Abstract

The widespread use of social networks has brought opportunities and constraints at the same time, even
faster than research and knowledge on this topic. In this paper, we intend to explore the role of personal and psychosocial variables in Facebook use, considering a set of self-report questionnaires to a sample of 386 Portuguese adolescents. We found gender differences in social network use, a positive relationship with age, self-regulation and self-esteem, with peer interaction with offline contacts as the strongest predictor for social network use. These data suggest the role of this application as a mean to maintain contact with peers.

Introdução

O estudo das redes sociais é, há décadas, um campo de estudo muito fértil, nas diferentes disciplinas.Na revisão da literatura, facilmente encontramos referências já no início do século XIX (Deans, 2008),especialmente associado à antropologia e à sociologia, no estudo do comportamento e nas relações emsociedades mais ou menos complexas ou estruturadas (Deans, 2008; Mitchell, 1974). Também na investigação psicológica, este tem sido um conceito muito estudado, especialmente no âmbito da psicologia social como no âmbito da saúde, seja pelo impacto das relações no conhecimento de si mesmo e do outro, seja pela forte correlação entre a rede social de apoio com a saúde e bem-estar.

O entusiasmo e pertinência deste campo de estudo podem ser verificados em diferentes áreas

disciplinares, como são exemplo as edições especiais apresentadas recentemente pela Health Psychology (Martire & Franks, 2014), Social Science & Medicine (Tsai & Papachristos, 2015), os artigos apresentados nas séries da Anual Reviews sobre este tópico (e.g.Campbell, 2013; Smith & Christakis, 2008; Umberson, Crosnoe & Reczek, 2010; Videras, 2013), ou os estudos de revisão e meta-análises neste âmbito (e.g. Ell, 1984; Faber & Wasserman, 2002; Jeon & Goodson, 2015; Rico-Uribe et al., 2016). Com o avanço tecnológico e a chamada revolução da web 1.0 para a 2.0, novas ferramentas e possibilidades de interação mediada pela tecnologia surgiram. E diversos estudos se debruçam sobre a maneira como estas ferramentas estão a influenciar a forma como nos relacionamos com os outros e connosco mesmos (e.g. Boyd & Ellison, 2007; Castells, 2009; Baym, 2010). Se, num primeiro momento, o aparecimento da Internet, e especificamente da World Wide Web, teve um impacto decisivo na forma como os sujeitos passaram a aceder e a obter informação (Carvalho, 2008), o início dos anos

2000 trouxe um novo salto. Em 2004, Tim O’Reilly e a MediaLive International sugerem o aparecimento da Web 2.0, em que a internet deixa de ser apenas um “repositório do conhecimento humano” (Berners- Lee, Cailliau, Loutonen, Nielsen, & Secret, 1994), para permitir maior partilha, capacidade de edição e criação de conteúdos por cada utilizador. O aparecimento destas ferramentas permitiu múltiplas possibilidades de interação e colaboração dando um papel ativo ao utilizador, que deixa de ser apenas um recetor passivo para passar a ser um co construtor da rede (O’Reilly, 2006).

Na chamada revolução da Web 2.0, uma das ferramentas mais populares e das que mais entrou no quotidiano de todos foram as redes sociais online.Uma das redes sociais mais utilizada é o Facebook.

Lançada em 2004, por Mark Zuckerberg e EduardSaverin para o estabelecimento/fortalecimento derelações da Universidade de Harvard, acabou por seexpandir para outras universidades, a estudantes doensino secundário, empresas, etc. A generalização doseu uso tem trazido oportunidades e constrangimentosao mesmo tempo-ou até mais depressa-que as linhasde investigação e o conhecimento sobre este tópico.

Estando a ganhar terreno globalmente, discute-se se estarão também a influenciar os nossos modelosde interação social. Embora muito se discuta sobre autilização, especialmente junto dos mais jovens, sãoraros os estudos no nosso contexto sobre a utilizaçãode redes sociais por adolescentes. Os primeiros estudostêm centrado na adaptação de instrumentos (Dias,Garcia del Castillo, Castillo-López & Sorte, 2015;Pontes, Andreassen & Griffiths, 2016; Pontes, Patrão& Griffiths, 2014), embora apontem já diferenças degénero, sendo superior a utilização mais intensiva pelosrapazes, e em função da idade, com maior utilizaçãodos mais jovens. Dados que vão genericamente deacordo com a literatura internacional centrada nestetópico (e.g. Andreassen, Pallesen & Griffiths, 2016;Kross et al., 2013; McAndrew & Jeong, 2012).

Contudo, são menos os estudos que relacionam comoutras variáveis potencialmente implicadas no seu usoou no seu efeito, como o bem-estar, a autoestima, aautorregulação, o suporte social, ansiedade, depressãoou outras (e.g. Andreassen, Pallesen & Griffiths, 2016;Blachio, Przepiorka & Pantic, 2016; Kross et al., 2013).Nesse sentido, com o presente estudo pretendemosperceber em que medida o uso de Facebook pelosadolescentes se relaciona com variáveis pessoais e psicossociais, nomeadamente com a autoestima e autorregulação, no sentido de identificar preditores do uso destas ferramentas. Se a maioria dos estudos se centra em jovens adultos, especialmente pela maiorfacilidade de recolha de dados, importa perceber como estes comportamentos ocorrem em idades maisprecoces para o poder compreender e intervir.

Redes sociais online na adolescencia

Boyd e Ellison (2007), definem estas redes sociais online como serviços baseados na internet que permitem aos sujeitos construir um perfil (onde incluem os seus interesses, filiação, adicionam imagens,etc.) que é partilhado com outros utilizadores que pertencem ao mesmo sistema. Com base nesse perfil, é possível ao utilizador gerir e partilhar informação com outros utilizadores com quem partilham comunicação, ver e acompanhar as atividades das pessoas dessa lista de relações (Boyd & Ellison, 2007). Estas redes sociais permitem manter e reforçar as relações sociais com pessoas que já se conhecem, as também designadas de relações offline (Boyd & Ellison, 2007; Capua, 2012; Lampe, Ellison & Steinfield, 2007), com quem os indivíduos já convivem ou partilham um interesse comum. Para além destas, permitem ainda o estabelecimento de novas relações entre pessoas que, de outra forma não se poderiam conhecer, as designadas por relações online (Boyd & Ellison, 2007; Lampe, Ellison & Steinfield, 2007; Grieve, Indian, Witteveen, Tolan & Marrington, 2013).

Embora exista uma perceção de que estas ferramentas se dediquem essencialmente a finsrecreativos, diversos tem sido os trabalhos que estudam e sugerem a sua importância na criação do sentido decomunidade, partilha de experiências e recursos entreprofissionais (Hew, 2011; Uribe-Tirado & Echavarría-Ramírez, 2008) ou na divulgação de serviços eeventos, por exemplo, de bibliotecas académicas(Charnigo & Barnett-Ellis, 2007; Hendrix, Chiarella,Hasman, Murphy & Zafron, 2009). Também na áreada saúde, Boulos e Weeler (2007) discutem comoa Web 1.0, e posteriormente a Web 2.0, permitemaproximar profissionais de saúde e pacientes,promover a proximidade, um contacto mais próximoe mais dinâmico. De facto, parecem ter o potencial deaumentar o sentido de pertença numa comunidade,reduzir o isolamento social (Boulos & Weeler, 2007),aparecendo positivamente associadas ao capital social,às relações com pares e auto-estima (Ellison, Steinfield& Lampe, 2007; Johnston, Tanner, Lalla & Kawalski,2013; Kalpidou, Coustin & Morris, 2011; Steinfield,Ellison & Lampe, 2008). Os utilizadores acabam porse sentir socialmente mais envolvidos, sendo as redessociais o meio para o reforço das relações, do feedbacke das respostas dos amigos. E esses dados têm sidoencontrados em estudos em que se recorrem amostrasapenas com utilizadores de redes sociais (Steinfield,Ellison & Lampe, 2008) como utilizadores/nãoutilizadores(Ellison, Steinfield & Lampe, 2007),em áreas urbanas, mas especialmente em áreas maisrurais, com menor acesso a meios de comunicação ede formação especializada (Boulos & Weeler, 2007;Buckley, Hastings & Mottershead, 2009).

Acompanhando o entusiasmo gerado à volta dautilização das redes sociais têm também sido reforçadaspreocupações com o seu uso. Especialmente junto dosmais novos, a muitas vezes apelidada “net generation”(Tapscott, 1998) ou dos nativos digitais (Cornu, 2011;Prensky, 2001), muito se discute sobre as implicaçõesdas tecnologias no seu desenvolvimento (Bennett,Maton & Kervin, 2008). Estudos realizados emdiversos países mostram que os adolescentes tendema ser utilizadores mais intensivos do que os adultos(Andreassen, Pallesen & Griffiths, 2016; Boyd, 2008;McAndrew & Jeong, 2012; Valkenburg & Peter, 2009),encontrando-se frequentemente uma diminuição douso destas redes sociais com a idade em diversos países.No entanto, nem sempre os dados sejam totalmenteclaros na comparação com grupos de outras faixasetárias (Calvani, Fini, Ranieri & Picci, 2012; Helsper & Eynon, 2009).

E os seus principais preditores dependem muito dasvariáveis estudadas. De entre elas, as sociodemográficastêm sido recorrentemente identificadas. Assim,os utilizadores mais frequentes tendem a ser osrapazes (Drabowicz, 2014; Kuss & Griffiths, 2012;Subrahmanyam, Reich, Waechter & Espinoza. 2008), tende a diminuir com a idade (Junco, 2015; Pfeil, Arjan & Zaphiris, 2009), e com menor desempenho escolar ou envolvimento na escola (Drabowicz, 2014; Junco, 2011, 2015). Também o número de amigos tende a ser considerado um dos mais fortes preditores (Khana, Wohn & Ellison, 2014), que faz com que o uso apareça relacionado em alguns estudos com a autoestima (Gonzales & Hancock, 2011; Vogel, Rose, Roberts & Eckles, 2014; Wilcox & Stephen, 2013). Existindo menos investigação sobre o papel da autorregulação no uso da internet, um preditor importante da resiliencia e ajustamento dos sujeitos (Garcia del Castillo, Dias & Perim, 2012; Gardner, Dishion & Connell, 2008), a exploração destes processos pode dar-nos pistas para a compreensão destes comportamentos e dar pistas para a intervenção (Wilcox & Stephen, 2013). Nesse contexto, o presente trabalho pretende explorar o uso do Facebook por adolescentes, perspetivando o papel de variáveis individuais e psicossociais, como a autoestima e autorregulação, neste comportamento.

Método

Amostra

A amostra foi constituída por 386 adolescentes portugueses, a maioria rapazes (n = 235, 60.9%), com idades entre os 14 e os 18 anos (M = 16.50, DP = 1.03). Como se percebe da tabela abaixo, os país dos estudantes da amostra tinham, na sua maioria, habilitações ao nível do 2º ou 3º ciclo do ensino básico.

Esta foi uma amostra de conveniência, nomeadamente proximidade geográfica com o centro de investigação, recolhida na zona norte do país, num contexto de nível socioeconómico médio. Foram incluidos todos os alunos que apresentaram a autorização dos seus encarregados de educação.

Instrumentos

Questionário sociodemográfico. Foi utilizado um questionário, construído pelos autores, para recolher dados que permitam caracterizar a amostra, nomeadamente, idade, género, ano de escolaridade, escolaridade dos pais, mas também alguns dados sobre o uso do Facebook, nomeadamente, quantos amigos tem no Facebook, quantos dos amigos no Facebook conhece pessoalmente, quanto tempo por dia passa no Facebook.

Escala de Intensidade de utilização do Facebook (Ellison, Steinfield & Lampe, 2007), um instrumento composto por 13 itens, respondidos de forma likert, desde a opção 1-discordo fortemente -até 5- concordo fortemente, permite avaliar a intensidade da utilização do Facebook, a sua utilização com os contactos offline e para o estabelecimento de contactos online. A primeira dimensão permite avaliar os hábitos de utilização do Facebook, considerando a frequência, duração mas também a intensidade e a importância desta rede social na vida do indivíduo. A segunda dimensão permite perceber a regularidade do uso do Facebook para estabelecer/manter contacto com pessoas da sua rede social quotidiana, como os familiares, colegas ou amigos. A última dimensão permite perceber em que medida os indivíduos utilizam o Facebook para procurar novas relações ou conhecer pessoas novas a partir da rede social. Este instrumento também tem sido utilizado junto da população portuguesa, tendo sido adaptado e com bons valores de validade e fidelidade, dado o valor de alfa de Cronbach de .94 (Dias, Garcia del Castillo, Castillo-López & Sorte, 2015).

Escala de Autoestima Global de Rosenberg (1965), um instrumento constituído por 10 itens referentes ao modo como cada indivíduo se sente em relação a si próprio(a), que são respondidos numa escala de opções fechada desde 1 (concordo totalmente) a 6 (discordo totalmente). Esta escala tem sito objeto de vários estudos de adaptação para o contexto português, tendo sido também testada junto de adolescentes com resultados adequados, seja em termos de validade num modelo bi-direccional, com valores de fidelidade entre e .63 na atitude negativa em relação ao self e .74 na atitude positiva em relação ao self (Romano, Negreiros & Martins, 2007).

Escala de Autorregulação de Schwarzer (1999), um instrumento com 10 itens, que permite avaliar uma perspetiva disposicional da autorregulação, isto é, a capacidade de controlo atenção do indivíduo em comportamentos dirigidos à realização de objetivos desejados. Os itens são respondidos numa escala de resposta fechada, desde Nada Verdadeiro (1) a Mesmo Verdadeiro (4). Foi já testada e adaptada junto de adolescentes portugueses, tendo sido obtidos bons indicadores de validade e fidelidade de .67 (Dias, Garcia del Castillo & Schwarzer, 2008).

Tabela 1: Descrição da amostra Variável Resposta Frequência Percentagem Género Masculino 235 60.9 Feminino 151 39.1 Escolaridade do Pai 1º Ciclo 83 21.5 2º Ciclo 147 38.1 3º Ciclo 77 19.9 Secundário 69 17.9 Superior 3 0.8 Escolaridade da Mãe 1º Ciclo 87 22.5 2º Ciclo 135 35.0 3º Ciclo 79 20.5 Secundário 77 19.9 Superior 3 0.8

Procedimentos

Para a recolha de dados, os autores começarampela autorização dos estabelecimentos de ensino, apósapresentação dos objetivos e da metodologia de recolha dedados, seguido do consentimento aos pais / encarregadosde educação. Os instrumentos foram aplicados em horario escolar, na sala de aula, em momentos combinados comos professores. Os dados foram recolhidos de formatotalmente anónima e a participação voluntária, podendoos alunos desistir em qualquer momento. A informaçãorecolhida foi codificada e analisada com recurso aoprograma de tratamento estatístico Statistical Package forSocial Sciences, v. 15.

Resultados

Num primeiro momento, foram efetuados umconjunto de análises estatísticas para percebereventuais diferenças na utilização do Facebook, noautoestima e autorregulação em função de variáveispessoais. Como se percebe na tabela seguinte, osdados sugerem que a autoestima e autorregulação sãoaproximadamente iguais entre rapazes e raparigas,assim como a intensidade de utilização do Facebook.

Contudo, os rapazes parecem apresentar uma maiorutilização da rede social para manter os contactosoffline [t (375) = 2.898, p = .004] e para novos contactosditos online [t (375) = 4.854, p < .01]. Os tamanhos deefeito, calculados com o d de Cohen (1992) podem serconsiderados baixos (d = .31) ou médio (d = .52).

Já no que diz respeito à idade, verifica-se umarelação positiva com a utilização da rede social (r =.148, p < .01) e autoestima (r = .140, p < .01), o que significa maior intensidade no uso desta ferramenta, assim como maior autoestima entre os adolescentes mais velhos. A escolaridade da mãe aparece associada a algumas das variáveis, nomeadamente do uso do Facebook (r = -.103, p < .05) e autorregulação (r = -.113, p < .05), não sendo encontrada nenhuma relação com a escolaridade do pai (p > .05). Estes dados sugerem que quanto maior a escolaridade da mãe, menor a intensidade na utilização da rede e menor a autorregulação dos adolescentes.

De acordo com os dados, tentamos explorar a relação entre as variáveis e o desempenho escolar. Como se percebe na tabela seguinte, foi encontrada uma relação significativa entre a autoestima e as classificações no último período a Língua Portuguesa (r = .178, p < .01) e Matemática (r = .173, p < .01) e entre o uso com contactos offline e as classificações a Língua Portuguesa (r = -.127, p < .05).

Quando se tenta perceber a relação entre o uso do Facebook, autoestima e autorregulação, o número de amigos na rede e o tempo por dia, aproximadamente, que os adolescentes passam nesta rede social, percebemos um conjunto de resultados interessantes. Como se percebe na tabela seguinte, entre as varias relações significativas, destacam-se a relação positiva e forte entre o número de amigos na rede social e a intensidade de utilização (r = .493, p < .01), e em particular entre a intensidade do uso do Facebook e o contacto com a rede offline (r = .756, p < .01) e com a rede online (r = .654, p < .01), assim como entre a rede offline e online (r = .712, p < .01). Percebe-se ainda a relação entre a autoestima e autorregulação (r = .506, p < .01).

Com o recurso à regressão linear múltipla, com o método stepwise, conseguimos encontrar um modelo significativo (F = 102.770. p < .01) e com um bom ajustamento (R = .784), integrando quatro preditores da intensidade da utilização do Facebook. Destes, como se percebe na tabela 6, o mais forte é a manutenção dos contactos offline - que explica 44.2% da variância -, seguido do número de amigos, tempo de utilização por dia e, por fim, a manutenção dos contactos online.

Tablea 2: Uso do Facebook, autoestima e autorregulação em função do género. Masculino Feminino Inf. Estatística Efeito M DP M DP t gl p d Uso do Facebook 2.968 1.072 2.830 1.079 1.213 375 .226 - Com rede offline 2.924 1.115 2.593 1.022 2.898 375 .004 .31 Para contactos online 3.121 1.424 2.414 1.294 4.854 375 .000 .52 Autoestima 29.820 4.870 30.331 4.584 -.366 374 .714 - Autorregulação 27.680 4.544 27.848 4.006 -1.010 371 .313 -

Tabela 3: Uso do Facebook, autoestima e autorregulação em função da idade e escolaridade dos pais. Idade (r) Escolaridade do Pai (rs) Escolaridade da Mãe (rs) Uso do Facebook .148** -.032 -.103* Com rede offline .057 -.039 -.067 Para contactos online .097 -.004 -.064 Autoestima .140** .037 -.086 Autorregulação .084 -.101 -.113* Nota. ** Correlação significativa para 0.01

Tabela 4: Uso do Facebook, autoestima e autorregulação em função das classificações. Classificação a Língua Classificação a Portuguesa (rs) Matemática (rs) Uso do Facebook .073 .073 Com rede offline -.127* .085 Para contactos online .087 .078 Autoestima .178** .173** Autorregulação -.017 .032 Nota. ** Correlação significativa para .01; * Correlação significativa para .05.

Tabela 5: Uso do Facebook, autoestima, autorregulação, número de amigos e tempo de utilização diário. 1 2 3 4 5 6 7 1. Uso do Facebook 1 2. Com rede offline .756** 1 3. Para contactos online .654** .712** 1 4. Autoestima .194** .199** .146** 1 5. Autorregulação .163** .180** .135** .506** 1 6. Número de amigos .493** .274** .282** .163** .104 1 7. Tempo de uso diário .245** -.007 -.027 .058 .055 .098 1 Nota. ** Correlação significativa para 0.01; * Correlação significativa para 0.05.

Tabela 6: Preditores da intensidade da utilização do Facebook. Modelo 1 Preditores Comunicação com a rede offline R .665 R2 .442 R2 adj .440 ΔR2 .442 2 Com rede offline; número de amigos .738 .545 .542 .103 3 Com rede offline; número de amigos; tempo por dia .776 .601 .597 .056 4 Com rede offline; número de amigos; tempo por dia; Com rede online. .784 .614 .608 .013 Nota. F = 102.770. p < 0.01

Discussão e Conclusão

Nas últimas décadas, com a disseminação da internet e o acesso às novas tecnologias da informação e da comunicação, assistimos a alterações no relacionamento e na interação com os outros. A literatura, contudo, tem dados passos mais lentos na compreensão e na interpretação destes comportamentos, assim como dos seus significados junto de uma população que já nasceu na presença destas tecnologias. Nesse contexto, o presente estudo pretendia fazer uma leitura do uso das redes sociais, e em particular do Facebook, por adolescentes, identificando fatores que mais se associam ao seu uso.

Analisando os dados, parecem ir de encontro à literatura que diferencia aos significados do uso das redes sociais por género (Drabowicz, 2014; Kuss & Griffiths, 2012; Subrahmanyam, Reich, Waechter & Espinoza. 2008). Embora não sejam captadas diferenças na intensidade do uso, os rapazes parecem diferenciar-se pela maior utilização para manter os contactos offline, mas também para a procura de contactos online, no último caso com um tamanho de efeito já considerável. Já no que diz respeito à idade, a correlação positiva pode evidenciar algumas explicações na amostra ou culturais, uma vez que não seguem alguns estudos semelhantes realizados (Andreassen, Pallesen & Griffiths, 2016; Junco, 2015; Kross et al., 2013; McAndrew & Jeong, 2012; Pfeil, Arjan & Zaphiris, 2009). Pelos dados, parece haver uma maior utilização da rede social pelos adolescentes mais velhos, na linha de outros estudos, em menor número, que sugere uma utilização maior entre os mais velhos (Calvani, Fini, Ranieri & Picci, 2012; Helsper & Eynon, 2009). Esses dados podem ainda ser influenciados pela idade mínima para o registo na rede social, pelas características desenvolvimentais da faixa etária, marcada por maior abertura à relação com os pares e tentativa de inclusão social ou pela capacidade económica das famílias. Isso pode ser contrastado com o previsível aumento da autoestima ao longo da escolaridade (Orth, Trzesniewski & Robins, 2010) e estabilidade da autorregulação (Moilanen, Shaw & Fitzpatrick, 2010). Embora não existam muitas referências sobre a relação entre a escolaridade dos pais e o uso das redes sociais online, os resultados seguem uma tendência na literatura que associa a menor escolaridade da mãe a comportamentos de maior risco e menor autorregulação (Moilanen, Shaw & Fitzpatrick, 2010).

Os resultados reforçam ainda a relação entre o uso das redes sociais e o desempenho escolar (Drabowicz, 2014; Junco, 2011, 2015). Embora a relação seja fraca, o tempo dedicado às redes sociais pode prejudicar o envolvimento em outras atividades, como as escolares, refletindo-se num menor desempenho. Isso reflete-se ainda pelo número de amigos da rede social. Embora não tenhamos diferenciado entre os amigos apenas online ou apenas offline, os resultados permitem perceber como as redes sociales online parecem ser determinantes para a intensidade do uso destas ferramentas (Khana, Wohn & Ellison, 2014). A relação mais forte com os contactos offline pode pressupor alguma alienação das tarefas em que estão envolvidos, como referíamos antes com o desempenho escolar. No mesmo sentido, também a relação mais forte com a autoestima e os contactos offline (e.g. Gonzales & Hancock, 2011; Vogel, Rose, Roberts & Eckles, 2014; Wilcox & Stephen, 2013), como no caso da autorregulação.

Das variáveis identificadas, o contacto com amigos offline aparece como o mais importante preditor do uso das redes sociais (Hew, 2011; Khana, Wohn & Ellison, 2014). Apesar das potencialidades educativas e a diversidade de utilizações, o Facebook e as redes sociais parecem constituir-se como uma ferramenta essencialmente de contacto e proximidade entre pares, para partilhar informação e experiências maioritariamente entre pares que têm já uma relação de proximidade (e.g. Eklund, 2015; Hew, 2011). Estes dados podem fazer supor que, fruto da disseminação destas ferramentas, ao mesmo tempo que as mudanças sociais e educacionais limitam o tempo livre aos mais jovens, fazem destes artefactos recursos importantes para a sociabilização dos jovens. E dessa forma, pode fazer sentido a ausência de relação entre o uso dasredes sociais, a autoestima e autorregulação apontada em alguns estudos. No entanto, são aspetos a ter em conta em futuros estudos, eventualmente recorrendo a outras metodologias para uma análise mais profunda e contextualizada. Na literatura encontramos dados muito distintos, que sugerem o benefício da sua utilização por adolescentes com baixa autoestima (Ellison, Steinfield & Lampe, 2007; Steinfield, Ellison & Lampe, 2008), outros estudos mostram uma relação negativa do uso e da importância do Facebook e a autoestima (Andreassen, Pallesen & Griffiths, 2016; Blachio, Przepiorka & Pantic, 2016). Não se encontrando estudos centrados na autorregulação e uso das redes sociais, podem estas variáveis não estar associadas diretamente mas mediadas por outras. Eventualmente, na linha de Rae e Lonborg (2015), a inclusão de medidas de motivações para a utilização destas redes sociais pode ser útil para uma visão mais completa do papel destas variáveis psicossociais. Enquanto campo de estudo emergente, futuras investigações devem continuar a ajudar-nos a perceber como estas novas gerações, ditas nativas digitais, percebem o uso destas ferramentas e as suas consequências a médio e longo prazo.

Apesar das conclusões, algumas limitações do estudo devem ser consideradas, como a amostra, recolhida por motivos de conveniência, no norte do país. Ainda, os dados recolhidos com recurso a instrumentos de autorrelato, permitem alguma desejabilidade social que deveriam ser esclarecidas, em futuros estudos, com amostras mais diversificadas e representativas da população, triangulando os resultados com recurso a dados qualitativos que permitam maior aprofundamento da informação.