ISSN 2215-3535
Actualidades en Psicología, 37(135), julho-dezembro, 2023, 15-28
DOI: 10.15517/ap.v37i135.45748
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www.revistas.ucr.ac.cr/index.php/actualidades
Universidad de Costa Rica
Representações sociais da privação de liberdade: uma
análise prototípica entre usuários do sistema penitenciário
Social Representations of Deprivation of Liberty: A Prototypical Analysis among
Penitentiary System Users
Ruth de Sousa Silva e Silva
1
https://orcid.org/0000-0002-0468-9891
Ludgleydson Fernandes de Araújo
2
https://orcid.org/0000-0003-4486-7565
Jeerson Luiz de Cerqueira Castro
3
https://orcid.org/0000-0002-7990-7611
1
Departamento de Psicologia, Universidade Federal do Piauí, Piauí, Brasil
1, 2, 3
Universidade Federal do Delta do Parnaíba, Parnaíba, Brasil
1
ruthtaaso@gmail.com
2
ludgleydson@yahoo.com.br
3
jeerson.psico.ufpi@outlook.com
Recebido: 08 de agosto del 2021. Aceitado: 06 de julho del 2023.
Resumo. Objetivo. Objetivou-se analisar as representações sociais (RS) sobre privação de liberdade (PL) entre
usuários(as) do sistema penitenciário. Método. Participaram 40 indivíduos em privação de liberdade pareados
por sexo. Aplicou-se questionários sociodemográcos e o Teste de Associação Livre de Palavras (TALP), que
teve como indutor o termo “privação de liberdade” . Os dados dos questionários foram analisados pelo sof-
tware IBM SPSS, enquanto os dados do TALP foram analisados pelo software IRaMuTeQ. Resultados. A partir da
pergunta de pesquisa, vericou-se entre os homens representações de PL sobre saudade, sofrimento, angústia
e fé. entre as mulheres, a PL signica dor pela falta dos lhos, sentimento de tristeza e solidão. Portanto, se
constata que os grupos compartilharam representações semelhantes sobre a privação de liberdade, destacan-
do aspectos emocionais e psicológicos, se sobressaindo a saudade da família.
Palavras-chave. Representações Sociais, pessoas privadas de liberdade, sistema penitenciário
Abstract. Objective. The objective was to analyze the social representations of deprivation of liberty (DL)
among users of the prison system. Forty individuals deprived of liberty matched for sex participated. Method.
Sociodemographic questionnaires and the Free Word Association Test (FAWT) were applied with the term
deprivation of liberty” as an inducer. The questionnaire data was analyzed using the IBM SPSS software, while
the TALP data was analyzed using the IRaMuTeQ software. Results. From the research question, it was found
that among men representations deal with longing, suering, anguish, and faith. Among women, it means pain
for the lack of children, feeling of sadness and loneliness. Therefore, it appears that the groups shared similar
representations about the deprivation of liberty, highlighting emotional and psychological aspects, and the
longing for the family.
Keywords. Social representations, people deprived of liberty, penitentiary system
Representações Sociais da Privação de Liberdade
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INTRO METODO RESULTADOS DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
Introdução
De acordo com o World Prision Brief et al. (2021),
um banco de dados exclusivo que fornece acesso
gratuito a informações sobre os sistemas prisionais
em todo o mundo, o Brasil é o terceiro país com a
maior população prisional do planeta, após Estados
Unidos e China. O site do
Ministério da Justiça e
Segurança Pública (2019)
conrma a segurança da
informação publicada. Uma colocação que não traz
mérito algum em classicação mundial, apenas re-
gistro de um sistema que sofre inúmeros problemas
e violação de direitos fundamentais à vida humana.
O sistema penitenciário foi instituído com a -
nalidade de punir aqueles que descumprissem as
exigências previstas na Lei. Em civilizações antigas,
as penas sofridas pela não observância das con-
venções instituídas para o convívio em sociedade
eram tortura, esquartejamento, forca, entre outras,
como aponta
(Micheli, 2001). Em alguns países,
penalidades com requinte de crueldade ainda são
impostas, como se pode citar os países Irã, Arábia
Saudita, Emirados Árabes, Nigéria, Paquistão, Su-
dão, Índia e China
(Oliveira & Durães, 2015; Silva &
Aramizo, 2016)
, embora tais expressões de punições
não sejam aceitáveis, de acordo com tratados in-
ternacionais
(Souza, 2016 ). Em âmbito nacional, de
acordo com a Lei de Execução Penal
(Lei 7210 de
1984)
, as punições atribuídas a quem cometeu um
ato censurável são: privativas de liberdade, restri-
tivas de direitos e a multa. As mais comuns são as
privativas de liberdade, que consistem na exclusão
da convivência com a sociedade livre. Entretanto,
a realidade tem evidenciado condições desuma-
nas em estabelecimentos prisionais, persistentes
violações que atingem mais intensamente grupos
vulnerabilizados
(Almeida, 2019).
O sistema penitenciário brasileiro encontra-se
em precariedade. Alguns aspectos mais dramáticos
são a superlotação, estruturas inadequadas, insu-
ciente assistência básica à saúde, inecácia da resso-
cialização, reincidências, falta de apoio da socieda-
de
(Andrade & Ferreira, 2015) e segundo o relatório
sobre o crescimento de prisões no mundo do Insti-
tute for Crime & Justice Policy Research
(Jacobson et
al., 2017)
, muitas prisões estão sob controle de gan-
gues, além de motins, violência extrema e massacres
que são relatados regularmente. Tudo isso reete a
falta de investimento e omissão do poder público
(Dias, 2011). Devido a fatores como esses menciona-
dos, a população que se encontra nessas unidades é
negligenciada em suas necessidades mais básicas e
no direito fundamental da pessoa humana, o princí-
pio da dignidade, previsto na Carta Magna a todos
os brasileiros
(Woltmann & Souto, 2009).
Segundo dados do Levantamento Nacional de
Informações Penitenciárias Infopen 2019 e atuali-
zado vinte e cinco de junho de 2020
(Departamen-
to Penitenciário Nacional, 2020)
, o quadro é caóti-
co com o décit de 312.925 vagas. Pode-se concluir
por esses números que o excesso da capacidade
física das unidades prisionais gera outras comple-
xidades para o sistema que tem se transformado
em um amontoado de seres humanos excluídos
sica- e psicossocialmente. Ademais, a quantidade
de pessoas em privação de liberdade sem conde-
nação, os presos provisórios, constam de 222.558
segundo esse mesmo documento estatístico. Con-
siderando a penitenciária, escopo do presente
estudo, a taxa nesse regime chega a 73,91%. Não
obstante, reabilitar quem ainda não é culpado tor-
na-se ainda mais improvável já que a privação de
liberdade visa reintegração à sociedade, congu-
rando assim a morosidade penal brasileira, como
se pode vericar nos estudos publicados pelo Ins-
tituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA
(An-
drade et al., 2015)
e, portanto, outro agravante no
cenário penitenciário nacional.
Segundo aponta
Serra e Lima (2019) a saúde
precária é mais um aspecto crítico no sistema peni-
tenciário e está diretamente relacionado à estrutura
física e sanitária das unidades. Uma realidade deste
quadro são as instalações do locus da investigação
coletada. Os participantes encontram-se numa es-
trutura improvisada, na qual a construção de um
mercado municipal foi aproveitada para receber
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INTRO METODO RESULTADOS DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
estado tem responsabilidade diante do aprisiona-
mento de pessoas, sua ressocialização e reintegração
à sociedade, porém, não se tem alcançado essas de-
terminações legais
(Tiosso & Costa, 2019).
Em vista disso, para demonstrar a situação das
pessoas em privação de liberdade e entender sob
qual teoria se sustenta este estudo, é relevante con-
siderar literaturas cientícas que certiquem a con-
sonância da investigação junto a contextos prisio-
nais e o embasamento teórico elegido, que é a TRS,
legado de Serge
Moscovici (2003).
Em algumas pesquisas publicadas acerca das
representações sociais no sistema penitenciário,
encontra-se estudos como a representação pela
mídia do Paraná das pessoas privadas de liberdade
(Candido et al., 2012), e imagens e representações
sociais de detentos e agentes penitenciários do Rio
Grande do Sul
(Froes et al., 2015).
Além destas, destacam-se estudos como, as
representações na prossão de agentes peniten-
ciárias em uma unidade de Minas Gerais
(Almei-
da et al., 2017)
, e uma pesquisa realizada em dois
âmbitos prisionais masculinos do Rio de Janeiro, a
m de identicar representações sociais da resso-
cialização por meio da educação
(Oliveira & Melo,
2020)
. Esses estudos são referências do arcabouço
teórico para compreensão e discussão pertinentes
das imagens encontradas, bem como um impor-
tante recurso cientíco para produzir reexões e
alternativas que colaborem com o processo de res-
socialização no campo estudado.
Moscovici se interessou pelo saber construí-
do coletivamente, expresso nos hábitos ordinários
das pessoas por meio da comunicação, a m de
compreender a visão de mundo das pessoas, dos
grupos e a maneira como interpretam, assumem
e mantêm essas concepções
(Polmanari & Cerra-
to, 2014)
. Desta maneira, em 1960, a TRS nasceu no
interior da psicologia social, que nesse período en-
contrava-se refém do modo cartesiano de pensar,
na dicotomia entre sujeito e objeto. Moscovici en-
frentou esse reducionismo considerando a sociali-
zação dos conhecimentos elaborados nas relações
pessoas com diculdades em cumprir as leis. As
condições insalubres tornam o ambiente favorável
para a proliferação de doenças infecciosas e outros
contágios, uso de drogas, alimentação, falta
de higiene, sedentarismo, o desgaste psicossocial
ante a tantos infortúnios tão somente intensicam
o sofrimento físico e mental das pessoas em pri-
vação de liberdade. Enquanto isso, de modo geral,
a sociedade não se satisfaz em saber que a pessoa
está vedada atrás de armações de ferro e concreto
impedindo sua liberdade, mas saber que estão pa-
decendo dor física e moral diariamente lhes sendo
negado a humanidade
(Andrade et al., 2015). É isto
mesmo que se encontrou a exemplo dos resulta-
dos analisados na presente pesquisa e de outros
estudos publicados
(Machado & Guimarães, 2014;
Minayo & Ribeiro, 2016) e informações noticiadas
que corroboram esses dados. A falta de investi-
mento que contemple melhoria nas instalações e
nos demais serviços penitenciários são escassos.
Falta acompanhamento médico e psicológico, me-
dicação, objetos pessoais básicos. Estas necessida-
des associadas ao uso de drogas destinam-se ao
caos na saúde prisional.
Diante desse ambiente, as representações encon-
tradas são variadas e complexas com possibilidades
de serem observadas e compreendidas a partir de
múltiplos saberes. Contudo, algo importante se des-
taca: a compreensão de que são elementos funda-
mentais à existência, os quais demonstram que a hu-
manidade dessas pessoas não está perdida, apesar
da sociedade considerá-las através de rótulos e es-
tigmas (Scherer et al., 2020). Não obstante, em con-
dições desumanas, portanto, ilegais se observado o
ordenamento jurídico nacional em consonância com
a Constituição Federal de 1988, que assegura os dire-
itos fundamentais, sendo-lhes vetado o direito de li-
berdade em consequência de seus atos
(Constitução
da República Federativa do Brasil;
Lei 7210 de 1984),
sendo todos os outros assegurados na forma da lei,
porém não cumpridos (Woltmann & Souto, 2009).
Essa é uma problemática reiterada tantas vezes, à
medida que se interage com o sistema prisional. O
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INTRO METODO RESULTADOS DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
Representações Sociais da Privação de Liberdade
grupais. Nessa perspectiva, o pressuposto da teoria
é considerar as várias formas de dar sentido às rea-
lidades cotidianas
(Morera et al., 2015).
A teoria foi uma resposta encontrada por Mosco-
vici para compreender os problemas sociais do seu
tempo. As representações servem para assimilar e
interpretar a realidade social em que os grupos se
encontram e ter domínio sobre ela, possibilitando
assim a criação de sentido e transformação desse
lugar comum
(Polmanari & Cerrato, 2014). Nesse
sentido, a TRS é um modelo de saber que possibilita
descobrir e explicar sentimentos e ações da vida co-
tidiana com o objetivo de orientar os comportamen-
tos diante de situações sociais especícas
(Sá, 1996).
A teoria mãe baseia-se em dois pressupostos,
ancoragem e objetivação. De acordo com
Mosco-
vici (2003)
, a objetivação é o processo pelo qual
as pessoas transformam conceitos abstratos em
imagens concretas e familiares. Já a ancoragem é o
processo pelo qual as pessoas conectam novas in-
formações a conceitos já existentes em sua mente.
Já o estudo da abordagem estrutural
(Abric,
2003)
em núcleo central e sistema periférico orga-
niza as representações de forma hierarquizada e
está ligado a processos cognitivos, produzindo e
consolidando signicados. Essa sistematização aju-
da a compreender o que é partilhado socialmente e
aspectos mais individualizados das representações,
aquilo que é mais rígido e o que é mais exível à
mudança
(Chaves & Silva, 2013; Sá, 1996), tornan-
do-se importante para compreensão dos fenôme-
nos representacionais do estudo em questão.
Sendo assim, o escopo principal do estudo é
identicar o núcleo central e o sistema periférico
das representações sociais de privação de liberda-
de a partir da perspectiva das pessoas que estão
sofrendo essa penalidade. Com esse enfoque, tor-
na-se importante o que os atores sociais comuni-
cam sobre o contexto prisional em que estão en-
cerrados, distinguindo-se aquilo que é socialmente
compartilhado entre eles e o que é mais particular
sobre o signicado que eles atribuem ao fenômeno
do encarceramento.
Método
Tipo de estudo
Trata-se de uma pesquisa descritiva e explorató-
ria com abordagem qualitativa fundamentada pela
abordagem estrutural de
Abric (2003) da TRS.
Participantes
Obteve-se a colaboração de 40 pessoas em pri-
vação de liberdade com idade entre 22 e 67 anos e
média de idade de 36,35 anos (DP = 10.82). Os cri-
térios de inclusão foram baseados no estudo pré-
vio de
Oliveira et al. (2013): 1) Pessoas em privação
de liberdade a um período superior a seis meses;
2) Cumprir pena em regime fechado; 3) Ter capa-
cidades cognitivas preservadas; 4) Idade superior
a 18 anos; 5) De ambos os sexos; 6) Aceitar parti-
cipar da pesquisa de forma voluntária e anônima
mediante assinatura do Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido (TCLE). Em relação à quantida-
de de participantes foi adotado o estudo prévio de
Araújo et al. (2017), sendo 20 homens e 20 mulhe-
res. Ressalta-se que não houve recusa em colabo-
rarem com a pesquisa, pois participaram de forma
voluntária e anônima, conheceram os critérios de
inclusão, receberam informações sobre a pesqui-
sa, as implicações com a colaboração da mesma
e a orientação de que a participação poderia ser
nalizada a qualquer momento que desejassem.
O cenário da investigação empírica foi uma uni-
dade prisional mista estadual de regime fechado
na cidade
de Parnaíba, no estado do Piauí, Brasil.
Instrumentos
Os instrumentos utilizados na coleta de dados
foram o Questionário Sociodemográco, com o
objetivo de caracterizar os colaboradores e o Teste
de Associação Livre de Palavras (TALP) com a na-
lidade de conhecer as associações feitas pelos par-
ticipantes, de modo que foi solicitado que os par-
ticipantes evocassem cinco palavras que viessem a
mente de forma espontânea com base no termo
indutor “Privação de Liberdade”.
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INTRO METODO RESULTADOS DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
Procedimentos
A presente pesquisa foi aprovada pelo Co-
mitê de Ética em Pesquisa - CEP da Universida-
de Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar) com
CAAE: 12388119.6.0000.5214 e número do parecer
3.305.207.
Os critérios de investigação seguiram
os parâmetros éticos relacionados à pesquisa com
seres humanos conforme as resoluções 466/12
e nº 510/16 do Conselho Nacional de Saúde (CNS)
do Ministério da Saúde. Antes de proceder com a
coleta de dados, visitas foram realizadas a m con-
hecer a rotina das pessoas em privação de liberda-
de, participando de algumas de suas ocupações,
como aulas do Programa Nacional de Acesso ao
Ensino Técnico e Emprego, observação dos aten-
dimentos em saúde, banho de sol, atividades reli-
giosas e manuais.
Devido à instabilidade do contexto peniten-
ciário a pesquisa ocorreu de modo a contemplar
o menor tempo possível entre os dias 30 de abril
a 14 de junho de 2019, em dias e turnos aleató-
rios. No momento da coleta de dados as pes-
soas em privação de liberdade receberam todas
as orientações pertinentes ao estabelecido pelas
normas ético-legais ao desenvolvimento cientíco
e de segurança dos participantes envolvidos, sen-
do convidados individualmente, e observando se
atendiam aos critérios de inclusão. Assim, após as
orientações preliminares e assinatura do TCLE, a
m de favorecer um ambiente oportuno à pesqui-
sa, foi aplicado o questionário sociodemográco
com questões tais como: sexo, idade, escolarida-
de, estado civil, religião, tempo de privação de
liberdade, atividade que ocupa no sistema, pro-
grama reeducativo que participa, entre outras. O
TALP, por conseguinte, trabalhou com o termo in-
dutor, com a intenção de coletar cinco associações
trazidas imediatamente à mente dos participantes
em função do termo apresentado. Vale ressaltar
que a aplicação dos instrumentos teve em média
25 minutos de duração.
Análises de dados
O material coletado com o questionário socio-
demográco foi submetido à análise de estatís-
ticas descritivas, por meio do software IBM SPSS
for Windows na versão 24.0, obtendo-se dados
como média, desvio padrão e distribuição de fre-
quências. Por sua vez, os dados obtidos a partir do
TALP foram organizados em planilhas no software
Open Oce, de modo que as palavras expressas
pelos participantes foram dispostas na planilha de
acordo com a ordem de evocação.
Por conseguinte, os dados foram analisados
pelo software IRaMuTeQ - Interface de R Pour
Analyses Multidimensionnelles de Textes et de
Questionnaires, que é um programa de análise de
dados textuais que opera ancorado no software R
(Camargo & Justo, 2013). Desse modo, a partir da
análise prototípica, o IRaMuTeQ reúne os dados
textuais e os organiza de acordo com a frequên-
cia e ordem média de evocação (OME) em quatro
zonas, que se constituem do núcleo central e sis-
tema periférico
(Castro et al., 2021). Este último,
por sua vez, compreende a primeira periferia, a
segunda periferia e a zona de contraste. Sendo de
maior relevância as palavras prontamente elicia-
das, pois possivelmente não houve esforço cog-
nitivo para lembrar, no entanto, todas as palavras
comunicadas fazem parte da organização interna
da estrutura das representações sociais
(Wachelke
& Wolter, 2011)
.
Resultados
Constituiu-se dois grupos para proceder o trata-
mento dos dados (ver
Tabela 1). O primeiro formado
pelos homens com idade entre 24 e 67 anos e média
de idade de 40.35 anos (DP = 11.3) com média de
47.5 meses em privação de liberdade (DP = 52.43),
no qual o menor tempo encontrado em privação
de liberdade foi 12 meses e o maior tempo de 252
meses (M = 46.5; DP = 52.87). Dentre os homens,
60% se autodeclarou branco, o mesmo percentual
relatou ser evangélico, 70% apresentou baixa esco-
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INTRO METODO RESULTADOS DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
se autodeclarou como parda, 45% relatou ser ca-
tólica, ainda, 70% relatou possuir o Ensino Funda-
mental incompleto, e 70% armou estar em uma
relação amorosa.
O resultado da associação livre de palavras com-
preende-se de 200 termos, sendo que, após a análise
executada pelo IRaMuTeQ, 26 termos foram classi-
cados a partir dos critérios estabelecidos pela análise
prototípica, sendo distribuídos entre os quadrantes,
de acordo com os atores sociais (13 palavras para
cada grupo), possibilitando a apreensão do sistema
central e periférico das representações sociais.
Vale destacar que o TALP permite acessar somen-
te as objetivações das RS de privação de liberdade a
partir dos léxicos evocados pelos respondentes, de
modo que para se ter uma visão mais clara do pro-
cesso de ancoragem seria necessário utilizar outro
instrumento de coleta de dados, como uma entre-
vista semiestruturada.
No que se refere a abordagem estrutural
(Abric,
2003)
, o núcleo central envolve as palavras mais pron-
tamente evocadas e tem um caráter essencialmente
normativo e funcional das representações, signica o
consenso grupal do objeto
(Soares & Machado, 2017).
O sistema periférico caracteriza-se por ser um acrés-
cimo essencial do núcleo central que protege, atualiza
e contextualiza constantemente suas determinações
sendo o elo tangível entre o núcleo e a realidade
(Machado & Aniceto, 2010). Alicerçado nesse conhe-
cimento teórico, a análise prototípica das represen-
tações sociais sobre privação de liberdade vivenciada
pelos homens obteve a classicação dos verbetes a
partir da frequência 3.85 e OME 2.84. Na Tabela 2 é
possível visualizar como se estruturou o valor de cada
palavra evocada e como caram dispostas em cada
quadrante resultando na formação do núcleo central
e periférico
(Castro et al., 2019).
Assim, no quadrante superior esquerdo a repre-
sentação social em questão envolveu a cognição cen-
tral identicada pelos termos saudade = 10; OME
= 2.4) e família = 7; OME = 2.3). O primeiro item
com maior frequência de evocação compreende a
ideia de distanciamento físico ou isolamento de algo
laridade (nenhuma escolarização formal - 10%; En-
sino Fundamental incompleto - 60%), e 80% relatou
estar em relação amorosa.
O segundo compreendido pelas mulheres, com
idade entre 22 e 59 anos e média de idade de
32.35 (DP = 8.90), sendo 8 meses o menor tempo
em privação de liberdade e o maior 120 meses (M
= 28.8; DP = 28.39). Dentre as participantes, 65%
Caracterização
dos
participantes
Homens Mulheres
Edade média 40.3 32.3
DP 11.3 8.9
Cor/Raça 60% Branca 65% Parda
40% Parda 20% Branca
10% Preta
5% Indígena
Escolaridade 5% Sem
escolarização
60% Fund.
Incompleto
60% Fund.
Incompleto
10% Fund.
Completo
5% Fund.
Completo
15% Médio
Incompleto
5% Médio
Incompleto
5% Médio
Completo
10% Médio
Completo
10% Superior
Completo
10% Superior
Completo
Estado civil 50% casado
30% União
estável
10% Solteiro
10% Separado/
Divorciado
Religião 60% Evangélica 45% Católica
40% Católica 40% Evangélica
10% Outras
5% Todas
Tabela 1. Caracterização da amostra
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INTRO METODO RESULTADOS DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
ou alguém, um sentimento de necessidade de revi-
ver momentos já passados. O segundo item, mesmo
com uma frequência menor tem uma OME um pouco
mais alta e contempla o primeiro, que ausência dos
entes queridos é a experiência real devido a exclusão
do convívio familiar que o sistema propicia. Isto posto,
a representação social em pauta sugere que os dois
elementos estejam organizados cognitivamente em
torno da separação das relações afetivas, sociais e
culturais, o que é alcançado pelo Estado com a pena
privação de liberdade, que é a exclusão do convívio
social
(Dell’Aglio et al., 2005).
A periferia primária compreende as palavras ruim
= 5; OME = 3.0), sofrimento = 4; OME = 3.0) e
sair = 4; OME = 3.5) com a frequência e a OME
aproximadas. Essas palavras projetadas evidenciam
associação com os elementos centrais, pois o sistema
periférico o mantém e complementa o núcleo central
(Castro et al., 2021), o que pode signicar forte apro-
ximação com os termos saudade e família. Porém, o
que se sobressai neste quadrante é que, de acordo
com a OME (3.0), o estado de sentimento desagradá-
vel e a condição em que estão sujeitos com dor física,
emocional e psicológica foram prontamente eliciados
antes mesmo que o desejo pela liberdade.
A zona de contraste no quadrante inferior es-
querdo trouxe os componentes humilhação (ƒ = 3;
OME = 2.3) e Deus = 2; OME = 2.0), o que sugere
que o sofrimento causado pelo sistema prisional,
bem como a privação do convívio social represen-
tam uma humilhação para os reeducandos, e que
a fé, ancorada no elemento periférico Deus, pode
signicar uma fonte de suporte frente as adversida-
des encontradas no sistema prisional.
A periferia secundária das representações iden-
ticou as cognições desrespeito = 3; OME = 3.3),
angústia = 3; OME = 3.0), tempo = 3; OME =
3.3), amor próprio (ƒ = 2; OME = 4.0), comida ruim (f
= 2; OME = 3.0) e visita (ƒ = 2; OME = 3.5). Dado que
a periferia secundária apresenta elementos de baixa
OME ≤ 2.84 OME ≤ 2.84
Frequência Núcleo central Periferia primária
Media Evocações ƒ OME Evocações ƒ OME
Saudade 1 2.4 Ruim 5 3.0
Família 0 2.3 Sofrimento 4 3.0
Sair 4 3.5
≥ 3.85
7
Frequência Zona de contraste Periferia secundária
Media Evocações ƒ OME Evocações ƒ OME
Humilhação 3 2.3 Desrespeito 3 3.3
Deus 2 2.0 Angústia 3 3.0
Tempo 3 3.3
Amor próprio 2 4.0
Comida ruim 2 3.0
Visita 2 3.5
Nota. f = Frequência; OME = Ordem Média de Evocações
Tabela 2. Estrutura das representações sociais da privação de liberdade – homens
Representações Sociais da Privação de Liberdade
Actualidades en Psicología, 37(135), 2023.
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INTRO METODO RESULTADOS DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
frequência e de alta OME, ou seja, elementos que
emergiram poucas vezes e que foram evocados tar-
diamente, isso denota aspectos mais individualizados.
Estas escolhas foram bem diversicadas, contu-
do podem apontar para o modo como são tratados
e aspectos de sua identidade. Com respeito à visita,
este é um acontecimento aguardado com grande
expectativa, segundo alguns serve como motivação
para permanecerem no sistema. Isso indica que
passam todos os outros dias pensando nesse en-
contro. Isso os mantém vivos.
A estruturação dos dados coletados entre as
mulheres resultou na formação do núcleo central
e periférico, com o valor de corte da frequência de
2.86 e na OME o valor de corte foi 3.38. A combi-
nação dessa sistematização revelou as evocações
de alta representatividade e as de baixo interesse
para mostrar as cognições correspondentes à pri-
vação de liberdade (ver
Tabela 3).
O núcleo central das representações sociais para
privação de liberdade encontrado entre as mulhe-
res identicou dois elementos, sendo o de maior
frequência e mais elevada OME o termo saudade
(ƒ = 9; OME = 1.0) com o melhor rang calculado da
pesquisa e o outro componente foi angústia (ƒ = 4;
OME = 2.5). O conjunto de participantes demons-
trou um ponto de vista comum para responder
prontamente e de forma espontânea ao termo in-
dutor. Pode-se vericar a padronização da cognição
central tanto para homens quanto para mulheres
com a evocação saudade, tornando-se o conteú-
do mais signicativo às representações sociais de
que se trata. No entanto, para as participantes o
segundo elemento enfatizou também a percepção
psicológica em que se encontram. Essa condição
pode estar associada ao primeiro componente des-
te núcleo e a outros problemas físicos e emocionais
enfrentados entre os muros da prisão.
OME ≤ 2.86 OME ≤ 2. 86
Frequência Núcleo central Periferia primária
Media Evocações ƒ OME Evocações ƒ OME
Saudade 9 1.0 Ruim 5 4.4
Angústia 4 2.5 Tristeza 5 4.2
Solidão 4 3.0
3.38
7
Frequência Zona de contraste Periferia secundária
Media Evocações ƒ OME Evocações ƒ OME
Dor 2 2.0 Convivência 3 4.3
Falta 2 2.5 Grades 2 4.0
≤ 3.38 Filhos 2 2.5 Isolamento 2 4.5
Sair 2 1.5
Pessimismo 2 2.6
Nota. f = Frequência; OME = Ordem Média de Evocações.
Tabela 3. Estrutura das representações sociais da privação de liberdade – Mulheres
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Actualidades en Psicología, 37(135), 2023.
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INTRO METODO RESULTADOS DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
No quadrante superior direito as evocações li-
vres exibiram ruim = 5; OME = 4.4), tristeza
= 5; OME = 4.2) e solidão = 4; OME = 3.0). A
periferia primária dessas mulheres trouxe a expe-
riência de estados emocionais desagradáveis. Dian-
te dessas palavras é possível notar uma comple-
mentação ou desdobramento das representações
encontradas no núcleo central corroborando para
uma possível saúde mental fragilizada.
Em relação a zona de contraste, localizada no qua-
drante inferior esquerdo, que cou composta pelo
maior número de verbetes: dor = 2; OME = 2.0),
falta = 2; OME = 2.0), lhos = 2; OME = 2.5),
sair = 2; OME = 1.5) e pessimismo = 2; OME =
2.6), vericou-se que para as mulheres em privação
de liberdade a dor relacionada a falta dos lhos, e a
saudade de estar com estes pode estar relacionada
com sentimento de tristeza e pode implicar na angús-
tia que estas pessoas em privação de liberdade expe-
rimentam, o que pode contribuir para o pessimismo
frente a um dia sair do sistema prisional.
Com respeito ao quadrante inferior direito cons-
tatou-se os conteúdos representacionais convivên-
cia (ƒ = 3; OME = 4.3), grades (ƒ = 2; OME = 4.0) e
isolamento (ƒ= 2; OME = 4.5) com baixa frequência
e alto rang na classicação de ordem 4, isto é, ele-
mentos que foram evocados por poucas mulheres
e lembrados de forma tardia, o que sugere aspec-
tos mais intrínsecos das participantes. Nesse sen-
tido, se constata que para uma parcela das volun-
tárias a privação de liberdade representa uma vida
atrás das grades, caracterizada pelo isolamento e
pela privação da convivência social.
Discussão
A partir da análise estrutural do núcleo das re-
presentações predomina-se o termo saudade com
maior frequência para o grupo social pesquisado,
acompanhados dos termos família, para homens, e
angústia, para mulheres, o que signica inferir que os
vocábulos mais evocados compreendem o provável
núcleo central das representações. De acordo com
o aporte teórico, as palavras prontamente eliciadas
estão relacionadas à lembrança social, aos condi-
cionantes históricos, ao meio social, as percepções
culturais e políticas de um grupo em relação a um
objeto comum, no qual se um signicado consen-
sual
(Vieira, 2019). Diante do exposto, destaca-se a
vontade de reviver experiências passadas por aque-
les que estão em privação de liberdade.
Os resultados desse estudo sugerem inicialmen-
te duas percepções pontuais. Primeiramente, dian-
te do núcleo central das representações o elemento
consensual no termo saudade. Apesar da diferença
de gênero, não houve distinção na resposta. E, a
despeito de serem pessoas que carregam o estig-
ma de criminosas
(Lima et al., 2017) o aspecto hu-
mano foi evidenciado em todas as evocações como
o seria para qualquer outra pessoa.
Nesse sentido, verica-se semelhança entre a
população encarcerada e a livre no que tange a
evocação de estados afetivos, como a palavra sau-
dade. Durkheim (2004) aponta que a criminalidade
é uma condição estritamente social, sendo comum
a todas as sociedades. Segundo o sociólogo, uma
sociedade sem criminalidade é impossível, dado a
incorrigível maldade dos homens. Portanto, apesar
de paradoxal, de a criminalidade estar associada a
maldade do homem, muitos desses sujeitos encar-
cerados também apresentam manifestações afeti-
vas tal qual um sujeito livre, logo são pessoas que
também sentem saudades, que sofrem com o en-
carceramento.
Nesse ínterim, a esfera penitenciária é um am-
biente marcado por carências
(Junqueira et al., 2016)
afetiva, econômica, social e institucional, basta ol-
har os resultados encontrados no presente estudo
para constatar necessidades básicas à vida huma-
na. O quadrante superior esquerdo para ambos os
grupos apresenta saudade como palavra de maior
frequência. Como parte do núcleo central para os
homens surgiu o termo família. Com esse elemento
pode-se conjecturar relação complementar da pa-
lavra com maior frequência. O que possibilita inferir
que a saudade pode se referir às pessoas com as
quais possuíam uma convivência imediata.
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INTRO METODO RESULTADOS DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
Desse modo, a necessidade afetiva do contato
direto com a família se sobressai para o grupo mas-
culino. Nesse aspecto, pode-se relacionar outros da-
dos dos participantes que ampliem a compreensão
desse quadrante, pois dezoito dos homens estão em
um relacionamento amoroso e dezenove possuem
lhos. Ademais, quando questionados sobre liberda-
de, a família faz parte do projeto de suas vidas além
das celas para dezessete deles, dado encontrado
também em
Miranda e Granato (2016). Outros estu-
dosapontam resultados com respeito a importância
da família para homens em privação de liberdade,
com dados que reetem o interesse paterno na ma-
nutenção do seu contato com a prole e benefícios da
proximidade física com familiares
(Cúnico et al., 2017;
Miranda & Granato, 2016).
Para as mulheres o termo que acompanha sau-
dade no provável núcleo central de suas represen-
tações é angústia, que tem a ver com sofrimento,
inquietações e carências do contexto prisional. O
fator emocional emerge juntamente com o termo
saudade, o que pode sugerir um elemento nega-
tivo que está relacionado com o sentimento de
solidão. Enquanto os homens referem-se aos seus
afetos apontando para uma visão do outro, as mul-
heres direcionam para uma visão centrada em si
mesmas, evidenciando o estado psicológico como
fator adicional à interpretação da realidade em que
vivem. O âmbito penitenciário marcado pela sepa-
ração, instabilidade e inquietação emocionais se
destaca na pesquisa entre mulheres de
Dornellas
(2019)
. Outro fator encontrado em estudos é que
as mulheres são duas vezes abandonadas afetiva-
mente, pelo Estado e por seus familiares
(Santos &
Silva, 2019)
, sendo pouco visitadas (Almeida & Pra-
do, 2020)
. Em Scherer et al. (2020) as participantes
relatam que sentem falta do conforto e dos praze-
res que a vida fora proporciona. Esses dados con-
guram-se deperdas que provocam angústias para
mulheres em situação prisional.
A periferia primária apresentou consensualidade
em mais um termo na população pesquisada. Vale
lembrar que o sistema periférico tem a função de
complementar o núcleo central
(Castro et al., 2021).
O termo ruim se destaca tanto para homens quan-
to para mulheres. Mais uma vez a palavra evocada
denuncia privação não apenas de liberdade, mas
de outras necessidades e cuidados. Essa palavra
tem vários signicados e aponta para a situação
estudada como um componente representacional
que parece uma clara avaliação da instituição pe-
nal. Ruim tem sentido de desagradável, de péssima
qualidade; cujo funcionamento está prejudicado,
não alcança os efeitos esperados. Todos esses sig-
nicados reetem a precariedade do sistema peni-
tenciário brasileiro e são apropriados para ressaltar
que a situação penal não tem alcançado os resulta-
dos desejados
(Fernandes & Oliveira, 2015).
Diante disso, pode-se ainda ampliar a com-
preensão desse campo tendo em vista que o siste-
ma periférico mantém as representações e integra
novas informações, sendo que a periferia primária
tem forte associação com o núcleo central
(Castro
et al., 2019)
. Nesse aspecto, os outros termos des-
tacados na estrutura representacional, sofrimento
para homens e tristeza e solidão para as mulheres,
estão imbricados com a parte central das represen-
tações. Com efeito, o grupo masculino projetou ain-
da a especicidade de ser livre com o vocábulo sair.
Enquanto, para o grupo feminino o termo apareceu
na zona de contraste como cognição mais particular.
O presente estudo identicou a estrutura das
representações sociais de privação de liberdade
entre homens e mulheres que se encontravam in-
seridos no sistema penitenciário de uma instituição
penal de um estado da região Nordeste do Brasil.
A partir da comparação das RS elaboradas por es-
ses dois grupos vericou-se consensos e dissensos
no que concerne sobre as representações de pri-
vação de liberdade.
Nesse aspecto, observou-se elementos da re-
presentação ancorados em aspectos psicossociais
e afetivos, ressaltando-se sobre a saudade, o iso-
lamento, a tristeza, a solidão, a angústia e a dor
do encarceramento. Assim, para as pessoas que
se encontram reclusas no sistema penitenciário a
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INTRO METODO RESULTADOS DISCUSSÃO REFERÊNCIAS
privação de liberdade é representada como um
marcador negativo, e que produz sofrimento nes-
ses atores sociais.
A própria penitenciária na qual foi realizado o es-
tudo representa um descaso com a população priva-
da de liberdade, dado que antes de funcionar como
instituição penal, ali funcionava um mercado público
o qual foi adaptado para uma prisão. Tal fato reitera
os problemas de estrutura da instituição e seus ree-
xos na população carcerária, como a superlotação, a
falta de atividades que permitam uma reinserção des-
tes atores sociais, sendo um produtor de sofrimento.
Entretanto, apesar dos problemas estruturais
e psicossociais na instituição, a mesma apresenta
uma forte presença de igrejas evangélicas que rea-
lizam o suporte religioso no sistema penitenciário,
sendo um ponto positivo para as pessoas em pri-
vação de liberdade, ajudando a enfrentar as adver-
sidades impostas pelo sistema penal brasileiro.
Vale destacar que por se tratar de uma pesqui-
sa com amostra não-probabilística, os presentes
achados não permitem a generalização para ou-
tros contextos de pessoas em privação de liber-
dade. Todavia, apesar das limitações apontadas,
espera-se que o presente estudo possa contribuir
para maior conhecimento acerca das RS sobre a
privação de liberdade, bem como incentivar na
promoção de políticas públicas voltadas para es-
ses atores sociais.
Destarte, recomenda-se que sejam realizados ou-
tros estudos psicossociais com pessoas em privação de
liberdade, como com adolescentes em conito com a
Lei, dentre outros atores sociais que se encontram em
instituições penais, a m de corroborar ou confrontar
os resultados apontados na presente pesquisa.
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