabela 2
Classificação Hierárquica Descendente – Representações do Envelhecimento
Classe UCE Palavras f
Classe 3: Tornar-se idoso 7 UCE = 15.91%
Mulheres: 21 UCE
G1: 21 UCE
Velho 9
Ficar 12
Mais 18
Pessoa 14
Classe 2: Idoso é quando se envelhece 8 UCE = 18.18%
Evangélicos: 1 UCE
Quando 8
Envelhecimento 14
Ser 3
Classe 1: Envelhecimento e declínio 8 UCE = 18.18%
Outra religião: 1 UCE
Perder 4
Chegar 6
Idade 6
Sentir 4
Classe 6: Envelhecimento e vida longa 8 UCE = 18.18%
84 a 89 anos: 1 UCE
Ano 6
Viver 3
Muito 3
Classe 5: Envelhecimento como processo 6 UCE = 13.64%
Homens: 23 UCE
Envelhecer 5
Vida 10
Com 8
Que 17
Classe 4: Envelhecimento e experiência 7 UCE = 15.91%
60 a 64 anos: 9 UCE
Dia 6
Mais 18
Saber 3
Experiência 3
Cada 3
Nota. UCE= Unidades de Contexto Elementares.
Castro, Passos, de Araújo, & Santos
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“Trajetória natural da vida, com muitas experiências de vida” (Participante 27, sexo
masculino, 65 anos, G2).
“Com o envelhecimento é que a gente vai refletir o que passou e vai entender que
envelhecer é bom” (Participante 47, sexo masculino, 80 anos, G1).
Salienta-se um dado interessante acerca da classe 5, destacando-se como variável correlata
a presença marcante do sexo masculino na composição dos resultados, de modo que esse
sexo deteve 52.27% das UCEs classificadas. O que, de acordo com os resultados, sugere
que os homens concebem o envelhecimento como um processo natural do ciclo biológico.
No segundo subcorpus, elencado pelas classes 1, 2, 3 e 6, houve uma segunda divisão,
em que as classes 1, 2 e 3 foram colocadas em oposição à classe 6 e, por fim, houve uma
terceira divisão, colocando as classes 2 e 3 em oposição à classe 1. As classes 3 (15.91%
do total classificado) e 2 (18.18% do total de UCEs), nomeadas como tornar-se idoso,
enfatizaram a relação entre envelhecimento e idoso, caracterizando o envelhecimento
como um processo que leva, inexoravelmente, à velhice.
Em vista dos resultados apresentados pela classe 3, observou-se como destaque a
correlação das variáveis, sexo feminino e fazer parte do G1, de modo que ambas variáveis
detiveram 47.72% das UCEs classificadas. Dessa maneira, presume-se que para as idosas
do G1, o envelhecimento é um processo que tem como produto o idoso. As classes
apresentadas podem ser visualizadas através dos seguintes discursos:
“Vai passando os anos e a pessoa vai ficando mais velha” (Participante 36, sexo
feminino, 77 anos, G1).
A gente vive muito, vai ficando velho, não consegue mais ser como antes”
(Participante 33, sexo feminino, 68 anos, G1).
“É uma coisa que a gente nem nota, somente percebe quando está muito avançado”
(Participante 17, sexo masculino, 79 anos, G2).
Em contrapartida às classes supracitadas, a classe 1, denominada envelhecimento e
declínio, a qual deteve 18.18% do total de UCEs classificadas, apresentou implicações do
envelhecimento associado a perdas, dores e doenças, relacionadas ao avançar da idade.
Essas representações negativas do envelhecimento podem ser vislumbradas a partir dos
próprios discursos dos idosos:
“Chega a idade, aí a pessoa começa a sentir as coisas” (Participante 43, sexo
feminino, 67 anos, G1).
A gente vai ficando mais de idade, vai perdendo a jovialidade, vai sentindo as
dores. Não tem mais aquela energia de antes” (Participante 10, sexo feminino, 80
anos, G2).
“É o tempo que vai chegando, a gente não tem mais saúde, vai perdendo a mente”
(Participante 13, sexo feminino, 80 anos, G2).
Em oposição à classe citada, a classe 6, envelhecimento e vida longa, com 18.18% do
total de UCEs, destacou a relação do envelhecimento com a longevidade, traduzindo
Representações sociais do envelhecimento
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o envelhecimento como sinônimo de viver muito, o que pode ser observado nos
trechos adiante:
A gente viveu muito e vai viver mais” (Participante 42, sexo feminino, 73 anos, G1).
“O envelhecimento é viver mais anos pra brincar e se divertir mais os outros idosos”
(Participante 52, sexo masculino, 88 anos, G1).
“Envelhecimento a pessoa vai vivendo muitos anos até chegar o dia de ir”
(Participante 8, sexo feminino, 76 anos, G2).
A pessoa vai aumentando os anos” (Participante 37, sexo feminino, 65 anos, G1).
Os referidos achados ressaltam o caráter dinâmico e multifacetado no que tange às RS
do envelhecimento. Salienta-se a diferença encontrada entre os dois grupos estudados,
de modo que o grupo formado pelos idosos do G1 atribuiu sentidos mais positivos ao
envelhecimento, evidenciando a associação deste processo à experiência, saúde, atividades
físicas e longevidade e, ainda, que o envelhecimento é uma condição necessária para
tornar-se idoso.
Em contrapartida, para o G2 há um destaque para as características negativas do
envelhecimento, de maneira que para estes idosos envelhecer é sinônimo de adoecer, pois
este processo é marcado pela incapacidade e pelo esquecimento.
Discussão
No que diz respeito às RS do envelhecimento, observou-se, a partir dos dados obtidos
pela entrevista semiestruturada, que os idosos representam o envelhecimento como um
processo do ciclo biológico do ser humano e a ele associam a conquista de experiência,
maturidade e conhecimento de vida. Cabe mencionar que o envelhecimento é caracterizado
por um conjunto de processos complexos e naturais que ocorrem desde o nascimento do
indivíduo, mas que se torna mais evidente com o avanço da idade. Desse modo, quando
o idoso se adapta melhor ao envelhecimento, torna-se propenso a encarar a velhice como
uma fase de experiências acumuladas, de maturidade e liberdade (Frumi & Celich, 2006).
Em contraposição aos achados da entrevista, observou-se pela TALP que os participantes
do grupo de convivência representaram o envelhecimento como processo, mas o mesmo
não aconteceu com os não-participantes, haja vista terem associado o envelhecimento
a aspectos negativos que compõem o estereótipo da velhice. Cabe mencionar que a
indiferenciação entre envelhecimento e velhice é bastante recorrente nas pesquisas de
RS da velhice, do idoso e do envelhecimento, pois o conhecimento do senso comum não
diferencia estes objetos, ancorando-os e objetivando-os de maneira similar ou até mesmo
igual (Biasus, Demantova, & Camargo, 2011).
Destarte, é necessário se ressaltarem as conquistas decorrentes do amadurecimento no
processo do envelhecimento, as quais advém das experiências vividas e conhecimentos
adquiridos (Gomes, Lodovici, & Fonseca, 2017). Assim, a sabedoria construída pode
possibilitar a identificação de oportunidades, a retomada de antigos projetos e facilitar a
troca intergeracional.
Castro, Passos, de Araújo, & Santos
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Não obstante, o envelhecimento é concebido como um período de compartilhamento
de experiências de vida e dos saberes construídos no decorrer dos anos, possibilitando
aos idosos uma maior participação na sociedade, relacionando bem-estar físico e mental
(Meneses et al., 2013).
Além do mais, observou-se, por meio das análises do IRaMuTeQ, uma associação
entre o envelhecimento e a longevidade. Essa constatação pode ser corroborada pelos
resultados da TALP, que evidenciam a relação entre envelhecimento e longevidade pelos
idosos do G1. Assim, o aumento da esperança de vida acompanha o desenvolvimento
social, o envelhecimento pode ser considerado um indicador de desenvolvimento, de
forma que a conquista de mais anos de vida representa uma conquista para a civilização
(Nunes, 2017).
A partir de uma perspectiva espiritual da longevidade, aponta-se para a relação entre
longevidade e a imortalidade da alma, configurando um deslocamento dessa imortalidade
para o corpo e a mente, representado pelos autocuidados, objetivando alcançar a vida longa
(Moraes, 2014). Entretanto, o prolongamento da vida, apesar de ser uma meta de qualquer
sociedade, só pode ser afirmado como uma conquista quando se levam em consideração
dimensões como: qualidade de vida, bem-estar subjetivo e social, participação comunitária,
reconhecimento e respeito (Neri, 2008; Vieira, Coutinho, & Saraiva, 2016). Portanto, deve-
se atentar para as mudanças decorrentes da longevidade, salientando um risco maior do
desenvolvimento de doenças à proporção que a idade avança.
Em decorrência deste aumento dos anos vividos, verificou-se uma representação negativa
do envelhecimento, pautada em perdas, dores e doenças. Assim, o envelhecimento é tido
como uma fase de declínios, como a perda do salário ocasionada pela aposentadoria, perda
de status social em decorrência da mudança de papel, assim como perdas de entes ou amigos
idosos e a perda da saúde marcada pela doença (Lima, Spagnuolo, & Patrício, 2013).
Neste sentido, as doenças estão associadas à representação negativa do envelhecimento,
repercutindo em baixa autoestima para os idosos, devido à possibilidade de se tornarem
dependentes ou pelas limitações oriundas das alterações físicas (Meneses et al., 2013).
Destaca-se que os problemas de saúde acumulados implicam maior dificuldade para os
indivíduos mais velhos usufruírem os ganhos do envelhecimento (Rabelo & Neri, 2005).
Esta representação pode ser melhor visualizada a partir dos dados apresentados pela TALP
com os idosos do G2, no qual a palavra “doença” foi a principal definidora, destacando
uma forte ligação entre envelhecimento e doença. Em vista da magnitude desta associação,
percebe-se a dificuldade destes idosos em compreender que a doença é consequência de
hábitos de vida e pode ocorrer em qualquer idade (Meneses et al., 2013).
Não obstante, os idosos tendem a utilizar o estado de saúde física como marcador do
processo de envelhecimento. Neste viés, aqueles idosos que apresentam pior estado de
saúde, geralmente, sentem-se mais velhos do que os que apresentam uma percepção mais
positiva da saúde (Batistoni & Namba, 2010).
Desta maneira, e tendo por base que as RS se ancoram nas identidades sociais, culturais
e experiências vividas no dia a dia (Jodelet, 2001), pode-se conjecturar que os idosos
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do G2 associam à RS do envelhecimento, sobretudo, conteúdos relativos a perdas ou
limitações porque estes fazem parte de suas vivências cotidianas.
No que diz respeito ao envelhecimento, salienta-se que a velocidade e a intensidade
de progressão deste processo variam de indivíduo para indivíduo. O envelhecimento é
influenciado, principalmente, pelos marcadores genéticos, determinantes ambientais e
pelo estilo de vida, e pode ser caracterizado como algo esperado para o organismo, não
devendo ser significado como uma doença (Silva & Pirolo, 2017).
É justamente porque o envelhecimento não necessariamente implica doença que se
defende que o idoso tem um potencial para mudança e habilidades ainda não exploradas.
Portanto, quanto mais integrados e participativos em seu meio social, menos os velhos
serão dependentes da família e dos dispositivos (Carneiro & Falcone, 2004).
Salienta-se que os idosos do G1, apesar de se encontrarem em situação de maior
vulnerabilidade (baixa renda e baixa escolaridade), apresentaram RS do envelhecimento
mais positivas em relação ao G2, indo de encontro ao que a literatura preconiza. Tal
achado pode indicar a importância do papel da assistência social e das políticas de atenção
para o empoderamento deste segmento populacional.
Conforme esta discussão, percebe-se que os idosos que frequentam os grupos de convivência
encontram-se integrados na comunidade, exercendo sua cidadania e dispondo de uma vida
ativa. Assim sendo, para estas pessoas o envelhecimento reflete em saúde e está ligado a um
papel ativo, ressaltando-se os marcos positivos desse período desenvolvimental.
No que concerne à prática de atividades físicas por parte dos idosos do grupo de
convivência, ressalta-se que esta é tida como um meio de promoção de saúde e qualidade
de vida, visto que implica em melhora das funções biológicas, neuromotoras e das
capacidades física e cognitiva, impactando em uma diminuição das doenças crônicas não
transmissíveis (DCNT) (Tristão, Justo, & Toigo, 2017). Logo, a prática de exercícios físicos
impacta positivamente na prevenção e minimização dos efeitos da senescência.
Com relação à saúde, esta é uma meta de vida que se mostra universal. No caso dos
idosos, ser saudável é fundamental para manter uma vida com qualidade, ativa e integrada
à sociedade (Nunes, 2017). Neste quadro, vale mencionar que mesmo o idoso possuindo
uma ou mais doenças crônicas – caso vivenciado pela maioria desta população – o que é
levado em conta para considerá-lo saudável é sua capacidade de autodeterminação e sua
independência para realizar-se no cotidiano (Veras, 2011).
Para uma vida saudável também é essencial a construção de crenças positivas. Isso
porque as crenças positivas implicam nos estados emocionais que, por sua vez, podem
influenciar em mudanças fisiológicas e promover comportamentos saudáveis, pois os
idosos otimistas são mais propensos a exercer hábitos saudáveis e a utilizar os dispositivos
de atenção (Rabelo & Neri, 2005).
Assim, verifica-se que os grupos de convivência possuem um papel fundamental
na melhoria da qualidade de vida dos idosos, pois proporcionam um espaço para o
compartilhamento e para as trocas sociais, promovendo a aquisição de habilidades para a
manutenção de uma vida mais autônoma e independente (Lamb, Pinto, & Cnop, 2000).
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Em decorrência disso, torna-se compreensível o fato de os idosos do G1 representarem o
envelhecimento de forma mais positiva do que idosos do G2.
Ademais, pôde-se demonstrar que as RS do envelhecimento dos grupos investigados
estão mescladas a estereótipos, mitos e crenças veiculados nas relações interpessoais da
vida cotidiana em seus diferentes contextos sociais.
Conclusão
O presente estudo abordou as RS dos idosos a respeito do envelhecimento. Ressalta-se
que as RS se apresentaram de forma heterogênea, contemplando significados positivos
e negativos, de modo que os idosos ancoraram suas representações nos significantes:
experiência, longevidade, processo natural, ser idoso e período de doenças e declínio.
Salienta-se que nas RS do envelhecimento construídas pelos idosos do G2 prevaleceram
os significantes, doença e incapacidade. Em outra via, os idosos de grupos de convivência
significaram o envelhecimento sob uma perspectiva mais positiva, associando-o,
principalmente, à saúde e à ginástica.
Ademais, evidenciou-se que os idosos G2 representam o envelhecimento como uma etapa
(velhice) e não como um processo. Dessa maneira, levanta-se a hipótese de que o grupo de
convivência funciona como catalisador de processos positivos acerca do envelhecimento,
enquanto a falta de integração social – como é o caso dos idosos do G2 – implica em uma
visão restrita e negativa deste processo.
Neste sentido, a constatação de que os idosos do G2, embora tenham maior poder
aquisitivo e maior escolaridade, representam negativamente o envelhecimento, sugere que
a falta de espaços para se discutir acerca deste processo, bem como a ausência de contato
com seus pares pode afetar a RS do envelhecimento destes idosos. Assim, a participação
ou não nos grupos de convivência para idosos desempenharia papel significativo na
explicação das diferenças encontradas entre os dois grupos.
Apesar da relevância dos achados desta investigação, convém destacar que os resultados
apresentados não podem ser generalizados, pois retratam a realidade de grupos específicos.
Assim, é desejável a sua ampliação e continuidade, bem como a comparação com as
especificidades socioculturais em diferentes regiões brasileiras.
Para tanto, sugere-se a realização de mais estudos, com diferentes métodos de coleta
de dados, bem como outro referencial a ser utilizado na análise e interpretação dos
dados coletados. Também é importante contemplar participantes com diferentes
perfis socioeconômicos, a fim de que se possa comparar visões de mundo e suas
implicações psicossociais.
Finalmente, estima-se que os dados apreendidos neste artigo possam contribuir
para o conhecimento das RS do envelhecimento no contexto familiar e dos grupos
de convivência para idosos. Além disso, almeja-se incentivar o aprimoramento de
políticas públicas de promoção e prevenção de saúde direcionadas aos gerontes, com
o escopo de possibilitar uma velhice calcada na autoimagem positiva e aceitação do
processo de envelhecimento.
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