O papel da vinculação aos pais e da regulação emocional no
investimento esquemático na aparência em jovens adultos*
*Esta investigação é parcialmente suportada pela FCT de acordo com o projeto PEst-C/PSI/UI0050/2011 e FEDER fundos do
programa COMPETE inserido no projeto FCOMP-01-0124-FEDER-022714.
1
Patrícia da Costa Claro. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro - UTAD. Dirección Postal: Edifício das Ciências Humanas
e Sociais - Polo I - UTAD, 5000-801 Vila Real, Portugal. E-mail: patyclaro_27@hotmail.com
2
Catarina Pinheiro Mota. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e Centro de Psicologia da Universidade do
Porto, Portugal. E-mail: catppmota@utad.pt
Patrícia da Costa Claro
1
Catarina Pinheiro Mota
2
1
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Departamento de Educação e Psicologia,Portugal.
2
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Departamento de Educação e
Psicologia e Centro de Psicologia da Universidade do Porto, Portugal.
The Role of Parental Attachment and Emotional Regulation on
Schematic Investment in Appearance in Young Adults
Esta obra está bajo una licencia de Creative Commons Reconocimiento-NoComercial-SinObraDerivada 4.0 Internacional.
ISSN 2215-3535
Recibido: 1 de marzo de 2018
Aceptado: 3 de diciembre de 2018
Actualidades en Psicología, 33(126), enero-junio 2019, 97-116
http://revistas.ucr.ac.cr/index.php/actualidades
DOI: 10.15517/ap.v33i126.32497
Resumo. Os vínculos afetivos que se estabelecem na infância podem ter efeitos no desenvolvimento emocional
dos jovens. A vinculação segura pode potenciar a capacidade de regulação emocional e proporcionar uma imagem
de si mais positiva, gerando comportamentos ajustados de investimento na aparência. A presente investigação
objetivou analisar o papel da vinculação aos pais e da regulação emocional no investimento esquemático na
aparência. Foram usados instrumentos de autorrelato numa amostra constituída por 948 jovens adultos (18-30
anos) de ambos os sexos. Evidenciou-se o papel significativo que a qualidade de vinculação aos pais e a regulação
emocional assumem no desenvolvimento de um investimento ajustado na aparência. Verificou-se ainda o efeito
mediador positivo das dificuldades de regulação emocional entre a inibição da exploração e individualidade mãe
e a saliência auto-avaliativa.
Palavras-chave. Vinculação aos pais, investimento esquemático na aparência, regulação emocional, jovens
adultos, mediador.
Abstract. The affective bonds that are established in childhood can have effects on the emotional development
of young people. The secure attachment can potentiate the ability of emotional regulation, provide a more
positive image of yourself and, therefore, adjusted investment behaviors in appearance. This study aims to
analyze the role of parental attachment and the emotional regulation in the schematic investment in appearance.
Self-report instruments were used on a sample that consisted of 948 young adults (18 and 30 years) of both
genders. The study highlighted the significant role that the quality of parental attachment and emotional regulation
take in developing an investment adjusted in appearance. The results showed the positive mediator effect of
difficulties in emotional regulation between the inhibition of exploration and individuality mother and the self-
evaluative salience.
Keywords. Parental attachment, schematic investment in appearance, emotional regulation, young adults, mediation.
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Introdução
Bowlby (1988) teorizou que a organização de vinculação estabelecida na infância pode
servir como base para a forma como o indivíduo lida com stressores e regula as emoções
na idade adulta. A teoria da vinculação desenvolvida por este autor conceptualizou a
propensão dos seres humanos em estabelecer fortes vínculos afetivos com as figuras
cuidadoras, decorrente da qualidade das interações com as mesmas (Bowlby, 1969). Das
relações de proximidade e, consequentemente, das experiências e interações que crianças
e jovens mantêm com as figuras significativas, constroem-se estilos de vinculação seguros
ou inseguros que conduzem ao desenvolvimento dos modelos internos dinâmicos. Estes
modelos integram mapas cognitivos, sentimentos, crenças, expectativas, basicamente
representações que a criança constrói e tem sobre si própria e o seu comportamento,
bem como dos outros e do mundo, e cuja complexificação tende a aumentar ao longo
da vida (Bowlby, 1988). Uma característica particular é a capacidade de reorganização
dos modelos e de adaptação às características dos novos períodos de desenvolvimento
e contextos ao longo do ciclo de vida. Os modelos internos dinâmicos tornam-se mais
positivos sob o ponto de vista da adaptação à medida que a procura de proximidade da
criança vai sendo correspondida de forma satisfatória pelas figuras cuidadoras primárias,
facilitando o desenvolvimento de uma base segura. A base segura assume especial relevância
na abordagem da vinculação, integrando o sentimento de confiança em si, que se prende
com uma elaboração precoce de correspondência afetiva por parte de uma figura de
apoio e proteção acessível e disponível (Bowlby, 1988). O estabelecimento destes laços irá
funcionar como fator protetor face a situações de risco, e como base segura para a criação
de uma imagem positiva de si e dos outros, bem como a exploração do meio circundante
(Ainsworth, 1989; Bowlby, 1969).
Deste modo, Bowlby (1969) aponta que a qualidade das relações de vinculação, ainda que
não de forma determinante, podem servir de modelo para a construção de relações futuras
ao longo da vida. A figura de vinculação capaz de satisfazer as necessidades de conforto
e proteção da criança proporciona-lhe a construção de modelos internos marcados por
confiança e valor próprio. A falta de confiança pode restringir à criança oportunidades
para desenvolver competências, assim a vinculação insegura pode propiciar atraso no
desenvolvimento cognitivo, falta de confiança em si e nos demais, podendo ainda haver
problemas ao nível da regulação emocional (Malekpour, 2007).
Nesta perspetiva, de acordo com Bowlby (1973), os laços afetivos estabelecidos desde
a infância poderão ter efeito na regulação e desenvolvimento emocional dos indivíduos
ao longo da vida. A relação com as figuras significativas é a primeira relação emocional
e a qualidade da mesma, poderá ditar a capacidade do individuo se autorregular
emocionalmente. Assim, um estilo de vinculação inseguro poderá potenciar emoções
negativas, como medo e ansiedade, restrição na expressão e compreensão de emoções,
proporcionando, desta forma, maiores dificuldades de regulação emocional. Por outro
lado, é esperado que indivíduos com tipo de vinculação segura, através de interações
com as figuras cuidadoras, sejam capazes de expressar abertamente as suas emoções e
aprendam maneiras eficazes para lidar com emoções negativas em situações ansiogénicas
(Bowlby, 1973; Contreras & Kerns, 2000).
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Bargh e Williams (2007), conceptualizaram a regulação emocional como o processo pelo
qual os indivíduos, de forma consciente ou não consciente, modulam as suas emoções
em resposta às exigências ambientais. As investigações na área da regulação emocional
tiveram maior ênfase na infância especialmente nos processos de regulação emocional
extrínseca, ou seja, aqueles que são desenvolvidos e construídos no vínculo com os outros
(Borelli et al., 2017; Gross & Thompson, 2006; Kim, Stifter, Philbrook, & Teti, 2014;
McMillen, Katz & Claypool, 2014).
Moutsiana et al. (2014), apontam, num estudo realizado ao longo de 22 anos, o papel da
vinculação na regulação de estados emocionais em jovens adultos. Nesta medida, 100
bebés que haviam sido submetidos à experiência de “situação estranha” (Ainsworth,
1969, para uma revisão), foram categorizados, de acordo com a resposta à experiência,
como detendo uma vinculação segura ou insegura, sendo que 63 deles foram novamente
analisados depois de 22 anos. A análise evidenciou que a vinculação insegura pode ter um
efeito persistente sobre a regulação neural da emoção, com implicações para o ajustamento
psicológico na idade adulta.
Desta forma, o estudo desta temática tem vindo a estender-se à adultícia, com base em
que os processos de regulação emocional continuam em mudança e em desenvolvimento
com a idade (Zimmerman & Iwanski, 2014). Embora a relação entre vinculação aos pais
e regulação emocional esteja documentada, faltam estudos que aprofundem a exploração
de dificuldades específicas de regulação emocional em função da vinculação (Guzmán-
González, Carrasco, Figueroa, Trabucco, & Vilca, 2016). No contexto da investigação da
regulação emocional em adultos e objetivando sistematizar as dificuldades neste grupo
etário, Gratz e Roemer (2004), elaboraram um modelo em que concebem o processo de
regulação emocional e as dificuldades associadas à mesma, não só a partir da modulação
de afetos negativos e na execução de objetivos traçados, mas também no conhecimento,
compreensão e aceitação das emoções e a possibilidade de aceder a estratégias de regulação
percebidas como efetivas.
O estudo de Morel e Papouchis (2015), com 125 estudantes universitários, objetivando
analisar o papel da vinculação na regulação emocional, corrobora a literatura, sugerindo
que o estilo de vinculação parece associar-se com a capacidade do indivíduo em regular as
emoções. Os resultados relataram que indivíduos com vinculação segura tinham menos
dificuldade em regular as suas emoções. Evidenciou-se ainda que a vinculação insegura foi
associada à falta de consciência emocional, limitação no uso de estratégias de regulação
emocional e dificuldades em controlar os impulsos. A vinculação evitante associou-se à
recusa de respostas emocionais e à falta de consciência e clareza emocional.
A qualidade de vinculação que os jovens mantêm com os pais, pode também ter um efeito na
forma como estes percecionam as pressões sociais relativas ao corpo e constroem imagens
do mesmo e de si mais saudáveis e positivas, uma vez que é no contexto desenvolvimental
que se vivenciam as primeiras experiências sensoriais e corporais (Barbosa & Costa, 2001).
Indivíduos com vinculação segura, mostram-se mais confiantes, seguros, com maiores
níveis de autoestima e autoaceitação no que diz respeito à sua imagem (Bowlby, 1969;
Pietromonaco & Barret, 2000). Por outro lado, a vinculação insegura, caracterizada por
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perceções negativas de si e dos outros, potencia sentimentos também mais negativos com
o corpo, podendo haver maior suscetibilidade a comparações, avaliações e aceitação de
outras pessoas e ainda a almejar compatibilidade com os protótipos de beleza (Bowlby,
1969; Park & Beaudet, 2007). Para Troisi et al. (2006), a insatisfação corporal, proveniente
de uma vinculação insegura, onde o indivíduo desloca a atenção para o seu corpo, pode
estar associada ao medo da rejeição.
Para Barbosa, Matos e Costa (2011), a imagem corporal é uma “construção biopsicossocial”,
baseada nas experiências vividas ao longo do tempo. Cash (2008) encara-a mais do que
uma imagem mental que se possui acerca da aparência. Para o autor, a imagem corporal
consiste também na relação pessoal com o próprio corpo, englobando as perceções,
crenças, pensamentos, sentimentos e ações que dizem respeito à aparência física de um
indivíduo. A componente cognitiva ou de investimento na aparência (ligada às crenças
e pensamentos acerca da imagem corporal) desempenha um papel central, segundo o
autor, no conceito de imagem corporal. O investimento na aparência, abrange o conceito
de esquemas de aparência, surgindo o termo investimento esquemático na aparência. Os
esquemas de aparência referem-se às generalizações cognitivas acerca do significado, da
importância e do possível efeito que a aparência pode ter na vida de um indivíduo (Cash
& Labarge, 1996). Desta forma, o investimento esquemático na aparência é constituído
por duas dimensões: a saliência motivacional, que compreende os investimentos para a
gestão da aparência, realçando a atratividade; e a saliência auto-avaliativa, que pode ser
considerada um tanto disfuncional, uma vez que denota o grau em que o indivíduo
considera que a aparência integra a sua identidade e permite aferir o seu valor pessoal, bem
como preocupações com a opinião e avaliação de outros acerca da sua aparência (Cash,
Phillips, Santos, & Hrabosky, 2004).
Os níveis elevados de saliência auto-avaliativa traduzem esquemas disfuncionais acerca
da imagem corporal, levando a que progressivamente haja uma auto-avaliação negativa
da aparência, o que se traduz em níveis mais elevados de insatisfação corporal (Jakatdar,
Cash, & Engle, 2006). A saliência motivacional não se considera patológica desde que
os esforços realizados para manter a atratividade não sejam devido a crenças sobre a
importância da aparência para o valor próprio (Cash et al., 2004). O estudo de Barbosa
et al. (2011), com 690 jovens entre os 15 e 23 anos, com vista a analisar a contribuição
diferencial da relação parental e de pares na forma como os jovens experienciam a relação
com o seu corpo, salientou a importância da família na construção de uma vivência
corporal positiva, revelando-se a variável com mais peso total na imagem corporal. O
estudo revelou também que os jovens com relações de vinculação inseguras com as suas
figuras significativas tinham uma relação mais negativa com o seu corpo.
Estando a imagem corporal ligada a aspetos cognitivos e afetivos, salienta-se a importância
da autorregulação emocional de forma a atenuar os efeitos que uma discrepância entre o
Eu Ideal e o Eu Real possa causar e ainda na conceção positiva da sua imagem corporal
(Hughes & Gullone, 2011). Neste sentido, um individuo que detenha um desenvolvimento
emocional adaptativo terá, à partida, um fator protetor face a preocupações com a aparência.
Por outro lado, dificuldades na regulação emocional aliada à perceção corporal negativa
gerará e manterá emoções e cognições negativas e desajustadas (Muehlenkamp, Peat,
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Claes, & Smits, 2012), podendo causar sofrimento significativo aos indivíduos e ocasionar
um impacto na qualidade de vida e relações interpessoais (Cash & Fleming, 2002). Uma
imagem corporal negativa leva a sentimentos desconfortáveis, como ansiedade, frustração,
vergonha e desgosto (Cash, 2008), e por isso a regulação emocional tem um papel essencial
neste contexto. Embora a regulação emocional seja um fator importante para a saúde
mental, tem recebido pouca atenção, por parte da literatura científica, no que diz respeito
às preocupações relativas à imagem corporal (Hughes & Gullone, 2011). Verifica-se após
revisão bibliográfica uma crescente tendência de investigações (eg. Haynos, Roberto, &
Attia, 2015; Lavell, Webb, Zimmer-Gembeck, & Farrell, 2018) que pretendem analisar
o efeito da regulação emocional em perturbações que englobam a imagem corporal
(eg. perturbação dismórfica corporal, anorexia, bulimia), mas pouca atenção no que diz
respeito a preocupações com a imagem corporal e a sua componente cognitiva e afetiva,
como é o caso do investimento na aparência. Desta forma, é relevante investigar em que
medida as dificuldades específicas de regulação emocional e também a vinculação aos pais
poderão assumir um efeito no investimento esquemático na aparência e ainda aprofundar
a componente cognitiva relativa à imagem corporal, devido à escassez de estudos sobre
a mesma. Apesar de não se encontrarem, até ao momento, estudos que detenham as
dificuldades de regulação emocional como mediadora na associação entre vinculação aos
pais e investimento esquemático na aparência, seria interessante analisar o possível efeito
nessa associação, ao serem incluídas as dificuldades de regulação emocional, uma vez
que as questões ligadas à imagem englobam os níveis físico, emocional e mental (Secchi,
Camargo, & Bertoldo, 2009).
Objetivo
A presente investigação tem como objetivo analisar o papel da vinculação aos pais e
da regulação emocional no investimento esquemático na aparência em jovens adultos.
Objetiva-se se analisar as diferenças entre a regulação emocional e o investimento
esquemático na aparência em função do sexo, idade e satisfação com a imagem corporal.
Pretende-se ainda testar o papel mediador das dificuldades de regulação emocional na
associação entre vinculação aos pais e o investimento esquemático na aparência.
Método
Participantes
Participaram no estudo 948 sujeitos (327 do sexo masculino: 34.5% e 621 do sexo
feminino: 65.5%) com idades compreendidas entre os 18 e os 30 anos de idade (M =
21.76, DP = 3.31). Os participantes compreendem habilitações entre o 8º ano (3º ciclo) e
o ensino superior (mestrado) (M = 12.44, DP = 1.03). Relativamente à satisfação com a
imagem corporal, verifica-se que 761 indivíduos (80.3%) denotam satisfação, ao passo que
187 (19.7%) referem estar insatisfeitos com a mesma.
Instrumentos
Foi elaborado um questionário sociodemográfico contendo dados como o sexo, idade e
habilitações literárias. Além disso, foi colocada uma questão que remete para a perceção
da satisfação corporal. Para avaliar as representações da qualidade de vinculação que os
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sujeitos têm relativamente às suas figuras parentais, optou-se por utilizar o Questionário
de Vinculação ao Pai e à Mãe (QVPM; Matos & Costa, 2001, versão revista). Este é
composto por 30 itens, para a mãe e para o pai, distribuídos por 3 dimensões: Inibição
da Exploração e Individualidade, com vista a avaliar a perceção de restrições à expressão da
individualidade própria, por parte do sujeito; Qualidade do Laço Emocional, pretendendo
avaliar a importância da figura parental enquanto figura de vinculação, entendida como
única e essencial no desenvolvimento, a quem o sujeito recorre em casos de dificuldades
e com quem projeta uma relação duradoura; e a Ansiedade de Separação, que se encontra
relacionada com ansiedade e medo de separação da figura de vinculação. Este questionário
apresenta uma escala de Likert de 1 a 6, em que 1 corresponde a “discordo totalmente”
e 6 a “concordo totalmente”, para cada figura parental. Relativamente às características
psicométricas, este instrumento apresenta boa consistência interna nas três dimensões
para pai e mãe (entre .81 e .92). Verificaram-se valores de Alpha de Cronbach de .85 para a
totalidade do instrumento relativo ao pai e de .79 para a totalidade do instrumento relativo
à mãe. A análise fatorial confirmatória revelou valores de ajustamento adequados para pai
e mãe, respetivamente: χ
2
(21) = 129.55, p = .001; CFI = .98; TLI = .96; RMR = .06; RMSEA
= .07 e χ
2
(21) =122.22, p = .001; CFI = .98; TLI = .96; RMR = .05; RMSEA = .07.
Para avaliar a regulação emocional, foi utilizada a Escala de Dificuldades de Regulação Emocional
– DERS (Gratz & Roemer, 2004; adaptado para a população portuguesa por Coutinho,
Ribeiro, Ferreirinha, & Dias, 2010). A DERS é uma escala de autorrelato que pretende
avaliar dificuldades de regulação emocional clinicamente significativas. É composta por 36
itens e, para além de um coeficiente geral de dificuldade em regular emoções, contém ainda
seis dimensões, nomeadamente: Estratégias, onde se observa se existem dificuldades no
acesso a estratégias emocionais reguladas; Não-aceitação, que mostra o nível de dificuldade
em aceitar as emoções disfóricas e lidar positivamente com elas; Consciência, com a vista a
perceber se o sujeito está atento e consciente dos seus estados emocionais; Impulso, que
mostra se existem dificuldades em controlar impulsos quando perturbado; Objetivos, que
evidencia o nível de dificuldade do sujeito em se envolver em comportamentos centrados
em objetivos aquando de uma situação stressante; e Clareza evidenciando dificuldade ao
nível da clareza emocional (Coutinho et al., 2010). A cotação é feita numa escala de Likert
de 5 pontos que varia de “1- Quase nunca a 5- Quase sempre”.
Importa salientar que, na presente amostra, a dimensão consciência não apresentou
valores satisfatórios de consistência interna, procedendo-se assim à sua retirada. Após
este procedimento, verificou-se um valor de Alpha de Cronbach de .94 para a totalidade
do instrumento. Relativamente às dimensões do instrumento, utilizadas no estudo, estas
mostram boa consistência interna, onde valor de Alpha de Cronbach varia de .78 a .89. A
análise fatorial confirmatória revela um ajustamento adequado (χ
2
(32) = 136.50, p = .001;
CFI = .98; TLI = .97; RMR = .02; RMSEA = .06).
Para avaliar o investimento esquemático na aparência foi utilizado o Inventário de Esquemas
sobre a Aparência – Revisto – ASI-R (Cash, Melnyk, & Hrabosky, 2004; adaptado para a
população portuguesa por Nazaré, Moreira, & Canavarro, 2010 ), pretendendo avaliar os
níveis de investimento dos indivíduos na sua aparência. Este questionário é composto por
20 itens e 2 dimensões, nomeadamente: Saliência auto-avaliativa, referindo-se às crenças que
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as pessoas têm acerca da forma como o seu aspeto físico permite aferir o seu valor pessoal
ou social e o seu sentido de self e, por isso, torna-se uma dimensão mais disfuncional; e Saliência
motivacional, que se refere ao nível de motivação dos indivíduos para gerir o seu aspeto físico e
acentuar a sua atratividade. A cotação é feita com base numa escala de Likert com 5 alternativas
de resposta que variam entre “Discordo Fortemente” a “Concordo Fortemente”.
A partir da análise da consistência interna obteve-se um Alpha de Cronbach de .87 para a
totalidade do instrumento. Relativamente às dimensões do mesmo, estas apresentam uma
boa consistência interna, onde o valor de Alpha de Cronbach para a dimensão saliência
motivacional foi de .79; e para a dimensão saliência auto-avaliativa o valor foi de .85. A análise
fatorial confirmatória revelou o ajustamento do modelo
2
(5) = 21.17, p = .001; CFI =
.99; TLI = .98; RMR = .02; RMSEA = .06).
Procedimentos
Foi realizada uma recolha inicial de 1064 participantes, no entanto após limpeza da base,
nomeadamente retirada de outliers e sujeitos com mais de 10% de missings, restaram 948.
A idade foi o critério de recolha, sendo critério de exclusão os jovens com algum tipo de
comprometimento cognitivo que os impedisse de responder ao protocolo de investigação.
O protocolo foi constituído pelo consentimento informado, seguido dos questionários
de autorrelato e o tempo médio de preenchimento foi de aproximadamente 15 minutos.
Foi pedida autorização à Comissão de Ética (Nº 20/2016) da Instituição Universitária que
serviu de acolhimento à investigação. A recolha da amostra decorreu presencialmente em
contexto de sala de aula em diversos cursos, numa instituição de Ensino Superior da zona
Norte de Portugal durante o período de 2 meses, tendo os participantes sido informados
sobre a confidencialidade dos dados e voluntariedade da participação.
Resultados
De modo a proceder à análise das associações entre a vinculação aos pais, dificuldades de
regulação emocional e investimento esquemático na aparência, foram realizadas análises
correlacionais entre as variáveis supracitadas, através do programa estatístico SPSS
- Statistical Package for Social Sciences, na versão 24.0 para o sistema Windows (Tabela 1).
Verifica-se a existência de correlações negativas entre a qualidade do laço emocional e
clareza, impulso e estratégias (entre r = -.08 e r = -.19, p < .01) para ambas as figuras
parentais, no entanto para a figura materna acresce a associação com a não-aceitação
(r = -.07, p < .05). As dimensões ansiedade de separação e inibição da exploração e
individualidade correlacionam-se positiva e significativamente, de forma fraca e moderada
com clareza, impulso, não-aceitação, objetivos e estratégias (entre r = .12 e r = .37, p < .01)
para ambas as figuras parentais (Tabela 1). Observa-se ainda que a dimensão ansiedade
de separação se correlaciona significativamente de forma positiva com a saliência auto-
avaliativa e saliência motivacional (entre r = .13, p < .01 e r = .19, p < .01) para ambas as
figuras parentais. A dimensão qualidade do laço emocional ao pai e à mãe correlaciona-se
positiva e significativamente com a saliência motivacional (r = .13, p < .01 e r = .17, p <
.01), respetivamente. Já a dimensão inibição da exploração e individualidade relativa ao pai
e à mãe, correlaciona-se positiva e significativamente com a saliência auto-avaliativa (r =
.16, p < .01 e r = .17, p < .01), respetivamente (Tabela 1).
Claro & Mota
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Tabela 1
Correlação entre variáveis, média e desvio-padrão (N = 948)
Variáveis 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13
Vinculação ao pai
1-Qualidade do laço emocional
-
2-Ansiedade de separação
.51**
-
3- Inibição da exploração e individualidade
-.28** .11** -
Vinculação à mãe
4-Qualidade do lawwço emocional
.64** .31** -.42**
-
5-Ansiedade de separação .24** .85** .08* .41** -
6-Inibição da exploração e individualidade
-.31** .06 .85** -.43** .06 -
Dificuldades de regulação emocional
7- Clareza -.13** .14** .21** -.19** .15** .22** -
8- Impulso -.08* .19** .33** -.13** .19** .37** .42** -
9-Não aceitação -.03 .16** .16** -.07* .18** .21** .32** .53** -
10- Objetivos -.03 .12** .13** -.02 .13** .15** .28** .56** .50** -
11- Estratégias -.09** .19** .30** -.15** .20** .32** .46** .70** .67** .65** -
Investimento na aparência
12-Saliência auto-avaliativa -.01 .19** .16** -.02 .18** .17** .27** .27** .30** .31** .37** -
13-Saliência motivacional .13** .14** -.01 .17** .13** .00 -.02 .02 .05 .04 -.02 .48** -
M 5.26 3.75 2.69 5.43 3.85 2.74 2.24 2.25 2.36 2.84 2.17 3.11 3.43
Dp
.83 .93 .95 .61 .87 .95 .75 .81 .91 .85 .78 .67 .66
*p<.005; **p<.001
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A saliência auto-avaliativa, por sua vez, correlaciona-se positiva e significativamente de
forma fraca e moderada com as dimensões clareza, impulso, não-aceitação, objetivos e
estratégias (entre r = .27 e r = .37, p < .01) (Tabela 1).
Variância das dificuldades de regulação emocional e do investimento esquemático na aparência, em função
do sexo, idade e satisfação com a imagem corporal dos participantes
De acordo com os objetivos delineados foram realizados test-t para amostras independentes
entre as variáveis em estudo, em função da variável sexo e da variável satisfação com a
imagem corporal. Para a variável idade, foi realizada uma análise de variância multivariada.
Atendendo às dimensões das dificuldades de regulação emocional, face ao sexo, observam-
se diferenças significativas apenas na dimensão não-aceitação t (946) = 2.28, p = .02 IC
95% [.02, .26], onde se verifica que o sexo masculino tem maiores dificuldades em aceitar
as emoções disfóricas e lidar positivamente com elas (M = 2.45; DP = .86), do que o sexo
feminino (M = 2.31; DP = .93) (Tabela 2).
Quanto ao investimento esquemático na aparência, verificam-se diferenças significativas
na dimensão saliência auto-avaliativa face ao sexo, t (725.76) = -3.22, p = .001 IC 95%
[-.23, -.06]. Analisando as médias, observa-se que o sexo feminino apresenta maiores
níveis de crenças de como o seu aspeto físico permite aferir o seu valor pessoal (M = 3.15,
DP = .69), do que o sexo masculino (M = 3.01; DP = .62) (Tabela 2).
Em relação à idade, foram elaborados 3 grupos de acordo com as faixas etárias em que
os jovens usualmente experimentam vivências pessoais distintas: o primeiro grupo dos 18
aos 23 anos; o segundo grupo dos 24 aos 27 anos; e o terceiro grupo dos 28 aos 30 anos.
Relativamente às dificuldades de regulação emocional face à idade, as análises multivariadas
apontam para a existência de diferenças significativas F(12, 1882)= 3.18, p = .001,
2
= .99.
Verifica-se a existência de diferenças na dimensão objetivos F
(2, 945)= 4.13, p = .02,
2
= .73, revelando que o grupo dos 18 aos 23 têm maiores dificuldades no envolvimento de
comportamentos centrados em objetivos aquando uma situação ansiogénica (M = 2.88;
DP = .86) do que o grupo dos 28 aos 30 anos (M = 2.63; DP = .80) (Tabela 3).
Tabela 2
Análise diferencial das dificuldades de regulação emocional e investimento esquemático na aparência em
relação ao sexo
Sexo M ± DP IC95% Direção das
diferenças
Dificuldades de regulação emocional
Não-aceitação Masculino 2.45 ± .86
[.02; .26] 1 > 2
Feminino 2.31 ± .93
Investimento esquemático na aparência
Saliência autoavaliativa Masculino 3.01 ± .62
[-.23; .06] 1 < 2
Feminino 3.15 ± .69
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Tabela 3
Análise diferencial das dificuldades de regulação emocional e investimento esquemático na aparência em
relação à idade
Idade M±DP IC95% Direção das
diferenças
Dificuldades de regulação emocional
Objetivos 1- 18 aos 23 2.88 ± .86 [2.81,2.94]
1 > 3
2- 24 aos 27 2.79 ± .83 [2.64, 2.93]
3- 28 aos 30 2.63 ± .80 [2.45, 2.79]
Investimento esquemático na aparência
Saliência autoavaliativa 1- 18 aos 23 3.14 ± .70 [3.09, 3.18]
1 > 2
2- 24 aos 27 2.94 ± .53 [2.82, 3.05]
3- 28 aos 30 3.08 ± .53 [2.94, 3.20]
Saliência motivacional 1- 18 aos 23 3.45 ± .66 [3.40, 3.50]
1 > 2
2- 24 aos 27 3.30 ± .66 [3.18, 3.40]
3- 28 aos 30 3.43 ± .63 [3.29, 3.55]
No que concerne ao investimento esquemático na aparência face à idade, os resultados
também apontam para diferenças significativas F(4, 1890)=2.95, p = .02,
2
= .79.
Atendendo às análises univariadas, observa-se que esta diferenciação ocorre em ambas as
dimensões: saliência auto-avaliativa (F(2, 945) = 5.23, p = .01,
2
= .83), denotando que o
grupo de indivíduos dos 18 aos 23 anos apresenta maiores níveis de crenças de como o
seu aspeto físico permite aferir o seu valor pessoal (M = 3.14; DP = .70), do que o grupo
dos 24 aos 27 anos (M = 2.94; DP = .53); e saliência motivacional (F(2, 945)
= 3.22, p =
.04,
2
= .62), verificando-se que o grupo dos 18 aos 23 anos apresenta maiores níveis de
atenção à sua aparência, querendo reforçar a atratividade (M = 3.45; DP = .66), do que o
grupo dos 24 aos 27 anos (M = 3.30; DP = .66) (Tabela 3).
No que diz respeito às dificuldades de regulação emocional face à satisfação com a imagem
corporal, verificam-se diferenças significativas em todas as dimensões: clareza t(241.09) =
-5.81, p = .001 IC 95% [-.55, -.27]; impulso t(254.65)
= -3.13, p =.001 IC 95% [-.37, -.09];
não-aceitação t(248.89)
= -2.54, p = .01 IC 95% [-.38, -.05]; objetivos t(258.56)= -3.14, p
= .001 IC 95% [-.39, -.09]; e estratégias t(251.15)
= -4.32, p = .001 IC 95% [-.45, -.17].
Verifica-se que os indivíduos que se encontram insatisfeitos relativamente à sua imagem
corporal apresentam maiores dificuldades de regulação emocional do que aqueles que se
encontram satisfeitos, nomeadamente e respetivamente na: clareza emocional (M = 2.57;
DP = .91 e M = 2.16; DP = .69); em controlar impulsos (M = 2.43; DP = .92 e M = 2.21;
DP = .78); em aceitar as emoções (M = 2.53; DP = 1.07 e M = 2.32; DP = .86); em se
envolver em comportamentos centrados em objetivos aquando uma situação stressante
(M = 3.03; DP = .95 e M = 2.79; DP = .82); e no acesso a estratégias emocionais reguladas
(M = 2.42; DP = .91 e M = 2.11; DP = .74) (Tabela 4).
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Relativamente às análises diferenciais do investimento esquemático na aparência face à
satisfação com a imagem corporal, observam-se diferenças significativas na dimensão
saliência auto-avaliativa t(267.20) = -11.77, p = .001 IC 95% [-.74, -.53]. Os indivíduos que
se mostram insatisfeitos com a sua imagem corporal revelam níveis de maior atenção com
a aparência e crenças de como o seu aspeto físico permite aferir o seu valor pessoal (M =
3.61; DP = .67), comparativamente com os indivíduos que se encontram satisfeitos (M =
2.98; DP = .61) (Tabela 4).
O papel mediador das dificuldades de regulação emocional na associação entre vinculação aos pais e
investimento esquemático na aparência.
De acordo com os resultados obtidos no modelo de equações estruturais através do
programa AMOS na versão 23.0, partindo do método de Bootstrap, observa-se um
efeito inicial significativo e positivo entre a ansiedade de separação ao pai e a inibição da
exploração e individualidade relativa à mãe face à saliência auto-avaliativa = .28) e
= .15) respetivamente. Constata-se ainda um efeito inicial positivo entre a ansiedade de
separação relativa ao pai face à saliência motivacional (β = .30) e um efeito negativo entre
a ansiedade de separação à mãe e a saliência motivacional = -.22). Por fim, denota-
se um efeito inicial positivo entre a qualidade do laço emocional à mãe e a saliência
motivacional (β = .28).
Tabela 4
Análise diferencial das diculdades de regulação emocional e investimento esquemático na aparência em relação à
satisfação com a imagem corporal
Satisfação com a
imagem corporal
M ± DP IC95%
Direção das
diferenças
Dificuldades de regulação emocional
Clareza
1- Sim
2- Não
2.16 ± .69
2.57 ± .91
[-.55; -.27] 1 < 2
Impulso
1- Sim
2- Não
2.21 ± .78
2.43 ± .92
[-.37; -.09] 1 < 2
Não-aceitação
1- Sim
2- Não
2.32 ± .86
2.53 ± 1.07
[-.38; -.05] 1 < 2
Objetivos
1- Sim
2- Não
2.79 ± .82
3.03 ± .95
[-.39; -.09] 1 < 2
Estratégias
1- Sim
2- Não
2.11 ± .74
2.42 ± .91
[-.45; -.17] 1 < 2
Investimento esquemático na aparência
Saliência auto-avaliativa
1- Sim
2- Não
2.98 ± .61
3.61 ± .67
[-.74; -.53] 1 < 2
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Posteriormente foi analisado o papel das dificuldades de regulação emocional como
mediador. Relativamente à figura materna, verifica-se que a qualidade do laço emocional
prediz negativamente as dificuldades de regulação emocional (β = -.15). Por outro lado, a
ansiedade de separação e a inibição da exploração e individualidade predizem positivamente
as dificuldades de regulação emocional = .24) e = .27), respetivamente. Quanto à
figura paterna, não se verificam quaisquer predições face às dificuldades de regulação
emocional. Observa-se ainda que as dificuldades de regulação emocional predizem
positivamente a saliência auto-avaliativa (β = .41).
Figura 1. Modelo representativo do efeito mediador das diculdades de regulação emocio-
nal na associação entre inibição da exploração e individualidade mãe e saliência auto-avaliativa.
Dificuldades
de regulação
emocional
χ
2
(34) =169.98 p = .001; CFI= .97;
TLI= .95; RMR= .03; RMSEA= .07
SE= .02, p < .001, β= .11
.
Clareza
Não-aceitação
Impulso
Objetivos
Estratégias
.49*
.76*
.71*
.70*
.93*
Saliência auto-avaliativa
.28*
.00
.38*
Efeito direto (saliência auto-
avaliativa) (perdeu significância)
Efeitos diretos
Efeito de mediação total
(saliência auto-avaliativa) .11*
.11*
Qualidade do laço
emocional Mãe
Ansiedade de
separação Mãe
Ansiedade de
separação Pai
Saliência motivacional
.14*
.11*
-.05
.26*
.14*
-.14*
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Após a realização da testagem do papel mediador das dificuldades de regulação emocional,
constata-se que o efeito direito inicial da inibição da exploração e individualidade relativa
à figura materna sobre a saliência auto-avaliativa perdeu significância = .00). Assim,
verifica-se uma mediação total com efeito positivo das dificuldades de regulação emocional
na associação da inibição da exploração e individualidade relativa à mãe e a saliência auto-
avaliativa (SE = .02; β= .11, IC 90% [.08, .13]). No modelo final, observa-se ainda que
os efeitos diretos entre a ansiedade de separação ao pai e saliência motivacional, assim
como entre a qualidade do laço emocional à mãe e saliência motivacional e ainda entre a
ansiedade de separação face ao pai e saliência auto-avaliativa perderam magnitude =
.14, β = .14 e β = .11), respetivamente. De igual modo, o efeito direto entre a qualidade do
laço emocional à mãe e dificuldades de regulação emocional perdeu magnitude (β = -.14),
ao passo que o efeito direto entre ansiedade de separação face à mãe e dificuldades de
regulação emocional ganhou magnitude = .26). Por fim, o efeito direto entre a ansiedade
de separação face à mãe e saliência motivacional perdeu significância (β = -.05) (figura 1).
Constata-se que os índices de ajustamento do modelo se encontram adequados: χ
2
(34)
= 169.98; p = .001; χ
2
/GL = 4.99; CFI = .97; TLI = .95; RMR = .03; RMSEA = .07.
Discussão
O presente estudo teve como principal objetivo analisar o papel da vinculação aos pais
e da regulação emocional no investimento esquemático na aparência dos jovens adultos.
Observou-se que a qualidade do laço emocional a ambas as figuras parentais se associou
de forma negativa com a clareza, impulso e estratégias, e no caso da figura materna acresce
a associação com a não-aceitação.
Por outro lado, a ansiedade de separação e a inibição da exploração e individualidade
relativa a ambas as figuras parentais associou-se de forma positiva com as dificuldades de
regulação emocional na sua totalidade. Deste modo, destaca-se a importância da qualidade
do laço emocional aos pais como fator protetor face a dificuldades de regulação emocional
nos jovens, evidenciando que uma relação pautada por confiança e segurança parece
favorecer a regulação emocional, como o controlo dos impulsos, a clareza e aceitação das
emoções, assim como o planeamento de estratégias para regulá-las.
Neste sentido, Bowlby (1973) refere que a qualidade da vinculação desde a infância
até à fase adulta, está intrinsecamente ligada ao controlo e maturação emocional dos
indivíduos. Em contrapartida, a dependência, insegurança e inibição da individualidade
do jovem parecem constituir-se como variáveis que potenciam dificuldades de regulação
emocional. Poderá ser explicativo o facto da inibição à exploração e individualidade
ser contraproducente, especialmente em jovens adultos, pois interfere no processo
de autonomia e desenvolvimento emocional, resultando numa menor capacidade de
regulação emocional. Segundo Manzeske e Stright (2009), a jovem adultícia pressupõe que
os indivíduos aperfeiçoem, de forma autónoma, as suas próprias estratégias emocionais,
com mínimo de interferência das figuras parentais, de forma a consolidarem o processo
de autonomia e adaptação. Quando as interações com as mesmas são caracterizadas por
controlo excessivo, inconsistência e inibição da exploração, conduzem a sentimentos de
desvalorização e menor eficácia na regulação emocional (Greenberg, 1999).
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Relativamente à associação entre vinculação aos pais e o investimento esquemático
na aparência, verificou-se que a ansiedade de separação e a inibição da exploração e
individualidade relativa a ambas as figuras parentais se associaram positivamente com
a saliência auto-avaliativa. Observou-se também que a qualidade do laço emocional e
ansiedade de separação a ambas as figuras parentais se associaram positivamente à saliência
motivacional. Considera-se que a dimensão ansiedade de separação apenas se assume uma
variável negativa quando se experienciam os seus extremos.
Deste modo, a ansiedade pode ser positiva no contexto da vinculação quando exerce
um papel adaptativo no desenvolvimento do jovem. Posto isto, níveis considerados
normativos de ansiedade de separação, estando intrinsecamente ligados a um ambiente
familiar pautado por segurança e confiança, podem potenciar um desenvolvimento
ajustado e, por conseguinte, predispõe o jovem a possuir uma imagem de si mais segura
e positiva (Barbosa & Costa, 2001), esforçando-se por manter a sua aparência. Por outro
lado, quando a ansiedade de separação se assume extrema e/ ou está presente inibição
da exploração e individualidade do jovem, estas variáveis colocam-se como entraves ao
processo de autonomia, podendo ter efeitos no desenvolvimento emocional (Ainsworth,
1989; Bowlby, 1988; Manzeske & Stright, 2009). Este cenário poderá proporcionar
ao jovem uma imagem negativa de si, preocupações e insegurança com a sua própria
aparência, bem como maior suscetibilidade à opinião alheia, potenciando níveis mais
elevados de saliência auto-avaliativa.
No que concerne à associação entre dificuldades de regulação emocional e investimento
esquemático na aparência, verificou-se que as dificuldades de regulação emocional (clareza,
impulso, objetivos, não-aceitação e estratégias) se associaram positivamente com a saliência
auto-avaliativa. As emoções e pensamentos ligados à avaliação e crenças disfuncionais da
aparência, se não forem reconhecidos, clarificados, compreendidos e absorverem o jovem
por inteiro, ao ponto de o impedir de realizar outras tarefas, acabam por manter distorções
cognitivas e reforçar comportamentos desadaptativos (Muehlenkamp et al., 2012), como é
o caso da saliência auto-avaliativa.
Por outro lado, os jovens que possuem maiores níveis de aceitação e estratégias emocionais,
poderão face a sentimentos disfuncionais relativos à aparência, lidar positivamente com
as suas emoções, com vista à modificação de comportamentos e sentimentos que causem
o seu desconforto e mantenham a saliência auto-avaliativa elevada. Tendo em conta este
aspeto, os jovens com menores dificuldades de regulação emocional, parecem estar mais
propensos a investirem de forma mais ajustada na sua aparência.
Face às dificuldades de regulação emocional, verificou-se que o sexo masculino manifesta
maiores dificuldades em aceitar as emoções e lidar positivamente com elas. O estudo
de Shiovitz Lemonik (2015), realizado com 235 jovens adultos com vista a analisar a
desregulação emocional corrobora este resultado, constatando que o sexo masculino
evidencia maiores dificuldades a nível da aceitação das emoções. Poderá ser explicativo o
facto da expressão emocional, tendo em conta o contexto sociocultural, ser mais restritiva
para o sexo masculino, nomeadamente na questão do choro e pela escassa estimulação da
verbalização emocional, sendo esperada uma postura mais ativa e racional. Por outro lado,
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as mulheres são mais estimuladas a verbalizar as suas emoções e a lidar com as mesmas,
tendo algum suporte das figuras significativas (Núñez, Fernández-Berrocal, Rodríguez, &
Postigo, 2008). Desta forma, os homens poderão inibir as suas emoções, evitando lidar
com as mesmas (Carlotto, 2011; Formiga, 2006) e, por conseguinte, acarretar maiores
dificuldades em aceitá-las.
No que concerne ao investimento esquemático na aparência face ao sexo, verificou-se
que o sexo feminino detém maiores níveis de saliência auto-avaliativa. Tal facto poderá
ser explicado pelas maiores preocupações e importância que as mulheres atribuem à sua
aparência devido a aspetos socioculturais, que propagam padrões e ideais de beleza mais
rígidos para o sexo feminino (Cash et al., 2004). Estas preocupações, o desejo ou exigência
de estar à altura do que é imposto socialmente e por vezes a discrepância entre os padrões
de beleza e o seu Eu Real, podem originar emoções negativas, insegurança e suscetibilidade
à aceitação e opinião de outrem.
Nesta medida, estas variáveis em conjunto, que poderão advir de um contexto familiar
marcado por insegurança e falta de confiança, podem culminar num investimento na
aparência desajustado, ou seja, em maiores níveis de saliência auto-avaliativa. O estudo de
Nazaré et al. (2010), com 226 sujeitos adultos de ambos os sexos, com o objetivo verificar
as características psicométricas da versão portuguesa do Inventário de Esquemas sobre a
Aparência - Revisto (ASI-R), vai ao encontro deste resultado, evidenciando maiores níveis
de investimento na aparência no sexo feminino.
Relativamente às diferenças nas dificuldades de regulação emocional face à idade, os
jovens entre os 18 e os 23 anos denotaram maiores dificuldades no envolvimento de
comportamentos centrados em objetivos, quando experienciam emoções negativas, do
que jovens entre os 28 e os 30 anos. Os jovens mais novos, não tendo adquirido a mesma
maturidade, não tendo, à partida, um repertório diversificado de experiências emocionais
e vivenciando transformações psicológicas face aos mais velhos, poderão estar mais
suscetíveis a experienciarem as suas emoções de forma mais intensa, tendo dificuldades
em se concentrarem na realização de tarefas.
Ainda nesta perspetiva, vale salientar que os indivíduos mais jovens, à partida, ainda
partilham o mesmo lar com as figuras parentais, tendo estes por sua vez um papel
importante no desenvolvimento emocional dos seus filhos. Nesta medida, se o ambiente
familiar se colocar como entrave à regulação emocional adaptativa, poderão surgir maiores
dificuldades na gestão das emoções (Bowlby, 1969; Manzeske & Stright, 2009). De acordo com
Orgeta (2009), a capacidade de regulação emocional tende a aumentar com a idade, podendo ser
devido à elevação da inteligência cristalizada e à diminuição dos níveis de neuroticismo.
Relativamente ao investimento na aparência face à idade, verificou-se que os jovens
entre os 18 e 23 anos denotam maiores níveis de saliência auto-avaliativa e de saliência
motivacional face aos jovens com idades compreendidas entre 24 e 27 anos. Os indivíduos
mais novos parecem esforçar-se mais para manter a sua atratividade e ao mesmo tempo
estão mais atentos e preocupados com a sua aparência e opiniões alheias, potenciando o
desajuste no investimento na aparência. Os indivíduos mais novos poderão investir mais
na sua aparência devido ao início de experiências românticas, que por sua vez implica
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alguma preocupação acerca da avaliação de outras pessoas (Alferes, 2006), o que aliada à
imaturidade dos jovens, face aos mais velhos, pode tornar-se disfuncional.
Estes jovens também podem percecionar, valorizar e ter maiores preocupações com
o seu corpo, tendo em vista a inserção e aceitação em sociedade (Jager et al., 2017), a
qual se encontra recheada de preconceitos e as diferenças culminam em exclusão social
e bullying. Assim, o corpo e a aparência poderão ser vistos, nessa idade, como uma
ferramenta poderosa para a integração. Consistente com a literatura está um estudo com
443 universitários de ambos os sexos, com intuito de averiguar o pensamento social e
comportamentos associados ao corpo, verificando que a aparência possuía um maior peso
nas relações interpessoais em indivíduos mais jovens (Camargo, Justo, & Jodelet, 2010).
No que concerne às diferenças das dificuldades de regulação emocional face à satisfação
com a imagem corporal, observou-se que indivíduos insatisfeitos com a mesma denotam
maiores dificuldades na clareza emocional, no controlo dos impulsos, na aceitação das
emoções, em conseguir realizar tarefas/objetivos aquando de emoções negativas e no acesso
a estratégias emocionais reguladas. Os indivíduos insatisfeitos com a sua imagem corporal
podem estar propensos a emoções negativas associadas à mesma. Segundo Sim e Zeman
(2006), as emoções negativas constituem-se como fatores de risco ao desenvolvimento de
insatisfação corporal, e esta, por sua vez, potencia ainda mais emoções negativas devido à
contradição entre o corpo real e o ideal. Estas emoções podem tornar-se disfuncionais ao
ponto dos indivíduos terem dificuldades em clarificá-las, em se concentrarem em outras
tarefas, ou até adotarem estratégias para que possam reverter essa situação.
Relativamente às diferenças no investimento na aparência face à satisfação com a imagem
corporal, observou-se que os jovens insatisfeitos com a mesma revelam maiores níveis
de saliência auto-avaliativa. Este resultado era expectável devido ao facto dos jovens que
se encontram insatisfeitos tenderem a ter maiores preocupações com sua aparência e
almejarem estar ao nível dos padrões de beleza socialmente impostos. Indivíduos com
elevados níveis de saliência auto-avaliativa têm tendência a distorções cognitivas que, à
medida que aumentam, reforçam a insatisfação corporal (Jakatdar et al., 2006).
Mediante a análise do papel mediador das dificuldades de regulação emocional, verificou-se
que este parece contribuir positiva e totalmente na associação entre inibição da exploração
e individualidade relativa à mãe e saliência auto-avaliativa. Nesta medida, constata-se que
a inibição da exploração e individualidade, através de um ambiente familiar pautado por
controlo e constituindo-se como entrave ao processo de autonomia, prediz de forma
positiva as dificuldades de regulação emocional. Estas, por seu turno, medeiam de forma
positiva e total, um investimento potencialmente mais disfuncional na aparência, ou seja,
maiores níveis de saliência auto-avaliativa (Muehlenkamp et al., 2012).
Implicações práticas, limitações e pistas futuras
A presente investigação auxiliou a compreensão da importância que a qualidade da
vinculação aos pais e menores dificuldades de regulação emocional assumem no
investimento mais ajustado na aparência dos jovens. Seria relevante a utilização dos dados
do estudo para a realização de formação especializada dirigida a técnicos, docentes e
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figuras cuidadoras, como forma de prevenção a comportamentos desadaptativos relativos
à aparência em adolescentes e jovens adultos e ainda como consciencialização de que uma
relação pautada por segurança, confiança e afeto, constitui-se como fator protetor face ao
investimento desajustado na aparência e às dificuldades de regulação emocional.
Salientam-se, contudo, algumas limitações face ao presente estudo, como a disparidade
entre sexo, idade e satisfação corporal e a utilização de instrumentos de autorrelato, que
aliado à extensão do protocolo, são passíveis de algum cansaço e preenchimento com
desejabilidade social. Como pistas futuras, parece relevante a realização de investigações
posteriores que assumam um carácter longitudinal, assim como a recolha da amostra ser
extensiva a outras áreas do país. Poderia ser conveniente em futuras investigações acerca do
investimento na aparência, a inclusão de algumas variáveis como o bem-estar, autoestima,
como possíveis fatores protetores e a presença de sintomatologia psicopatológica, devido
ao facto da existência de esquemas de aparência desadaptativos poderem provocar
sofrimento e originar entraves ao ajustamento psicológico dos indivíduos.
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